ECOS DO ALÉM
Um indivíduo pode ter as mesmas impressões digitais de alguém que já morreu? Para o delegado de polícia João Alberto Fiorini, sim. Especialista em identificação humana e cenários de crimes, Fiorini aliou seus conhecimentos ao interesse pelo espiritismo e há dez anos pesquisa o assunto. Agora, prepara-se para lançar o livro Reencarnação - Investigação Científica, que reúne casos estudados por ele e antigos registros de fenômenos semelhantes.
Ao longo desses anos, o delegado utilizou técnicas da polícia científica e contou com o auxílio de peritos criminais para produzir laudos que, segundo ele, comprovam a existência de vida após a morte. Um dos documentos, por exemplo, dá conta de uma jovem paranaense que seria a reencarnação da atriz portuguesa Eugênia Câmara, com quem o poeta Castro Alves teve um romance no século 19.
Por meio da prosopografia (estudo anatômico da face) e da grafoscopia (análise da escrita), Fiorini encontrou indícios de que o espírito de Eugênia voltou ao mundo material no corpo da moça. ‘’Os rostos das duas tinham 21 pontos de semelhança’’, afirma.
Formado em um ambiente católico no interior de São Paulo, o delegado por pouco não se tornou padre. Continua assistindo à missa semanalmente, mas também frequenta um centro espírita - hábito que adquiriu há mais de 30 anos, quando sua irmã ficou muito doente. ‘’Uma enfermeira nos aproximou da doutrina e isso trouxe conforto para a família’’, conta.
Anos mais tarde, ele mesmo esteve entre a vida e a morte, por conta de um problema grave no intestino. Foi operado em São Paulo e, durante os oito meses de recuperação, começou a se envolver com o tema que passaria a pesquisar avidamente. Já reestabelecido, participou de um programa de televisão sobre espiritismo para descobrir novas evidências. ‘’Desafiei o público a me escrever se conhecesse casos de espíritos manifestados’’, lembra.
Fiorini acredita que seu trabalho pode ser uma ‘’ferramenta para a fé das pessoas’’. Por isso, prepara a publicação de mais dois livros. O primeiro, Magnetismo e Hectoplasma, trata, entre outros assuntos, do psicoscópio, um aparelho capaz de invocar entidades.
Já o segundo lida com licantropia, a metamorfose de homem em lobo. Ou seja, fala de lobisomens. ‘’É um assunto que eu mantive em sigilo por muitos anos, mas agora resolvi divulgar’’, revela o delegado, que ainda encontra tempo para esculpir em madeira e cantar no coral da polícia. ‘’Para ser sincero, eu tenho preferido cantar a ficar falando desses assuntos pesados’’, confessa.
por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
fevereiro de 2009
OS TRIBALISTAS
Benyah: em busca de "relações verdadeiras"
Shoresh e família: "Essa vida é para encher a Terra inteira"Engenheiro Civil, Benyah deixou a cidade de Osório (RS) em busca de ''relações verdadeiras''. Visitou comunidades autogeridas em vários lugares do Brasil e da América Latina, mas não encontrou o que procurava. Mesmo as tribos indígenas, ele conta, estavam contaminadas pela perversidade.
Sua crença na humanidade já estava perdida quando, em 2002, durante o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, ele conheceu dois ''andadores'' (divulgadores) das Doze Tribos de Israel. Trata-se de um movimento internacional, dividido em confederações, que já conta com mais de 2.500 adeptos em nove países. Organizados em um regime tribal, os membros seguem uma espécie de cristianismo primitivo. Valorizam a família e não se prendem aos bens materiais.
No Brasil, há três comunidades ligadas às Doze Tribos, todas instaladas no Paraná. Juntos, os grupos de Londrina, Campo Largo e Mauá da Serra reúnem cerca de 180 pessoas. Segundo Benyah, o movimento brasileiro começou no Nordeste, no fim dos anos 80, e se deslocou para o Sul na década seguinte, por conta do clima mais propício à agricultura.
Convidado pelos andadores, Benyah passou duas semanas em Londrina e se impressionou com o que viu. ''Descobri que a única regra aqui é o amor. O resto é direcionado pela necessidade das pessoas'', explica. Pouco depois, ele ganhou um novo nome (em hebraico, como é de praxe entre as tribos) e se mudou de vez para a comunidade de Curitiba, posteriormente transferida para Campo Largo. E lá se vão quase sete anos.
Separado, o engenheiro é pais de três filhos, que moram com a mãe no Rio Grande do Sul e o visitam nas férias. ''Tenho esperanças de que, um dia, eles venham morar aqui comigo'', confessa Benyah, que atualmente mora numa barraca. ''Mora'' é modo de dizer, pois os membros do grupo praticamente só dormem em seus espaços reservados. Passam o dia trabalhando e fazem as refeições todos juntos, em uma casa central no sítio de 10 alqueires.
O terreno é de propriedade da comunidade, que também possui uma fábrica de chás orgânicos, um carro e um ônibus. Além do chá, velas artesanais, sandálias de couro e pães caseiros garantem o sustento dos moradores. Sem contar os recursos automaticamente doados pelos ''irmãos'' quando se mudam para lá. ''Quem tem uma casa, dá uma casa. Mas há quem chegue aqui com dívidas'', esclarece Benyah.
Há cinco casas espalhadas pelo sítio, uma delas em construção. Casados e solteiros moram em lugares separados, sendo que as famílias têm quartos exclusivos. As crianças, cerca de 20, são educadas ali mesmo, de acordo com a filosofia do movimento. Cada adulto trabalha com o que mais se afina, e algumas mulheres se dedicam a lecionar. Uma das professoras é a londrinense Dodavah, 34, que há dez anos largou a faculdade de Marketing para se juntar ao grupo.
Solteira, e sem um parceiro na comunidade, ela afirma não sentir falta de ter um relacionamento afetivo. Buscar alguém fora dali também está fora de cogitação. ''Simplesmente não faz sentido'', diz. Benyah arremata: ''Isso não costuma acontecer. E se acontece, a pessoa vai embora''.
O caso mais comum é o de Shoresh, 29, que conheceu Zait, 22, quando já morava no sítio. Os dois se casaram e hoje têm uma filha de 2 anos, Chedavah. Ex-mergulhador profissional, ele não vê os pais há dois anos. ''Minha mãe, que é psicóloga, foi totalmente contra a minha mudança. Depois de um ano, ela se arrependeu e até já veio me visitar uma vez'', conta.
Shoresh faz questão de dizer que ele e seus ''irmãos'' estão separados, e não isolados da sociedade. Explica que, todas as sextas-feiras, no fim da tarde, a comunidade é aberta para convidados. Aos sábados e domingos, é a vez do grupo visitar Curitiba, para vender seus produtos e divulgar a filosofia das Doze Tribos.
Neste momento, aliás, há um grupo em Florianópolis preparando o que pode ser uma nova sede do movimento. ''A idéia é criar milhares de pequenos núcleos como o nosso. Essa vida é para encher a Terra inteira. É o plano de Deus'', afirma Shoresh, sem conter a empolgação.
APENAS O NECESSÁRIO
De acordo com Benyah, são poucas as regras que regem a vida na comunidade. A principal delas, ao que parece, é abandonar a individualidade para viver em função do grupo. Tudo é dividido, ele explica, ''mas não de uma forma comunista, rigorosamente igual''.
Cada irmão elabora uma lista do que precisa, e a distribuição de roupas e outros objetos pessoais é feita de acordo com as necessidades - que não são muitas, já que todos se vestem da maneira mais simples possível.
No entanto, existe uma certa rotina a ser seguida. Todos acordam às 6 da manhã e uma hora depois já estão reunidos na casa central. Ali eles rezam, cantam e dançam antes da primeira refeição. Também praticam exercícios, como caminhada e alongamento. O trabalho para valer começa às 8 horas. Há atividades para todos: limpar, cozinhar, lecionar, plantar, construir, costurar, etc.
O almoço, com base em alimentos naturais e orgânicos, inclui mais uma sessão de oração, dança e cantoria. O mesmo acontece no fim da tarde, quando termina a jornada. E assim vai, até às 22 horas, quando o grupo se recolhe para dormir. Televisão, nem pensar. ''A gente até tem uma. Mas só usa de vez em quando, para ver algum vídeo gravado aqui mesmo'', conta Shoresh, que teve sua festa de casamento registrada.
Nem tudo é harmonia na comunidade, claro. Quando surge algum impasse, é acionado um conselho composto por sete homens ''responsáveis'', como diz Benyah. As mulheres só podem participar de um outro conselho, formado por casais.
Normalmente, quem cria problemas são aqueles que contribuem menos para a coletividade. Se a situação se agrava, a pessoa é convidada a se retirar. ''Não deixamos os conflitos sem resolução'', garante Benyah. ''O que nos mantém unidos é justamente a paz que temos uns com os outros'', completa Shoresh.
UMA VIDA SIMPLES
Não foi sem uma dose de insistência que a reportagem da FOLHA conseguiu entrar na comunidade das Doze Tribos em Campo Largo. Como tudo é decidido coletivamente, a visita levou cerca de um mês para ser autorizada.
O sítio, de fácil acesso, fica a menos de 20 minutos de Curitiba. Chegando lá, fomos recebidos por Benyah e encaminhados para a casa central. Ali, uma senhora nos serviu o chá que eles mesmo produzem e um bolo de gosto forte.
Não fosse pelo entra-e-sai da criançada e a música étnica que tocava no aparelho de som, o silêncio reinaria no lugar. Nem a construção de uma nova casa, a poucos metros, parecia atrapalhar aquela calmaria.
Terminado o papo com Benyah, Shoresh e Dodavah (que passavam pela sala e aceitaram contar suas histórias), fomos levados para um giro pela propriedade. Tudo muito simples e rústico, a começar pelo quartinho que serve de sala de aula para os pequenos.
Também conhecemos a oficina, onde um grupo trabalhava com velas aromáticas e sandálias de couro. A fábrica de chás ficou para outro dia, pois está instalada em Rondinha, a poucos quilômetros dali.
Visitamos, ainda, uma morada no fim do terreno, próxima de um barranco. Era, até o dia anterior, o canto de Shoresh, que agora dorme com a família em um quarto da casa central. A estrutura? Cama de casal, berço e estante. O banheiro fica do lado de fora.
Antes de voltarmos para a redação, o grupo posou para uma última foto e nos convidou para almoçar. O cheiro da comida estava ótimo, mas tivemos de recusar por conta de nossos horários ''apertados''. Quando já estávamos no carro, a mesma senhora que nos serviu o lanche veio correndo entregar um pão caseiro de presente.
Na estrada, foi impossível não refletir sobre a rotina louca da cidade, a eterna pressa do jornalismo e os nossos filhos - que, ao contrário das crianças da comunidade, não estavam com os pais.
ORIGENS E CONTROVÉRSIAS
O movimento das Doze Tribos foi fundado nos Estados Unidos, no início da década de 70, por Elbert Spriggs e sua mulher, Marsha. O nome é inspirado nas unidades patriarcais do Antigo Povo de Israel, que, segundo a tradição judaico-cristã, originaram-se dos descendentes de Abrãao.
As primeiras reuniões aconteciam na casa dos Spriggs, em Chattanooga, no estado do Tennesse. Em 1972, o casal criou um ministério para jovens, a Brigada da Luz. Com o tempo, os membros perceberam que poderiam viver comunitariamente, dividindo tarefas e compartilhando os resultados. Boa parte de seu sustento vinha de um café, o Yellow Deli, o primeiro de uma série de lojas espalhadas pelos EUA.
Além dos cafés, as comunidades ligadas às Doze Tribos possuem negócios variados, como fábricas de produtos naturais (chás, velas, cosméticos, etc.), gráficas e indústrias de móveis. Estas últimas foram motivo de polêmica em 2001, quando se descobriu que crianças de um grupo de Nova York estavam envolvidas na produção.
Três anos depois, na Alemanha, sete integrantes de uma comunidade foram presos por educar seus filhos em casa - o que é proibido no país. Na esteira das denúncias, surgiram também acusações de racismo e anti-semitismo contra o movimento. Para se defender, os membros alegam que há muitos negros no grupo e destacam sua origem judaica.
Doze Tribos no Brasil
por OMAR GODOY
com fotos de MARCOS BORGES
AYAHUASCA SEM DOGMA
Tony, com a namorada Abigail: "filme do inconsciente"
Participantes se preparam para o início do ritual
O litro do chá custa R$ 80Produzida a partir da fervura de duas plantas amazônicas - o cipó de jagube e as folhas da chacrona -, a bebida contém DMT, um elemento tóxico e psicoativo que pode causar alucinações. A Secretaria Nacional Anti-Drogas permite sua utilização, porém restrita a ambientes religiosos. Até aí, nenhum motivo para polêmica. Não fosse o fato de que os rituais ayahuasqueiros têm se proliferado pelos centros urbanos nos últimos anos.
Estima-se que 20 mil brasileiros são adeptos das três religiões sincréticas calcadas no uso da substância: Santo Daime, União do Vegetal (UDV) e Barquinha. Esse número, no entanto, pode dobrar quando entram na conta os centenas de grupos independentes espalhados pelo Brasil.
Só em Curitiba existem, pelo menos, dez deles. Do novato Centro Universalista Mãe Terra (CEUMT), com cerca de 15 frequentadores, ao consolidado Instituto Ayahuasca, cujo espaço costuma receber até 60 pessoas por sessão. Sem contar iniciativas isoladas, promovidas em círculos restritos de amigos.
O psicólogo Fernandes Ribeiro, 38, foi praticante de uma religião ayahuasqueira (que prefere não identificar) durante 18 anos. Insatisfeito com a expansão da instituição, desvinculou-se e, há poucos meses, fundou o CEUMT. "A coisa ficou tão grande que inviabilizou aquele contato original, essencial. Quanto mais gente envolvida, mais regras devem ser criadas para controlar o sistema", diz.
Ribeiro afirma que a popularização dos grandes cultos não é a única motivação para a formação dos sistemas independentes. De acordo com ele, há quem simplesmente não se identifique com a simbologia e os dogmas do Daime e seus congêneres - que podem contar com danças, hinos e o uso de vestimentas específicas, entre outras obrigatoriedades.
Enquanto os encontros do CEUMT ainda ocorrem na casa de Ribeiro, o Instituto Ayahuasca está em um estágio mais avançado. Criado há três anos, tem como sede o centro de terapias alternativas comandado por seu fundador, o acupunturista Fernando Cracco, 43. Trata-se de uma instituição legalizada e sem fins lucrativos, que inclusive mantém um cadastro formal de seus freqüentadores. "Está tudo aqui, à disposição da Polícia Federal", diz Cracco, mostrando uma pasta lotada de fichas.
O terapeuta conta que teve sua primeira experiência com ayahuasca há cinco anos, orientado por um "mestre" de origem peruana. "Cada grupo tem seu sistema. O nosso é baseado nas tradições maias e astecas", afirma. Ainda assim, Cracco acredita que os independentes formam, na verdade, um único e grande grupo, marcado pela ajuda mútua.
Essa cooperação, ele explica, inclui a circulação do chá. O problema não é exatamente o preço (em torno de R$ 80 o litro), e sim a dificuldade para consegui-lo. "Já sofremos muito por falta da ayahuasca, por isso temos o projeto de iniciar uma produção própria", revela o terapeuta, que muitas vezes fala da bebida como se ela tivesse vida.
Sobre a possibilidade de criar "franquias" do instituto, Cracco não titubeia: "Nem pensar! Isso vai contra a nossa proposta". Sua meta, no entanto, é organizar um espaço com capacidade para 400 pessoas. "Mas isso não fui eu que defini. Foi o ayahuasca que me passou", garante.
"CÉUS E INFERNOS"
Mais de 50 pessoas se reuniram, no último domingo, na sede do Instituto Ayahuasca, no bairro do São Francisco, em Curitiba. Gente, basicamente, de classe média e formação universitária, mas de todas as idades. Já passava das 14 horas quando Fernando Cracco, responsável pelo centro, iniciou uma preleção.
Descalços e sentados em cadeiras de plástico, os participantes ouvem compenetrados suas orientações. Praticamente um terço dos presentes estava ali pela primeira vez, trazidos por amigos, parentes ou parceiros. Como o administrador de empresas Tony Donaccorso, 43. Sua namorada, Abigail, bebeu o chá há pouco tempo e o convenceu a experimentar também. "Sou ateu, mas hoje acordei querendo fazer uma coisa diferente", diz Tony.
Mais escolada, a estudante de Educação Física L.N., 29, ajuda na organização do encontro. Cadastra os visitantes e recolhe R$ 10 de cada um - valor que custeia a bebida. Ela conta que começou a visitar o instituto no ano passado. "Já vinha buscando um lado espiritual e até cheguei a frequentar um centro espírita, mas não gostei".
Há quatros meses, L.N. perdeu a mãe. Hoje, acredita que a aproximação com a ayahuasca serviu como uma espécie de "preparação" para o momento doloroso. "O sofrimento é o mesmo. A diferença é que eu compreendo melhor meus sentimentos", reflete.
G.D. foi professor de L.N. na faculdade. Especialista em Fisiologia, era "totalmente ateu" até que, por insistência da aluna, conheceu o instituto, em junho. "Naquele mesmo dia, matei minha descrença", afirma.
Usando uma camiseta com motivos hindus, ele também exibe uma aliança de noivado. "Tinha uma espécie de bloqueio nos meus relacionamentos. Meus namoros não duravam mais de quatro meses", confessa, sem esconder a felicidade pela mudança.
Durante a rápida palestra, Cracco explica os detalhes do ritual e descreve os benefícios trazidos pelo chá. Entre eles a possibilidade de curar dependentes químicos e viciados em geral. "A ayahuasca é uma professora. Ela vem para ensinar e libertar a pessoa de tudo o que a escraviza" diz. E enfatiza: "Vocês vão ter um encontro com vocês mesmos, com seus céus e infernos".
Na seqüência, todos vão para o subsolo, equipado com colchonetes, cobertores e sacos plásticos (é comum vomitar ou ter diarréia durante o processo). Embalados por mantras e CDs com temas new age, os participantes enfim tomam o chá, em copinhos de café. Seguirão deitados até às 21 horas, sob a supervisão de Cracco e seus assistentes. Antes, todas as portas do instituto são trancadas - e a reportagem é obrigada a se retirar.
Na segunda-feira, pela manhã, Tony relata sua jornada. Por telefone, revela que teve a melhor experiência de sua vida. "Foi como ver um filme muito claro sobre o meu inconsciente. Percebi pontos positivos e negativos e entendi porque tenho determinados problemas".
Alguns momentos, ele admite, foram de tristeza e angústia, principalmente quando questões familiares vieram à tona. Mesmo assim, o administrador pretende voltar ao centro. "Isso não tem nada a ver com religião. Tem a ver com você mesmo, com uma descoberta pessoal. Com o ayahuasca, ninguém precisa de psicólogo".
A julgar pelos relatos, essa interiorização, somada à independência de dogmas e sacerdotes, é o que tem atraído cada vez mais interessados aos grupos ayahuasqueiros. Mais do que isso, como dizem os ayahuasqueiros, só tomando para saber.
OPINIÃO PROFISSIONAL
A professora Maria Virgínia Cremasco, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é orientadora de um grupo de alunos que pesquisa o uso da ayahuasca em centros urbanos. Ela explica porque a procura pela bebida tem aumentado.
"O ayahuasca induz a estados alterados que proporcionam vivências diferenciadas. A pessoa tem acesso rápido a um material psiquíco que faz muito sentido para ela, porque não veio de fora para dentro", diz a psicóloga, que revela já ter experimentado o chá.
De acordo com a professora, quem consome a bebida pode descobrir a razão de algum sofrimento ou angústia - e isso tem um resultado positivo. "Minha única crítica é quanto ao processo se limitar ao ritual. É preciso fazer um trabalho terapêutico em seguida, para encontrar instrumentos e ferramentas que possam dar significado ao que se descobriu. Do contrário, nada muda".
Presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria, Marco Antonio Bessa compara o ayahuasca ao LSD e alerta para o risco do uso fora do contexto ritualístico. "É mais seguro quando há um controle social, no sentido de tomar o chá em datas e quantidades específicas".
Especialista em dependência química, ele não confirma a eficácia da bebida no tratamento de viciados, como prometem alguns grupos independentes. "Isso ainda é folclore. Na minha avaliação, só se substitui uma substância por outra".
E se o leitor da FOLHA souber que o filho freqüenta um grupo ayahuasqueiro? Deve se preocupar? "Esse pai deveria acompanhar o filho. É melhor que o jovem vá a um culto sério do que ao bar, para consumir fumo e álcool, muito mais perigosos", diz Maria Virgínia. Basso é mais cauteloso. "Cada família tem seus valores. Mas, como pai, eu me preocuparia", conclui.
por OMAR GODOY
com fotos de LETÍCIA MOREIRA (chá)
e MARCOS BORGES (outras)
novembro de 2008
REINO DOS NEGÓCIOS
A cantora e empresária Joelma Souza aposta no Cálice Cristão
Ubiratan Costa divulga a Dança do Céu
Ajoelhada no palco do Marumby ExpoCenter, Marisa Lobo chora e pede perdão a Deus. Ela é a organizadora da Expocristo, a segunda maior feira de consumo cristão do País, e alguma coisa parece ter dado errado na programação do evento. ''Senhor, me perdoa se o meu trabalho não foi suficiente. O diabo quer nos destruir, mas eu prometo que vou melhorar'', clama, diante de uma platéia de centenas de pessoas.
Era sábado, o dia mais ''quente'' da Expocristo, que abriu na quarta-feira passada e terminou no domingo. Os shows musicais deveriam começar às 10 horas, mas Marisa impediu os grupos gospel locais de tocar antes da apresentação do cantor David Quinlan, popstar do meio evangélico. A chiadeira foi geral.
"Quem resolve cantar para Deus não pode ter estrelismo, e os mais jovens ainda não entendem isso'', diz a organizadora, já refeita da emoção que a dominou no palco. ''Pedi perdão a Deus mesmo estando com a razão, para acalmar o coração das pessoas'', completa.
Marisa é empresária e membro da igreja Templo das Águias. Criou a Expocristo há seis anos, inspirada na Expolit, a maior feira evangélica do mundo, realizada em Miami. Em sua quarta edição, o evento curitibano contou com 200 expositores e cerca de 50 mil visitantes. Só perde em tamanho, no Brasil, para a Expocristã, de São Paulo.
Estima-se que o mercado cristão movimenta R$ 1 bilhão por ano no País. São mais de 30 milhões de evangélicos, espalhados por 200 mil pontos de pregação. Influenciado por uma rede gigante de rádios, sites e emissoras de tevê, esse público consome avidamente tudo o que leva o selo ''gospel''.
Camisetas, livros e CDs são os campeões de vendas. Mas há de tudo um pouco nos estandes da feira - bíblia interativa em CD-Rom, plano de saúde evangélico, SPA espiritual, cursos para pastores, equipe de DJs gospel, artesanato cristão e até um portal de internet dedicado aos empresários do setor.
Recém-lançado, o site Reino dos Negócios pretende divulgar informações e oportunidades comerciais para todas as denominações evangélicas. Criado pelo casal Sócrates e Regina Ribas, ligado à Igreja do Evangelho Quadrangular, o portal vende anúncios na forma de banners e hospeda sites de instituições cristãs.
Sobre o slogan ''Negociai até que eu venha'', Sócrates explica que se trata de uma frase de Jesus, retirada de uma passagem bíblica. ''Com isso, ele quis dizer que não devemos ficar devotados apenas ao lado espiritual. Enquanto Jesus não volta à Terra, a vida continua, e temos de tocar nossas atividades do dia-a-dia''.
Mas, afinal, como é ganhar o pão ao mesmo tempo em que se louva ao Senhor? Para Marisa Lobo, o mercado gospel é um comércio movido à fé em Deus. ''Se eu tenho uma fábrica de camisetas, por que não vender peças que falem do amor a Jesus?'', exemplifica.
Sócrates, por sua vez, acredita que o empresário cristão tem a missão de evangelizar as pessoas com seus negócios. ''Eu estaria sendo egoísta se não compartilhasse com os outros o que me abençoa''.
O fato é que, historicamente, os evangélicos nunca condenaram o lucro. A ordem é prosperar aqui na Terra mesmo, ao contrário do que pregam as religiões para as quais só se pode ser feliz no reino dos céus.
Mas isso não significa que o caminho dos empreendedores gospel já esteja pavimentado pela vontade do Senhor. ''No ano passado, a feira teve um prejuízo de R$ 15 mil'', revela Marisa. ''Foi a fé que me fez organizar o evento novamente. Hoje, estou com todas as minhas dívidas pagas e já faço planos para 2009'', afirma a empresária, em tom de testemunho.
COM FÉ, RUMO AO SUCESSO
Não faltaram curiosidades nos corredores da Expocristo. E por mais que a viabilidade comercial de alguns produtos seja questionável, os empreendedores apostam na fé e no poder de oração para obter sucesso no mercado.
Em um canto meio abandonado da feira, a empresária Joelma Souza enumera as vantagens de sua mercadoria. Vendido em embalagens de 48 ou 96 unidades, o Cálice Cristão é um suco de uva acondicionado em pequenos copinhos plásticos descartáveis que imitam cálices de igreja. Uma novidade ''prática, higiênica, sem aromatizante e com a unção que merece'', como anuncia o folder.
''É para não ter problemas com a vigilância sanitária'', afirma Joelma, que também ressalta a economia proporcionada pelo produto. ''Você evita o desperdício e não precisa pagar ninguém para lavar as embalagens depois''.
O Cálice Cristão é apenas um meio de sobrevivência para a comerciante. Joelma quer mesmo emplacar uma carreira como cantora gospel, e aproveita o estande para divulgar seu novo CD. Ligada à Assembléia de Deus, ela conta que segue o estilo conhecido como ''adoração''. ''É uma música menos agitada, que serve como alerta para você mudar alguma coisa na sua vida'', diz.
Também chamaram a atenção as vídeo-aulas em DVD do bailarino Ubiratan Costa. Ao lado da mãe, ele veio de Itajaí (SC) para divulgar o que chama de Dança do Céu. ''Cada movimento tem um significado, uma mensagem por trás. Ninguém levanta o braço só por levantar'', explica, apontando para uma tevê de plasma.
De acordo com Ubiratan, que chegou a ensinar a dança da garrafa antes de ''aceitar Jesus'', os bailarinos gospel se retiram do palco antes do fim da música. ''Dessa forma, a glória vai só para Deus'', afirma.
por OMAR GODOY
com fotos de LETÍCIA MOREIRA
julho de 2008
O ECUMENISMO EM PESSOA
Uma das nações mais antigas do planeta, a Índia sofreu diversas invasões ao longo da História. Inclusive de portugueses, que no século 16 entraram pelo estado de Goa e disseminaram um pouco de sua língua e da tradição cristã em cidades da costa do Mar da Arábia.
Entre elas Mangalore, dominada por Portugal entre 1568 e 1659. Hoje, cerca de 30% da população local ainda é católica (número alto para os padrões indianos) e preserva o costume de batizar seus filhos com nomes lusitanos - principalmente de santos.
Dos mais de 1,1 bilhão de habitantes do país, "apenas" 35 milhões seguem o cristianismo. O que torna o catolicismo praticado por lá um tanto diferente do tradicional, como explica o padre Joachim Andrade, 45 anos, nascido em Mangalore e radicado no Brasil desde 1995. "Existe todo um modo de ser indiano, uma cultura tão forte que simplesmente impede as pessoas de serem 100% católicas", diz.
Não foi sem conflitos interiores que o sacerdote aprendeu a lidar com essa dualidade. Assumidamente "inquieto", ele resolveu estudar Filosofia e Teologia para entender melhor o ambiente ao seu redor. Em paralelo, envolveu-se com a dança clássica indiana, tornando-se bailarino e pesquisador dessa manifestação ao mesmo tempo artística e espiritual.
Ordenado pela Congregação do Verbo Divino em 1992, Andrade escolheu o Brasil para atuar como missionário. Encantado desde a juventude com a Amazônia, Brasília e a Teologia da Libertação, acabou sendo enviado para a Paróquia Santo Estanislau, em Curitiba, onde os verbitas tinham maior necessidade de pessoal na época.
Inicialmente, o padre optou por não expor seu lado bailarino. Até que um colega de Guarapuava, indiano como ele, revelou essa "identidade secreta" a uma turma de praticantes de ioga. Andrade aceitou o convite do grupo para realizar uma apresentação e desde então percorre o país levando a dança indiana a ambientes ecumênicos.
Decidido a construir uma ponte entre a arte e seu credo, o missionário experimenta dançar em igrejas, utilizando temas bíblicos. Também insere elementos de meditação durante a homilia. Mas as primeiras reações dos fiéis não foram das melhores. Houve até quem o acusasse de profanar o altar, por se apresentar sem camisa (como é comum entre os indianos).
Andrade logo percebeu que a exposição do corpo incomodava mais do que a dança em si, e passou a vestir uma kurta (túnica indiana). O passo seguinte foi vincular seus conhecimentos ao universo acadêmico, para aprofundá-los e conquistar respeitabilidade. Cursou mestrado e doutorado, sempre tendo a expressão cultural de seu país como tema de teses e dissertações. Em junho deste ano, lançou o primeiro livro: Dança Clássica Indiana - História, Evolução, Estilos.
Apesar do ineditismo de seu trabalho, o padre não se considera um renovador - só quer transmitir o que a Índia tem a oferecer aos brasileiros. "Busco mostrar que a dança é uma outra forma de rezar. E que a meditação e o silêncio despertam a consciência e a compaixão", diz Andrade, o ecumenismo em pessoa.
por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
outubro de 2008
PROFETA-PRODÍGIO
Daniel Pentecoste com o pai e a irmã: ''atração diferente'' nas igrejas
Lembram da Ana Carolina, a ''menina pastora'' que virou hit no YouTube? Pois ela tem uma versão curitibana: Daniel Pentecoste, um garoto de 7 anos que há três percorre as igrejas evangélicas divulgando a palavra divina.
Com a agenda lotada até dezembro, Daniel já tem compromissos marcados em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo. ''Toda igreja quer ter uma atração diferente nos fins de semana. Como os pastores mais famosos chegam a cobrar até R$ 20 mil por culto, acabam procurando os cantores e pregadores mirins'', explica o pai do menino, Roberto Camargo, 47.
Metalúrgico, Roberto trocou a perspectiva de ter um emprego fixo pelo objetivo de consolidar a carreira de Daniel e sua irmã, a cantora Sara, de 12 anos. Além de empresário, ele cuida das crianças em tempo integral na casa de quarto e sala na Vila Oficinas. ''A mãe deles nos abandonou, não quis saber desse negócio de ser crente'', conta o fiel da Assembléia de Deus.
Ainda que tenha brigado na Justiça pela guarda dos dois, Roberto não deixa de receber críticas por agenciar os filhos. Há pouco tempo, teve de se explicar no Conselho Tutelar depois que os garotos passaram dez dias longe da escola. Mas provou que havia avisado com antecedência e o mal-entendido foi desfeito.
''O que eu posso fazer se eles nasceram com esse dom e adoram o que fazem?'', justifica o pai, que anda pela cidade em um carro plotado com a foto do menino. Os recursos para manter a família, ele diz, vêm da venda dos CDs e DVDs gravados pelos filhos. As igrejas em que se apresentam também contribuem, doando roupas e até mesmo valores em dinheiro.
De terninho e cabelos bem penteados, Daniel imita as expressões e o gestual dos adultos. Anda no meio da platéia, enxuga o rosto com uma toalha e grita em momentos mais exaltados da pregação. Seu ídolo é o pastor Marco Feliciano, ''popstar'' do meio envangélico conhecido por usar um tom muitas vezes agressivo.
Questionado se o filho sabe do que está falando, Roberto admite: ''O Daniel não entende nada, mas também não decora''. As mensagens proferidas, ele garante, surgem do poder do Espírito Santo. ''Meu filho é um profeta que transmite o que cada igreja precisa naquela hora''.
E se Daniel e Sara, quase uma adolescente, decidirem largar a religião quando ficarem maiores? ''Aí eles vão ter que se resolver com Deus. A minha parte eu estou fazendo'', afirma o pai.
por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
setembro de 2008
SÓ NO QUINTAL DO VIZINHO
espaço oficial para a prática do naturismo






