TESTEMUNHA EM TRÂNSITO

O taxista-escritor Eloir José: viagens, perigos e propostas indecentes

De Taxi Driver ao Táxi do Gugu, a figura do "chofer de praça" já faz parte da cultura moderna. De um ponto de vista romantizado, o motorista é o observador do cotidiano, o elemento neutro a quem se pode revelar até os segredos mais cabeludos.

"As pessoas acham que nunca mais vão me ver e acabam falando coisas que talvez não tivessem coragem de contar para ninguém", concorda o taxista Eloir José, 29 anos, ele mesmo testemunha de inúmeras histórias improváveis.

Quantos de seu colegas já não disseram que um dia escreveriam um livro? Pois Eloir colocou a mão na massa e, há quatro anos, começou a anotar todas as passagens interessantes de sua rotina ao volante. Vários cadernos depois, o motorista reuniu o material e, no fim do ano passado, viu suas memórias ganharem as ruas.

Com o título de Meu Táxi Não Fala... Ah, Se Falasse!, o livro traz 40 histórias curtas narradas na primeira pessoa. Há desde encontros com celebridades a flagrantes de infidelidade, passando por perigos, viagens interestaduais e exemplos de generosidade. Também não faltam relatos de propostas indecentes para o motorista, todas devidamente recusadas. "Algumas eu topei, mas essas só vão entrar no segundo livro", confessa.

Sim, o taxista garante que tem anotações suficientes para outros dois volumes semelhantes. Mas, por enquanto, quer fazer circular a tiragem de mil cópias do primeiro, que bancou do próprio bolso. "Cheguei a negociar com quatro editoras. Só que eu sempre saía em desvantagem nos contratos", conta.

Disponível em algumas livrarias da cidade, Meu Táxi Não Fala... também é oferecido, ao preço de R$ 20, para os passageiros que embarcam em seu carro. Segundo Eloir, cerca de 200 exemplares já foram vendidos "em trânsito" - uma média de oito por dia.

Escrever é um hobby, mas também quero ganhar dinheiro com isso", planeja. O motorista, no entanto, não se vê longe do volante. "Acho que nunca vou deixar de trabalhar com táxi. É dele que surgem todas as minhas histórias".

O livro de sua vida? "Não sei o nome do autor, mas é Perigos no Mar. Já li umas três vezes", revela Eloir, citando um dos títulos juvenis da série Vaga-Lume, da editora Ática, escrito por Aristides Fraga Lima.

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
janeiro de 2009

FEITO GENTE

Shopping incentiva a circulação de animais,
mas a novidade contrasta com a proibição
da entrada de "vileiros" em outros espaços

Dori e Camille passeiam com as cadelas Vida e Pink: família

Adesivo sinaliza as lojas que permitem a entrada de cães e gatos


"Este não é o momento para dispensar nenhum tipo de consumidor", diz Cláudia Negretti, gerente de uma loja de roupa íntima no Shopping Curitiba. A frase talvez resuma a nova campanha do centro de compras, que agora incentiva o público a passear pelos corredores com seus animais de estimação.

Mas não se trata de atender apenas mais um nicho específico - e sim um grande grupo de consumidores. De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Pequenos Animais, o Brasil é o segundo maior "mercado pet" do planeta. São 31 milhões de cães e 15 milhões de gatos, que movimentam cerca de R$ 3 bilhões por ano só no segmento de rações.

No geral, o gasto médio anual por bicho fica em torno dos R$ 390, incluindo também vacinas, acessórios, remédios e embelezamento. Não é à toa que há um pet shop em cada esquina do país, seja nas periferias ou nos bairros nobres.

Por essas e outras, Cláudia não pensou duas vezes antes de aceitar a entrada de animais na loja (outra proposta do shopping, que sinaliza os locais simpáticos aos pets com um adesivo na vitrine). "A dona tem pavor de cachorro, mas sabe que, hoje em dia, algumas famílias tratam os bichos como filhos", revela.

Que o diga a administradora de empresas Dori Bonatto, dona das cadelas Vida e Pink. Ou melhor: quase mãe, como ela mesma diz. Animada com a novidade do Curitiba, Dori conta que chegou a esconder um dos animais numa sacola para circular em um shopping de Camboriú (SC). Tudo para não desgrudar do bicho.

"Costumo dizer que tenho três filhas", brinca a mãe de uma jovem de 20 anos, Camille. Depois que a garota cresceu, ela passou a mimar Vida e Pink. Até mochilas as cadelas usam.

Para Dori, a relação com os animais é mais fácil. "Você deixa as bichinhas presas no apartamento o dia inteiro e, quando chega em casa, depois do trabalho, elas estão esperando felizes da vida. Já o marido fica reclamando, a filha pede dinheiro..", diz.

REGRAS DE CONVIVÊNCIA

Nos outros shoppings da cidade, os animais de estimação só são permitidos no colo dos donos. No máximo, podem perambular em áreas próximas a pet shops. "Na verdade, ninguém barrava os cães. A diferença é que nós somos os primeiros a incentivar a entrada. Essa é a inovação", afirma a gerente de marketing do Curitiba, Gabrielle Zaniollo.

As regras de convivência, ela explica, começam pelo porte dos bichos, que podem pesar até 20 quilos. Gatos, por sinal, também são recebidos. Os cachorros devem usar coleiras ou guias quando estiverem no chão. E a circulação na praça de alimentação é autorizada apenas para os cães-guia de deficientes visuais.

A grande dúvida, no entanto, dá conta da higiene. Gabrielle espera que os próprios donos removam a sujeira feita por seus bichos. Ainda assim, os funcionários da limpeza estão de prontidão para resolver esse tipo de problema.

Questionada sobre a possível rejeição de parte do frequentadores, Gabrielle afirma que a direção do shopping não tem esse receio. "Caso um animal crie algum constrangimento, nossa equipe de orientação ao público está preparada para abordar o dono e contornar essa situação", diz.

Para ela, os donos de cães e gatos estão cada vez mais conscientes de que devem respeitar quem não gosta de bichos por perto. "Essa é uma tendência mundial. Só estamos equalizando o shopping com o que acontece lá fora".

Mas o Brasil não é a Suíça. Nesta terra de contrastes, jovens da periferia (conhecidos como "vileiros" ou "calçudos") continuam sendo barrados nos shopping centers da cidade - pelo fato de estarem em grupo ou simplesmente por vestirem roupas inadequadas. Aí surge a pergunta: por que os cachorros podem entrar enquanto os pobres ficam de fora?

"O problema não é a pobreza", diz Cláudia, da loja de lingerie. "É que tem uma turma que só vem aqui para barbarizar. Você não imagina a confusão que eles fazem no domingo".

Para ela, os shoppings deveriam promover ações de integração. "Que tal criar uma ‘semana dos calçudos’? Poderia ter atividades de break, tatuagem, grafite", sugere. "Pensando bem, acho que os outros lojistas não aceitariam", recua.

Gabrielle garante que ninguém é impedido de entrar no Curitiba. E se alguém trouxer um vira-lata? "Também será bem recebido", ela assegura.

Então está combinado: domingão é dia de bombar o shopping com a cachorrada!

"IRMÃOS EMOCIONAIS"

Do ponto de vista técnico, a convivência de pessoas e animais no shopping center não prejudica a saúde de nenhuma das partes. É o que diz o veterinário Wagner Bueno, um dos delegados do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná.

De acordo com ele, os "pets" frequentam clínicas e são vacinados, por isso não transmitem zoonoses. Acostumados a viver em apartamentos, também não correm o risco de se estressar em um ambiente fechado. "O animal ansioso se estressa em qualquer lugar, até na pracinha. Esse paciente precisa ser tratado", explica.

Para o veterinário, os animais de estimação hoje têm uma função social, são "irmãos emocionais" dos humanos. "Está comprovado que o idoso que convive com um animal pode ter até mais 15 anos de vida. Cardiopatas, por sua vez, têm menos chances de reinfartar quando são donos de bichos", diz.

Bueno, no entanto, vê como um exagero o consumo de certos produtos e serviços oferecidos pelos pet shops. "Hoje existe até ofurô e vinoterapia para cachorro. Isso não tem efeito nenhum. Pelo contrário. Roupas, por exemplo, fazem mal para os animais", alerta.

por OMAR GODOY
com fotos de THEO MARQUES
fevereiro de 2009

O NOME COMPLETO

Giancarlo Rufatto: foco aqui, e não em Londres

Reza a lenda que Giancarlo Rufatto levou um choque elétrico quando era criança. A sequela foi uma leve paralisia no braço esquerdo, que ele só foi descobrir na adolescência, quando sentiu dificuldade de tocar violão.

Expulso da banda de covers que formou com os colegas do Cefet de Pato Branco, Giancarlo resolveu compor as próprias músicas, com notas mais adequadas a sua pequena limitação. Desde então, tornou-se um compositor incansável, autor de canções marcadas pelo romantismo e sonoridades acústicas.

Hoje, aos 27 anos, o artista se divide entre Curitiba e Coronel Vivida, sua cidade natal, na região de Pato Branco. Formado em Publicidade, faz trabalhos avulsos para se manter, mas seu foco é mesmo a música. Participou de várias bandas e projetos-solo assinados com outros nomes até se "assumir" como Giancarlo Rufatto, em 2006.

"Eu odiava meu nome completo. Até perceber que tinha amadurecido e não fazia mais sentido ficar me escondendo atrás de alteregos", diz o admirador de cantores como Ryan Adams, Bob Dylan, Al Green e Renato Russo.

A Legião Urbana, aliás, é uma espécie de influência controversa em seu trabalho. "As pessoas acabam me ligando só à Legião. Como eu uso óculos e barba, ficam o tempo todo dizendo que eu pareço o Renato Russo", conta o músico, que também é fã assumido dos Engenheiros do Hawaii. "Sou, sim. Infelizmente", ironiza.

A verdade é que Giancarlo se posiciona como uma voz dissonante no atual cenário alternativo de Curitiba, em que muitos grupos já se formam com planos de trilhar uma carreira internacional (na esteira do conterrâneo Bonde do Rolê e do paulista Cansei de Ser Sexy). "É claro que deve ser legal tocar em Londres. Mas é a minha mãe que tem de gostar do som que eu faço, não um cara lá na Inglaterra. Queria ouvir minha música tocando numa rádio do interior", afirma.

Outra de suas marcas é justamente a liberdade de falar o que lhe der na telha. Algo raro no meio artístico curitibano, onde se prefere não incomodar para não ser incomodado. "Tem muita gente hipócrita em Curitiba, e uma das coisas que eu mais gosto é meter a boca nos outros", diz.

Para ele, existe um certo cânone local blindado contra críticas. "Ninguém tem coragem de falar da Relespública, por exemplo. Eles já fizeram muita coisa boa, mas são irrelevantes hoje em dia", afirma.

Depois de passar os últimos três anos como solista, Giancarlo recentemente se juntou a uma banda. É o Hotel Avenida, cuja formação inclui figuras experientes do rock de Curitiba. Será que o trovador solitário, como diz o clichê, finalmente encontrou sua turma? "Acho que sim. O Ivan (Santos, do grupo OAEOZ), que hoje toca comigo, conheceu meus trabalhos antigos, gostou e acabou me adotando", conta.

Prestes a gravar o primeiro álbum, o Hotel Avenida segue fazendo shows pela cidade. E, no momento, os outros integrantes tentam convencer o vocalista a fazer um número solo no meio da apresentação. "Eu não entendo. Quando tocava sozinho, todo mundo dizia para eu formar uma banda. Agora que eu tenho uma, querem que eu toque sozinho", diverte-se.

Giancarlo Ruffato no MySpace

por OMAR GODOY
com foto de divulgação
março de 2009

PAIXÃO INEXPLICÁVEL

Baloeiros ignoram o perigo e a lei
em nome de uma cultura secular

Bancada (fábrica de balões): arte e engenharia

Balão pronto para subir: hobby clandestino

DVD da série CWB Balões, que já está na sexta edição


Em dezembro do ano passado, 200 homens invadiram uma casa no bairro do Boa Vista. Não tentaram roubar nada, tampouco acertar contas com alguém. Só queriam pegar um balão que caiu no telhado. Mas enquanto o dono tentava apagar o pequeno foco de incêndio causado pelo objeto, a turma gritava e fazia bagunça, como se estivesse num estádio de futebol.

Meses antes, a polícia prendeu 12 pessoas com a boca na botija em uma fábrica clandestina no Fanny. Foram apreendidos 10 balões, 54 fogos de artifício e 4 DVDs com ''aulas'' sobre o assunto. Os envolvidos pagaram fiança de R$ 600 e vão responder em liberdade a um processo por crime ambiental.

O noticiário policial revela apenas superficialmente o estágio atual de uma tribo que não para de crescer: a dos baloeiros. Antes uma manifestação folclórica, a soltura de balões juninos ganhou uma ''pegada'' de cultura urbana contemporânea e hoje se espalha pelas periferias brasileiras.

Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba são os principais pólos do gênero. Mas a ''arte proibida'', como se diz no meio, está em todos os lugares. Principalmente por conta da internet, essa grande agregadora de pessoas e tendências. São incontáveis sites, blogs, fóruns e comunidades sobre o tema - sem contar os cada vez mais numerosos vídeos no YouTube.

Editados como clipes de esportes radicais, os registros de soltura e resgate de balões são uma febre. E não apenas na web. Há um verdadeiro ''mercado negro'' de DVDs que buscam transmitir a emoção envolvida na atividade. Para se ter uma ideia, a série Capital Ecológica, produzida em Curitiba, já está na 13 edição. O mesmo grupo lançou, recentemente, um vídeo dedicado exclusivamente à caçada de balões, Profissão Resgate.

Esse comércio informal ainda inclui camisetas e bijuterias temáticas. Na loja virtual Papel e Cola, é possível até pagar com cartão de crédito. Quem também lucra com a tribo são as empresas de papel de seda e fogos de artífico, estes últimos muito usados como efeito em balões noturnos.

Misto de obra de arte e produto de engenharia, o balão junino também se sofisticou. Os materiais têm mais qualidade, o que garante maior resistência e tempo de voo. Quanto aos temas, não há limites para a imaginação dos projetistas. Os desenhos vão de celebridades a imagens sacras, passando por grafismos, personagens de quadrinhos e retratos de familiares.

O tamanho dos novos balões impressiona. Se os de 10 metros, mais comuns, já enchem os olhos de quem vê, o que dizer de criações que chegam aos 50? Reza a lenda que o maior balão do Brasil, solto em São Paulo, tinha 72 metros. Não custou menos de R$ 30 mil.

TRADIÇÃO ARRAIGADA

Mas o que leva alguém a gastar tempo e dinheiro com um hobby que pode dar cadeia? Para responder, é preciso voltar ao ano de 1709, quando padres jesuítas soltaram os primeiros balões no Brasil. É o que conta o livro Balões: Paixão Inexplicável (1999), de Odair Bueno e Ivo Patrocínio, uma espécie de bíblia para os entusiastas. Lançado pouco depois da criminalização do balão junino, logo saiu de circulação. Hoje, pode custar R$ 300 nos sites de leilão.

A capa e o prefácio levam a assinatura dos respeitados Ziraldo e Carlos Heitor Cony, respectivamente. ''Nada mais belo, nada mais emocionante do que fazer e soltar um balão'', escreve Cony. Ao longo do livro, os autores enumeram exemplos de políticos, empresários e religiosos que se envolveram com a atividade. Muitos deles chegaram a financiar o trabalho de baloeiros.

É justamente aí que mora a polêmica. Como mudar, da noite para o dia, uma cultura arraigada há séculos na sociedade? Lá se foram 10 anos desde a criminalização, mas os fãs dos balões continuam ignorando o perigo e a própria lei. Pois o artigo 42 da legislação ambiental é claro: fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios é crime.

Presidida até pouco tempo por um militar reformado, a Sociedade Amigos do Balão (SAB), com sede no Rio de Janeiro, busca regulamentar a soltura. Sua proposta é cadastrar os grupos e vistoriar os balões, atestando sua segurança. Em outubro do ano passado, a entidade promoveu a Semana de Mobilização Pró-Regulamentação do Balão Junino, no intuito de sensibilizar autoridades e parlamentares. Uma causa talvez impossível, visto que a opinião pública e população em geral já se deram conta dos riscos embutidos na prática.

Segundo o delegado Olavo Romanus, da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, cerca de 90% das apreensões são fruto de denúncias feitas por vizinhos de baloeiros - uma prova da conscientização. Por outro lado, ele acredita que o fortalecimento da tribo é reflexo do crescimento do Brasil como um todo. ''Com a evolução da economia e o aumento do poder aquisitivo, todas as atividades se desenvolveram no país. Há também o fator internet, que colocou essas pessoas em contato''.

O tenente Anor Santos Júnior, da Força Verde do Batalhão de Polícia Ambiental, faz um balanço das ações da divisão em 2008. Foram 7 flagrantes e 169 autuações em Curitiba e região -além de 203 balões e inúmeros materiais de produção apreendidos. ''Nosso trabalho é fazer um acompanhamento dessa movimentação, inclusive na internet. Esperamos que, com o tempo, as pessoas entendam o risco que envolve essa prática'', diz o militar, para quem o problema está mesmo ''na questão cultural''.

CONFISSÕES DE BALOEIRO

"Só quem é louco pira junto no balão", diz a letra de um rap que circula na internet. Para os aficionados, é realmente difícil explicar o fascínio pela prática, muitas vezes transmitida de pai para filho.

"Gostar de mulher é fácil. Mas vai tentar entender porque alguém gosta de papel e cola. É um vício", brinca o comerciante e produtor de eventos Faxada, de 22 anos. Como tantos outros, ele se "converteu" ainda na infância, ao ver o pai soltar balões em festas de família. Hoje, mantém um blog sobre o assunto e produz a série de DVDs CWB Balões, que já está na sexta edição.

Faxada também faz parte da equipe Garagem, uma das muitas espalhadas por Curitiba e Região Metropolitana. Ele começa uma lista e não consegue parar: Elite, Oxigênio, Labareda, TVO, Arte Probida, Turma da Lua, Domínio da Arte, Vagalume, Arte Eterna, Zepelin Sul... Há até um grupo dedicado exclusivamente aos resgates, o Carrapeta.

Sair à caça de balões é um expediente tão comum quanto a soltura. O objeto recuperado pode voltar ao céu ou ser reciclado, mas também vale como um troféu. Por isso, não são raras as ocorrências de brigas e acidentes de trânsito durante as maratonas. "Você fica cego. Não quer saber se tem um rio, uma cerca ou um muro na sua frente", diz Faxada, ele mesmo um adepto dos resgates.

As equipes têm, em média, 10 integrantes. Cada um é responsável por uma parte do processo - do design à soltura. Algumas não contam com projetistas em suas fileiras, e por isso contratam serviços "terceirizados". Nesse caso, chegam a desembolsar R$ 300 por um único trabalho.

Membro de um dos grupos mais tradicionais da cidade, a Turma da Lua, Gordo, 34, está no meio há 20 anos. Também cresceu assistindo ao pai soltar balões com os amigos, porém só passou a construí-los depois que ele morreu.

O "estalo" para começar veio de uma reportagem sobre o tema exibida no antigo programa de tevê Comando da Madrugada, do jornalista Goulart de Andrade. "Vi aquelas obras de arte indo para o céu e fiquei louco. Hoje, percebo que fazer balão é uma forma de estar sempre perto do meu pai", reflete.

Gordo é formado em Administração de Empresas e atua na área. Mas já vendeu papel de seda para se sustentar. "Construí uma casa só com o dinheiro do papel", afirma. Ele conta que empresários do setor, e também do ramo de fogos do artifício, costumam patrocinar concursos de balões, os chamados Bocas de Ouro.

A rivalidade entre as equipes, Gordo garante, para por aí. "Na verdade existe uma união. Muitas vezes, as turmas fazem vaquinhas para pagar os estragos causados na casa de um vizinho".

E por falar em estragos, os baloeiros acreditam que apenas 2% do que é solto cai em chamas. "Hoje em dia, com a evolução dos balões, eles começam a apagar meia hora antes de chegar ao chão", afirma Gordo.

Para Faxada, quem prejudica a imagem do movimento são os marinheiros de primeira viagem, garotos imprudentes que aprendem pela internet e mandam trabalhos mal acabados para o céu. São esses, segundo ele, que causam incêndios. "Leva dois anos só para você começar a entender como a coisa funciona", diz.

Seja como for, o risco existe, não dá para negar. Ainda assim, os aficionados seguem desafiando a lei. Ou melhor: ignorando.

"Nós simplesmente não reconhecemos uma lei que vai contra a cultura e o folclore de um povo", justifica Gordo, favorável à regulamentação. "Por que não normatizar? Você não imagina a emoção que é ver centenas de crianças olhando para o alto, encantadas com um balão", arremata

por OMAR GODOY
com fotos de GORDO E FAXADA
janeiro de 2009

ESCONDIDO EM CURITIBA

Naporano: ‘‘necessidade física’’ de pesquisar


Fernando Naporano não gosta de ser fotografado. Só aceita posar depois de alguma insistência. Também descarta aparecer com sua coleção de milhares de LPs, CDs, K-7s e DVDs. ‘‘Isso é um clichê, deixo para o Fábio Massari’’, diz, citando o ex-VJ da MTV, notório por sua discoteca reforçada.

Ele segue dirigindo a rápida sessão. Faz questão de sair nas fotos acompanhado da cadela Melody. E também de fumar. ‘‘Sou politicamente incorreto. Faço propaganda mesmo. Adoro cigarro!’’.

Naporano foi um dos maiores críticos musicais do país a partir dos anos 80. Seus textos para o jornal Folha de São Paulo e a revista Bizz combinavam personalidade forte e muito conhecimento de causa. Em paralelo, liderava o Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, hoje lembrado como uma cult band que inaugurou o expediente de cantar em inglês no underground brasileiro.

Quando saiu do país, no início da década seguinte, virou correspondente de veículos como O Estado de São Paulo, Correio Braziliense e Rede Globo, além de colaborar com publicações estrangeiras. Ainda trabalhou para a gravadora Continental, negociando os direitos de discos brasileiros para os mercados europeu e asiático.

Foram 13 anos em Londres e dois nos EUA. Naporano só voltou ao Brasil em 2004, para ficar mais perto da filha, que mora em São Paulo com a mãe. Até tentou viver novamente na capital paulista, mas não se adaptou. ‘‘Escreva o que eu vou dizer, por favor: São Paulo é uma cidade aflitiva, suja e cara’’, afirma, na primeira das várias ênfases da conversa.

Em seguida, mudou-se para Florianópolis (SC) e, enfim, Curitiba, onde encontrou o equilíbrio entre qualidade de vida e proximidade da filha. Considera-se aposentado, apesar de fazer eventuais trabalhos de tradução. ‘‘Tenho nojo de me envolver com as coisas vigentes. As diretrizes da imprensa cultural atual são estupidamente medíocres’’, justifica.

Lendo assim, pode parecer que Naporano é um sujeito amargo. Mas suas tiradas, mesmo as mais agressivas, contém um humor ácido, impagável. Exemplos não faltam.

‘‘Prefiro dar vassouradas na minha mãe do que assistir a esses festivais corporativos’’, diz, sobre os shows internacionais patrocinados por grandes empresas. ‘‘Não vou jantar com um gordo desgraçado só para convecê-lo a lançar um livro sobre o rock psicodélico do Texas’’, dispara, quando o assunto são os projetos que gostaria de desenvolver - e sua inaptidão para lidar com o ‘‘mundo real’’, como ele mesmo admite.

Morando há dois anos com a incrivelmente jovem Bianca, o jornalista passa o dia lendo nos parques da cidade. Pesquisa poesia, cinema e praticamente todos os gêneros de música. Tem vários livros prontos, mas quer mesmo é relançar a obra do Maria Angélica, ainda inédita no formato digital.

‘‘Procuro um mecenas para produzir uma caixa com quatro CDs e um livreto contando a história da banda. Tem de ser uma coisa luxuosa, em respeito ao público. Do contrário, não faço’’, afirma, para depois cogitar uma série de shows acústicos caso o projeto saia do papel.

Outra de suas paixões é o futebol. Torcedor incurável do São Paulo e do Everton (Inglaterra), assiste a jogos de todos os cantos do mundo. ‘‘Luto contra o tempo para dar conta de ver, ler e ouvir tudo o que me interessa. É meio neurótico, uma necessidade física’’, confessa, cercado por estantes lotadas.

Aliás, a casa espaçosa, no bairro do Seminário, é um verdadeiro museu. Só de LPs e CDs, são cerca de 25 mil. Todos devidamente organizados - em ordem alfabética e divididos em categorias extremamente pessoais, como ‘‘60’s Westcoast Sounds’’, ‘‘70’s Europe’’ e ‘‘Italian Stuff’’.

Antes de encerrar o papo, insisto em saber sua idade, que ele não revela de jeito nenhum (há quem diga que Naporano tem 46). ‘‘Escreva aí: idade inconfessa. Porque não acredito em drama de geração, nesse negócio de que ‘no meu tempo era melhor’’’, diz. ‘‘No Brasil, há essa mania de dizer que o jovem é burro, não pensa. A Bianca só tem 20 anos e é um gênio’’, completa.

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
fevereiro de 2009

PISTA DUPLA

Motoclubistas novatos e "de raiz"
falam sobre o crescimento da tribo

Salsicha (frente), do Fator Mutante: conforto é o de menos

Almir, dos Paladinos, formado por policiais civis e militares

Durão, diretor local dos Abutres: "fio desencapado"


O Brasil caminha para ser o quarto maior produtor de motocicletas do mundo, perdendo apenas para China, Japão e Índia. Cerca de 2 milhões de unidades foram vendidas apenas neste ano, entre modelos populares e de luxo. Com isso, a frota nacional deve bater na casa dos 9 milhões de veículos de duas rodas - praticamente o dobro do número registrado em 2007.

Dentro de poucos anos, serão vendidas mais motos do que carros no País. Esse crescimento se deve, basicamente, a três fatores: aumento do poder aquisitivo, preços mais acessíveis e facilidade de financiamento. Mas, por trás desse boom, há também uma mudança de comportamento.

Um dos símbolos da contracultura, a motocicleta deixou de ser sinônimo de rebeldia. Tornou-se uma alternativa de transporte e o ganha-pão de muita gente. De quebra, virou opção de lazer nos fins de semana. Nunca se viu tantos comboios de motociclistas passeando pelas estradas.

Os motoclubes são uma febre em todo o Brasil. Só em Curitiba existem mais de 100, entre filiais de grandes grupos nacionais (as chamadas facções) e pequenas turmas de amigos. Cada um com seu perfil, estatuto e, é claro, colete de couro.

Durante muito tempo, os clubes rivalizavam e chegavam às vias de fato. Até que, em 1987, o líder do grupo Balaios foi vítima de um atentado a bomba no Rio de Janeiro. Houve um processo de pacificação e a convivência hoje é relativamente tranqüila.

A bronca, agora, tem viés conceitual. Os membros dos clubes ditos ''de raiz'' acreditam que os mais novos não vão durar muito tempo. Para eles, tudo não passa de um modismo seguido por gente que não compreende o verdadeiro estilo de vida motoclubista.

''A moto você compra. O espírito, não'', diz o professor aposentado Alexandre Durão, 58 anos, diretor da facção curitibana dos Abutres, um dos maiores motoclubes do País. ''Não acho que os outros estejam errados. Mas tem muitos por aí que apenas colocam um colete e se travestem de motociclistas na sexta-feira'', emenda.

De acordo com Durão, um abutre se sente parte de uma sociedade alternativa. Mesmo quando não está com o grupo. ''A gente vive esse espírito 24 horas. É uma questão de postura'', afirma.

E que postura é essa, que une desde desempregados a juízes de direito? ''Isso a gente não divulga, mas posso garantir que é tudo relacionado com o bem-viver'', desconversa.

As brigas, então, acabaram? ''Você já viu um fio desencapado? Ele está parado ali. Se você colocar a mão, vai levar um choque'', ironiza.

Integrante da facção local do motoclube Fator Mutante, Cláudio Adriano, 28, acredita que é tudo uma questão de ''pegada''. Para ele, o verdadeiro motoclubista não se importa com conforto. O contrário dos ''zé roelas'' que fundam clubes ''coxinhas'' só para ir ao litoral e voltar.

Salsicha, como é mais conhecido, trabalha como motorista e sonha em ter uma Harley Davidson. Juntou-se ao Fator Mutante justamente porque o grupo não faz distinção entre tipos de motocicletas. Ele conta que chegou a viajar para São Paulo na garupa de um amigo, pois não tinha dinheiro para ir com a própria moto. ''Somos todos irmãos. Se um não tiver grana, os outros inteiram a pinga dele'', diz.

Casado duas vezes e pai de um menino de 8 anos, Salsicha rompeu com a segunda mulher por causa do motoclube. Chegou a ficar um tempo afastado do grupo a pedido da parceira, mas a falta dos amigos acabou pesando. ''Eu sentia o mesmo amor por ela e pelo clube. Só que, de um lado, tinha uma pessoa só. Do outro, tinham várias'', justifica.

CADA UM NA SUA

Na outra pista, os motoclubistas, digamos, moderados não escondem que só estão nessa para espairecer. "É mais lazer e entretenimento do que estilo de vida", diz a administradora de empresas Danielle Carstens, 30. Ela e o marido, o engenheiro Luciano, estão entre os fundadores do motoclube Águias Indomáveis, criado em 2003.

Danielle admite que há um certo preconceito de seu grupo com os "cegezeiros" (donos de motos CG, mais baratas e menos potentes). Nos encontros de motociclistas, os dois extremos não se misturam muito. "Eles devem nos ver como um bando de almofadinhas que só querem passear no fim de semana. E isso não é mentira", brinca.

Ela inclui os Águias Indomáveis na categoria dos grupos "família", cada vez mais comuns nas estradas do País. O que não chega a ser uma surpresa, visto que até motoclubes gospel já viajam por aí. Mas uma turma só de policiais seria algo impensável há 20 anos.

É justamente essa a marca registrada dos Paladinos, formado em sua maioria por delegados, investigadores, coronéis, sargentos, etc. Muitos dos membros nem tinham motos antes de conhecer o grupo, como explica o policial civil Almir Alberti, 50, da Delegacia de Furtos e Roubos. "Tem um coronel amigo nosso, por exemplo, que não se deu bem com a moto e hoje está feliz com seu triciclo".

Nas viagens, ele conta, as mulheres e filhos seguem o grupo em vans alugadas. E se o destino é um encontro entre motoclubes, é quase certo que os Paladinos serão vistos com uma certa desconfiança. "Algumas pessoas sentem receio, sim. Os Abutres, por exemplo, sempre ficam meio arredios", diz.

Alberti ainda revela que não facilita a vida de eventuais arruaceiros só porque são da mesma tribo. "Independentemente de ser de motoclube, a gente tem de enquadrar quem estiver armado ou portando droga. Todos já estão cientes disso".

Para o policial, o surgimento de grupos independentes é uma reação à rigidez dos mais tradicionais. Em muitos deles, os novatos (também chamados de prósperos) são tratados como calouros e devem se submeter a uma série de provações. "Já vi homens de barba branca varrendo o chão, limpando motos e comprando cerveja enquanto os outros ficam de perna para o ar. Isso é uma humilhação", diz.

Durão, dos Abutres, rebate. "Em qualquer sociedade existe hierarquia. Você não faz gentilezas para as pessoas mais velhas?". Salsicha pensa da mesma forma. "A gente coloca o próspero à prova mesmo, para saber se ele está disposto a ajudar". A intenção, eles garantem, é que todos sirvam ao grupo.

Nesse debate, apenas uma coisa é certa: vai faltar estrada para tanta gente

por OMAR GODOY
com fotos de DIEGO SINGH
dezembro de 2008

JACARÉ, O RETORNO

Ciclista performático está de volta às ruas da cidade

Ele voltou. Depois de uma longa temporada fora de Curitiba, Jacaré novamente pedala pela cidade com sua bicicleta, digamos, "performática". Foram quatro anos de viagens Brasil afora, divulgando lojas, circos e parques de diversões por meio do poderoso sistema de som da bike.

A magrela, enfeitada com uma "carenagem" de garrafas plásticas recicladas, está ainda mais envenenada e já pesa 120 quilos (pensando bem, não tem nada de magrela). Em plena Rua XV, não há quem resista a uma espiada mais de perto. Saudado por turistas, lojistas e até policiais, Jacaré é só alegria.

"Estou comemorando a vitória do Obama. Temos a mesma idade, 47 anos. Vou colocar uma música em homenagem a ele", diz, para em seguida tocar uma gravação de "New York, New York" com Liza Minnelli.

Convidado por uma empresa de eventos a retornar a Curitiba, Jacaré agora quer reconquistar sua clientela. Cobra R$ 20 por hora de divulgação, com direito a aplicação de banners do anunciante na bike. Para complementar a renda, vende colares, brincos e pulseiras que ele mesmo produz com fios de aço.

Foi com o artesanatato que o artista popular começou a ficar conhecido na cidade. O apelido, por sinal, vem do tempo em que tinha barracas no Largo da Ordem e na praia de Ipanema (a paranaense, claro). "Comprei dois jacarezinhos de brinquedo para enfeitar a barraca. Os bichos faziam tanto sucesso que foram roubados. Mas acabei ficando com esse nome", lembra.

Batizado como José Leopoldo de Oliveira Silva, Jacaré nasceu na cidade alagoana de Viçosa, cujos filhos mais ilustres são os políticos Teotônio Vilela (pai e filho) e Aldo Rebelo. Saiu de lá aos 17 anos para conhecer São Paulo, onde morava seu irmão. Resolveu ficar e logo foi admitido como office boy de um banco.

Em seguida, trabalhou como mensageiro e auxiliar de compras na Rede Globo. Estabilizou-se na função de operador de empilhadeira no aeroporto de Guarulhos. "Acho que minha história com a bicicleta vem desses dois empregos. Na Globo, peguei gosto pela comunicação. No aeroporto, aprendi um pouco de aerodinâmica", afirma.

O namoro com Curitiba começou em 2000, quando esteve por aqui visitando um sobrinho. Encantado com a limpeza e os parques da cidade, mudou-se de mala e cuia após conseguir uma vaga como operador de máquinas em uma indústria de bebidas. Mais tarde, insatisfeito com o salário, desistiu de ter carteira assinada para investir no artesanato. A bike-show surgiu pouco depois, bem como seu primeiro cliente de peso - o senador Álvaro Dias, para quem trabalhou durante uma campanha eleitoral.

Solteiro e sem filhos, o artista atualmente mora em uma pensão no bairro do Rebouças. Tem várias idéias a serem desenvolvidas, entre elas um projeto ambicioso: divulgar Curitiba ao redor do mundo, caso a cidade seja uma das sedes da Copa de 2014. Para quem criou o próprio meio de vida, um sonho a mais não faz mal, certo?

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
novembro de 2008