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O "DA POLTRONA"

O cinéfilo Adriano Bronholo vê 90% dos filmes que passam em Curitiba

Todo dia ele faz tudo sempre igual. Às 18 horas, o advogado Adriano Bronholo, 37, encerra o expediente e vai direto para o cinema. Seu ritual é simples. Entra na sala ainda iluminada e senta praticamente colado à tela. Não come sequer uma mísera pipoca, para não perder a concentração. E são raras as vezes em que não parte para uma segunda sessão.

Adriano calcula que cerca de 270 filmes são lançados por ano no circuito comercial de Curitiba. Sem medo de exagerar, garante que assiste a 90% deles. No período das férias de verão, por exemplo, chega a ver até as produções da Xuxa, já que as salas são tomadas pelos títulos infantis. Definitivamente, é o cinéfilo com mais horas de poltrona da cidade.

Mas sua praia é o cinema de arte, mais alternativo. Pena que as opções por aqui sejam escassas para quem tem esse tipo de paladar. Para ele, a ''era de ouro'' foi mesmo entre o fim dos anos 80 e o início dos 90, quando a Fundação Cultural de Curitiba mantinha quatro salas voltadas para as produções cult. ''Praticamente tudo o que passava em São Paulo chegava aqui também'', lembra.

E por falar em memórias, o advogado conta que sua relação com as imagens em movimento começou ainda na infância. Enquanto os outros garotos jogavam bola na rua, ele passava horas em frente à televisão, vendo filmes até a programação acabar. Sua escola foi o Corujão, a Sessão de Gala, o Domingo Maior...

Adriano acredita que o cinema de certa forma preencheu uma lacuna deixada por seu avô, um contador de histórias nato, que morreu quando ele tinha 13 anos. Foi nessa época, aliás, que surgiu o interesse pelas produções mais artísticas. Por acidente, diga-se de passagem.

O jovem cinéfilo comprou ingresso para ver Rock Estrela e acabou entrando na sala errada, que exibia O Beijo da Mulher Aranha. ''Fiquei surpreso com aquilo. A história era contada de um jeito diferente do que eu estava acostumado a ver'', recorda.

O advogado, que nunca saiu no meio de uma sessão, também coleciona tudo o que for relacionado ao cinema. A começar pelos anúncios de filmes publicados em jornais, que ele recorta diariamente. E também livros (mais de dois mil), DVDs (cerca de mil) e incontáveis revistas. Até francês ele aprendeu para ler a lendária Cahiers du Cinema.

Adriano ainda escreve sobre o que assiste e até começou um blog, que pretende reativar. Mas esse tipo de reconhecimento não importa muito para quem se realiza para valer dentro de uma sala escura. É ali que o cinéfilo, solteiro e sem filhos, reflete, sonha e encontra os amigos, igualmente loucos por filmes. ''O cinema é a minha família'', arremata, sem um pingo de arrependimento.

por OMAR GODOY
com foto de DIEGO SINGH
abril de 2009

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

Maria Rafart, psicóloga e apresentadora: da ação para o pensamento

Maria Rafart, 45, está em lua de mel. Depois de apenas oito meses de namoro com o músico Fábio Elias, da banda Relespública, ela disse "sim" em pleno palco de uma casa de shows da cidade. Uma cerimônia roqueira, com direito a uma canção composta especialmente para a noiva.

"Eu acredito no amor, faço uma verdadeira cruzada por ele", afirma Maria, psicóloga, advogada, escritora e âncora do talk show de rádio 91 Minutos, da FM 91 Rock. Tanto acredita que nem dá bola para a diferença de idade do casal (cerca de 12 anos).

"Quando o Fábio começou a ir ao programa, como convidado, pensei que ele era mais velho. Mas ele também pensou que eu era mais nova, então tudo bem", brinca a mãe de uma menina de 15 anos, fruto de seu primeiro casamento.

Maria se formou em direito antes de mergulhar na psicologia. Especializou-se em casos de família e escreveu livros sobre o tema, voltados para mulheres separadas. Até perceber que se interessava mais pelos relacionamentos interpessoais do que por questões jurídicas. Hoje, divide-se entre o estúdio da rádio e um consultório no Batel, bairro onde cresceu com a família de origem espanhola.

Na parede da sala comercial, um quadro traz o retrato e um autógrafo (legítimo, segundo ela) de Freud. Maria, no entanto, faz questão de não se associar ao pai da psicanálise. Diz que respeita suas teorias, porém é adepta da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), um processo mais rápido e prático, desenvolvido a partir da década de 50 pelo psiquiatra americano Aaron Beck.

Definindo vulgarmente, a TCC se constitui de uma série de abordagens que buscam entender como os problemas das pessoas interferem em suas vidas diárias. O terapeuta investiga a forma como o paciente interpreta o mundo e, a partir daí, sugere pequenas atitudes que estimulam uma mudança de comportamento. "É a ação que muda o pensamento, não o contrário", explica.

Em sua "cruzada pelo amor", a psicóloga se depara, cada vez mais, com adultos incapazes de manter um relaciomento afetivo satisfatório. Seja na rádio ou no consultório, o que ela mais ouve são queixas de que "o mercado está fraco". "O mercado está ótimo. O problema é a labilidade (instabilidade) das relações", garante.

Para Maria, homens e mulheres vem descartando potenciais parceiros por conta de detalhes insignificantes - quando se deveria priorizar valores mais essenciais. É o que ela chama de "teoria da calça", criada a partir de uma experiência pessoal.

"Quando tinha 14 anos, fui ao cinema com um estudante de engenharia química por quem eu era apaixonada. O rapaz usava uma calça xadrez horrível, e aquilo me incomodou tanto que nunca mais quis sair com ele", conta. "Descartei uma pessoa sem me tocar de que ela poderia ter valores importantes para mim", completa.

A terapeuta-apresentadora ainda dá um "diagnóstico" do público que a procura. Segundo ela, a maioria das mulheres busca um provedor, enquanto os homens estão mais preocupados com a beleza física. "As pessoas precisam parar de fazer projeções. E enxergar que o gordinho do seu lado é um cara legal, que aquele pobrinho que trabalha com você também é uma graça", recomenda.

Aliás, a própria Maria se diz um exemplo do que prega. Casou-se com o gordinho Fábio Elias, virou empresária da Relespública e agora batalha para fazer a banda crescer nacionalmente. "É muito difícil encontrar um homem rico e bom. Como tive a sorte de achar um bom, vou fazer ele ficar rico", diverte-se.

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
abril de 2009

INOVAÇÃO CONTRA A CRISE

Frederick van Amstel: descomplicando a tecnologia

Frederick van Amstel, ou simplesmente Fred, é a cara da geração 00. Fascinado por tecnologia, atua como consultor de empresas, mantém um blog famoso e ainda conduz uma ONG. Trabalha praticamente o tempo todo em casa, onde pode fazer experimentos voltados para facilitar a vida das pessoas - e, de quebra, descobrir novas oportunidades de negócios.

Sua vida profissional se mistura com a pessoal, é verdade. Mas não há nada que pague o prazer e a independência que estão por trás dessa opção. "Ralar" em dobro, portanto, é apenas uma consequência do envolvimento profundo com seus projetos.

Aos 26 anos, Fred é uma referência jovem quando se fala em usabilidade no Brasil. Um conceito cada vez mais em voga, e que trata justamente da facilidade de uso de uma determinada ferramenta. Para ele, resquícios da era industrial ainda colocam a tecnologia como um fim, e não um meio. "É como se a máquina soubesse mais do que a pessoa, que é quem realmente resolve os problemas", diz.

Seja no blog Usabilidoido ou no site da ONG Instituto Faber-Ludens, Fred está sempre buscando exemplos de "humanização da tecnologia". O próprio grupo desenvolve projetos específicos - como a cadeira de rodas inteligente, ou o game de treinamento para árbitros de futebol. A ordem, ele explica, é eliminar tudo o que pode confundir o usuário.

"Não deixa de ser uma questão de comunicação", afirma, justificando sua graduação na área. A faculdade de jornalismo, no entanto, não trouxe o conhecimento que Fred perseguia. A saída foi cursar um mestrado em tecnologia, título que impulsionou sua carreira acadêmica e o conduziu à coordenação de uma pós-graduação em design de interação.

Coordenador pedagógico, blogueiro e "ongueiro" de plantão, ele ainda presta consultoria a empresas. E, ao contrário do que se pode pensar, o atual momento de crise tem sido ótimo para quem lida com inovação. "Quando as grandes companhias estavam ganhando dinheiro, ninguém queria saber de mudar nada. Agora que as vendas caíram, está todo mundo atrás de novas soluções", afirma.

Mas não pense que Fred é o típico geek de plantão. Ele tem lá suas contradições, a começar pelo fato de ser hare krishna. "Minha religião tem um ideal de simplicidade, e até faz uma crítica ao consumismo. Por outro lado, se você não pode mudar a sociedade, comece mudando você mesmo. Tento embutir esses valores nos meus projetos", reflete.

Outra aparente incompatibilidade é a sua rejeição pelo telefone celular, que Fred define como uma "ferramenta de controle social horizontal". "Todo mundo tem medo de um Big Brother que vigia tudo. Eu tenho medo é dos little brothers, das pessoas próximas que podem controlar todos os meus passos", diz, com a certeza de que a "culpa" é sempre dos humanos - e nunca das máquinas.

Usabilidoido, Faberludens

por OMAR GODOY
com foto de THEO MARQUES
abril de 2009

ECOS DO ALÉM

Fiorini e o psicoscópio: polícia e espiritismo

Um indivíduo pode ter as mesmas impressões digitais de alguém que já morreu? Para o delegado de polícia João Alberto Fiorini, sim. Especialista em identificação humana e cenários de crimes, Fiorini aliou seus conhecimentos ao interesse pelo espiritismo e há dez anos pesquisa o assunto. Agora, prepara-se para lançar o livro Reencarnação - Investigação Científica, que reúne casos estudados por ele e antigos registros de fenômenos semelhantes.

Ao longo desses anos, o delegado utilizou técnicas da polícia científica e contou com o auxílio de peritos criminais para produzir laudos que, segundo ele, comprovam a existência de vida após a morte. Um dos documentos, por exemplo, dá conta de uma jovem paranaense que seria a reencarnação da atriz portuguesa Eugênia Câmara, com quem o poeta Castro Alves teve um romance no século 19.

Por meio da prosopografia (estudo anatômico da face) e da grafoscopia (análise da escrita), Fiorini encontrou indícios de que o espírito de Eugênia voltou ao mundo material no corpo da moça. ‘’Os rostos das duas tinham 21 pontos de semelhança’’, afirma.

Formado em um ambiente católico no interior de São Paulo, o delegado por pouco não se tornou padre. Continua assistindo à missa semanalmente, mas também frequenta um centro espírita - hábito que adquiriu há mais de 30 anos, quando sua irmã ficou muito doente. ‘’Uma enfermeira nos aproximou da doutrina e isso trouxe conforto para a família’’, conta.

Anos mais tarde, ele mesmo esteve entre a vida e a morte, por conta de um problema grave no intestino. Foi operado em São Paulo e, durante os oito meses de recuperação, começou a se envolver com o tema que passaria a pesquisar avidamente. Já reestabelecido, participou de um programa de televisão sobre espiritismo para descobrir novas evidências. ‘’Desafiei o público a me escrever se conhecesse casos de espíritos manifestados’’, lembra.

Fiorini acredita que seu trabalho pode ser uma ‘’ferramenta para a fé das pessoas’’. Por isso, prepara a publicação de mais dois livros. O primeiro, Magnetismo e Hectoplasma, trata, entre outros assuntos, do psicoscópio, um aparelho capaz de invocar entidades.

Já o segundo lida com licantropia, a metamorfose de homem em lobo. Ou seja, fala de lobisomens. ‘’É um assunto que eu mantive em sigilo por muitos anos, mas agora resolvi divulgar’’, revela o delegado, que ainda encontra tempo para esculpir em madeira e cantar no coral da polícia. ‘’Para ser sincero, eu tenho preferido cantar a ficar falando desses assuntos pesados’’, confessa.

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
fevereiro de 2009

NASCIDO COM OS DISCOS

Jeff Bass: de carteiro a DJ em tempo integral

Jeff Bass tem razões de sobra para comemorar. Um dos DJs locais mais requisitados em outras praças, ele acaba de ser pai pela segunda vez. De quebra, vê aumentar a popularidade de sua festa mensal, a Cambalacho, que completou um ano de atividade na semana passada.

Em um cenário onde eventos desse tipo nascem e morrem com facilidade, chegar ao primeiro aniversário é um feito. Ainda mais por se tratar de um projeto voltado para a black music, gênero um tanto quanto desprezado na terra do sertanejo universitário, da eletrônica mauriçola e do rock jurássico.

Nascido Jeferson Santos há 31 anos, Jeff cresceu ouvindo os LPs do pai, músico de um grupo de samba. "A gente não via muita televisão lá em casa. Era mais rádio e discos", lembra. Nomes como Luiz Gonzaga, Originais do Samba e Commodores fazem parte de sua memória afetiva, desde sempre embalada por ritmos dançantes.

Mas a inclinação para a discotecagem surgiu mesmo com os primeiros astros do hip-hop, ainda nos anos 80. "Pirei quando ouvi o (grupo) Run DMC. Só que eu não fazia a menor idéia de como aquele tipo de música era feito", conta.

O entendimento de que se tratavam de colagens sonoras, produzidas com toca-discos, veio de forma inusitada, por meio do antigo Xou da Xuxa. "O programa tinha um DJ, o My Boy, que um dia mostrou como parar um disco com a mão. Foi ali que eu descobri o que era o scratch", diz.

A técnica de "rabiscar" os LPs, no entanto, não funcionou muito bem em casa. "Eu não sabia que tinha de usar um feltro e acabei tomando uns cascudos do meu pai por ter arranhado os discos dele", diverte-se.

Daí em diante, Jeff não parou mais de pesquisar e praticar. Dançou break, tocou com grupos de rap e começou a discotecar. Logo se destacou nas pistas, mesclando o hip-hop americano com doses de samba-rock, funk e soul genuinamente nacionais. Era o início da revalorização de artistas como Tim Maia, Jorge Ben Jor e Banda Black Rio, ironicamente "descobertos" por colecionadores estrangeiros.

E foi justamente esse interesse pela black music tupiniquim que o levou para duas turnês internacionais. A partir de sua página no portal MySpace, Jeff fez contatos com produtores europeus e marcou datas na Itália, Alemanha, Bélgica, França e Inglaterra. O mesmo aconteceu no Brasil, onde o DJ percorreu praticamente todas as grandes capitais.

Nesse meio tempo, ele largou de vez a profissão de carteiro, que defendeu por quatro anos. "Quando passei a ganhar a mesma coisa para tocar uma, duas vezes por semana, percebi que era a hora de parar de tomar chuva", afirma. Alguma lembrança marcante dos dias nos Correios? "Acho que não. Mas eu usava aquela bolsa para carregar os discos", ironiza.

Enquanto isso, a cena noturna de Curitiba o desanimava cada vez mais. As noites de hip-hop caminhavam para um lado cada vez mais comercial, musicalmente falando, enquanto os projetos alternativos simplesmente não tinham continuidade. Surgiu então a ideia da festa Cambalacho, produzida com os amigos, e também DJs, Anaum e Feiges.

A primeira edição, ele revela, foi um fracasso. Mesmo assim, o trio insistiu em tocar apenas o que quisesse, sem fazer concessões ao público. Até que o evento finalmente vingou - e se mudou do bar Soho para um lugar maior, o Era Só o que Faltava, onde acontece todos os domingos.

"É engraçado. Quando a gente deu as costas para o gosto das pessoas, elas finalmente lotaram a festa", reflete o DJ, que já viajou com a Cambalacho para Brasília, Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo.

Agora, o grupo pretende profissionalizar o projeto, transformando-o numa empresa. Jeff, por sua vez, quer estudar música, para se especializar como produtor. Mas sem tirar os pés do chão.

"Já penei muito, por isso sou realista. Faço questão de passar isso para os outros caras", garante. E exemplifica: "Esses dias, eles ficaram empolgados porque um vídeo da festa teve mais de mil acessos no YouTube. Aí eu mostrei que um outro vídeo, de um gato tocando piano, teve um milhão de acessos. O gato é muito mais famoso que a gente!", brinca.

Equipe Cambalacho

por OMAR GODOY
com foto de THEO MARQUES
março de 2009

O CORPO AINDA É POUCO

André Ducci, "O Anatomista"

Para o artista André Ducci, 31 anos, o corpo humano é uma máquina. Mas uma máquina graficamente interessante. Filho de médicos e desenhista "desde sempre", ele mescla técnicas da ilustração científica e referências estéticas variadas para criar figuras que transcendem à frieza dos livros de anatomia. Não à toa, Ducci também é conhecido como "O Anatomista", nome de sua série de trabalhos mais famosa.

Formado em Gravura pela Escola de Música e Belas Artes, ele saiu da faculdade direto para os corredores do Hospital Pequeno Príncipe, onde trabalhou filmando e editando registros de cirurgias. Já envolvido com desenhos anatômicos, encantou-se pelas "imagens belíssimas" geradas pelas câmeras, principalmente as de dimensões reduzidas. "Você vê tudo cor de rosa, ou em tons de bege. É um visual agradável, abstrato".

Nesse meio tempo, Ducci também fez um curso de ilustração médica, decisivo para o desenvolvimento de sua série. "Ali, eu descobri um lado mais técnico do desenho, bem diferente da liberdade que me davam na faculdade", conta. E é justamente dessa combinação de rigor e criatividade que surgem seus trabalhos, marcados por influências visuais diversas (arte barroca, design soviético, iconografia pop, quadrinhos underground, etc.).

Seja disponível na internet ou exposto em galerias, O Anatomista virou mesmo a marca registrada do artista. Profissionalmente, no entanto, ele se mantém como ilustrador, prestando serviços avulsos para editoras, agências de publicidade, marcas de roupa e espaços como o James Bar, cuja decoração leva sua assinatura.

Representante da geração que trabalha em casa, Ducci faz questão de seguir horários e uma certa disciplina. "Muita gente acha que trabalho de pijama. Mas eu me arrumo como se fosse sair para um escritório. Só assim a coisa dá certo", ensina o morador de um apartamento antigo na área mais central da cidade.

Seu prédio fica entre a Universidade Federal e uma região, digamos, de baixo meretrício. "É, ao mesmo tempo, uma muvuca e um clima de cidade do interior, com aquelas vendinhas que não existem mais nos bairros. A gente até conhece as garotas que fazem programa por aqui, quase dá ‘oi’ para elas", diz.

Ducci ainda se define como uma pessoa "retraída", o que explica sua posição mais discreta em comparação a outros nomes curitibanos do traço - bem mais hábeis no terreno da autopromoção. "Sou fraco nessa parte. Nem sei como eles fazem para aparecer tanto", brinca.

Seu projeto para 2009, ele revela, é ser "menos ilustrador e mais artista plástico". Isso significa transformar suas criações (a maioria em suporte digital) em gravuras, para a venda ou exposição. "Tenho que voltar a aparecer, participar do circuito. Mas meu negócio é ficar desenhando em casa mesmo", admite.


por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
março de 2009

TESTEMUNHA EM TRÂNSITO

O taxista-escritor Eloir José: viagens, perigos e propostas indecentes

De Taxi Driver ao Táxi do Gugu, a figura do "chofer de praça" já faz parte da cultura moderna. De um ponto de vista romantizado, o motorista é o observador do cotidiano, o elemento neutro a quem se pode revelar até os segredos mais cabeludos.

"As pessoas acham que nunca mais vão me ver e acabam falando coisas que talvez não tivessem coragem de contar para ninguém", concorda o taxista Eloir José, 29 anos, ele mesmo testemunha de inúmeras histórias improváveis.

Quantos de seu colegas já não disseram que um dia escreveriam um livro? Pois Eloir colocou a mão na massa e, há quatro anos, começou a anotar todas as passagens interessantes de sua rotina ao volante. Vários cadernos depois, o motorista reuniu o material e, no fim do ano passado, viu suas memórias ganharem as ruas.

Com o título de Meu Táxi Não Fala... Ah, Se Falasse!, o livro traz 40 histórias curtas narradas na primeira pessoa. Há desde encontros com celebridades a flagrantes de infidelidade, passando por perigos, viagens interestaduais e exemplos de generosidade. Também não faltam relatos de propostas indecentes para o motorista, todas devidamente recusadas. "Algumas eu topei, mas essas só vão entrar no segundo livro", confessa.

Sim, o taxista garante que tem anotações suficientes para outros dois volumes semelhantes. Mas, por enquanto, quer fazer circular a tiragem de mil cópias do primeiro, que bancou do próprio bolso. "Cheguei a negociar com quatro editoras. Só que eu sempre saía em desvantagem nos contratos", conta.

Disponível em algumas livrarias da cidade, Meu Táxi Não Fala... também é oferecido, ao preço de R$ 20, para os passageiros que embarcam em seu carro. Segundo Eloir, cerca de 200 exemplares já foram vendidos "em trânsito" - uma média de oito por dia.

Escrever é um hobby, mas também quero ganhar dinheiro com isso", planeja. O motorista, no entanto, não se vê longe do volante. "Acho que nunca vou deixar de trabalhar com táxi. É dele que surgem todas as minhas histórias".

O livro de sua vida? "Não sei o nome do autor, mas é Perigos no Mar. Já li umas três vezes", revela Eloir, citando um dos títulos juvenis da série Vaga-Lume, da editora Ática, escrito por Aristides Fraga Lima.

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
janeiro de 2009

O NOME COMPLETO

Giancarlo Rufatto: foco aqui, e não em Londres

Reza a lenda que Giancarlo Rufatto levou um choque elétrico quando era criança. A sequela foi uma leve paralisia no braço esquerdo, que ele só foi descobrir na adolescência, quando sentiu dificuldade de tocar violão.

Expulso da banda de covers que formou com os colegas do Cefet de Pato Branco, Giancarlo resolveu compor as próprias músicas, com notas mais adequadas a sua pequena limitação. Desde então, tornou-se um compositor incansável, autor de canções marcadas pelo romantismo e sonoridades acústicas.

Hoje, aos 27 anos, o artista se divide entre Curitiba e Coronel Vivida, sua cidade natal, na região de Pato Branco. Formado em Publicidade, faz trabalhos avulsos para se manter, mas seu foco é mesmo a música. Participou de várias bandas e projetos-solo assinados com outros nomes até se "assumir" como Giancarlo Rufatto, em 2006.

"Eu odiava meu nome completo. Até perceber que tinha amadurecido e não fazia mais sentido ficar me escondendo atrás de alteregos", diz o admirador de cantores como Ryan Adams, Bob Dylan, Al Green e Renato Russo.

A Legião Urbana, aliás, é uma espécie de influência controversa em seu trabalho. "As pessoas acabam me ligando só à Legião. Como eu uso óculos e barba, ficam o tempo todo dizendo que eu pareço o Renato Russo", conta o músico, que também é fã assumido dos Engenheiros do Hawaii. "Sou, sim. Infelizmente", ironiza.

A verdade é que Giancarlo se posiciona como uma voz dissonante no atual cenário alternativo de Curitiba, em que muitos grupos já se formam com planos de trilhar uma carreira internacional (na esteira do conterrâneo Bonde do Rolê e do paulista Cansei de Ser Sexy). "É claro que deve ser legal tocar em Londres. Mas é a minha mãe que tem de gostar do som que eu faço, não um cara lá na Inglaterra. Queria ouvir minha música tocando numa rádio do interior", afirma.

Outra de suas marcas é justamente a liberdade de falar o que lhe der na telha. Algo raro no meio artístico curitibano, onde se prefere não incomodar para não ser incomodado. "Tem muita gente hipócrita em Curitiba, e uma das coisas que eu mais gosto é meter a boca nos outros", diz.

Para ele, existe um certo cânone local blindado contra críticas. "Ninguém tem coragem de falar da Relespública, por exemplo. Eles já fizeram muita coisa boa, mas são irrelevantes hoje em dia", afirma.

Depois de passar os últimos três anos como solista, Giancarlo recentemente se juntou a uma banda. É o Hotel Avenida, cuja formação inclui figuras experientes do rock de Curitiba. Será que o trovador solitário, como diz o clichê, finalmente encontrou sua turma? "Acho que sim. O Ivan (Santos, do grupo OAEOZ), que hoje toca comigo, conheceu meus trabalhos antigos, gostou e acabou me adotando", conta.

Prestes a gravar o primeiro álbum, o Hotel Avenida segue fazendo shows pela cidade. E, no momento, os outros integrantes tentam convencer o vocalista a fazer um número solo no meio da apresentação. "Eu não entendo. Quando tocava sozinho, todo mundo dizia para eu formar uma banda. Agora que eu tenho uma, querem que eu toque sozinho", diverte-se.

Giancarlo Ruffato no MySpace

por OMAR GODOY
com foto de divulgação
março de 2009

ESCONDIDO EM CURITIBA

Naporano: ‘‘necessidade física’’ de pesquisar


Fernando Naporano não gosta de ser fotografado. Só aceita posar depois de alguma insistência. Também descarta aparecer com sua coleção de milhares de LPs, CDs, K-7s e DVDs. ‘‘Isso é um clichê, deixo para o Fábio Massari’’, diz, citando o ex-VJ da MTV, notório por sua discoteca reforçada.

Ele segue dirigindo a rápida sessão. Faz questão de sair nas fotos acompanhado da cadela Melody. E também de fumar. ‘‘Sou politicamente incorreto. Faço propaganda mesmo. Adoro cigarro!’’.

Naporano foi um dos maiores críticos musicais do país a partir dos anos 80. Seus textos para o jornal Folha de São Paulo e a revista Bizz combinavam personalidade forte e muito conhecimento de causa. Em paralelo, liderava o Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, hoje lembrado como uma cult band que inaugurou o expediente de cantar em inglês no underground brasileiro.

Quando saiu do país, no início da década seguinte, virou correspondente de veículos como O Estado de São Paulo, Correio Braziliense e Rede Globo, além de colaborar com publicações estrangeiras. Ainda trabalhou para a gravadora Continental, negociando os direitos de discos brasileiros para os mercados europeu e asiático.

Foram 13 anos em Londres e dois nos EUA. Naporano só voltou ao Brasil em 2004, para ficar mais perto da filha, que mora em São Paulo com a mãe. Até tentou viver novamente na capital paulista, mas não se adaptou. ‘‘Escreva o que eu vou dizer, por favor: São Paulo é uma cidade aflitiva, suja e cara’’, afirma, na primeira das várias ênfases da conversa.

Em seguida, mudou-se para Florianópolis (SC) e, enfim, Curitiba, onde encontrou o equilíbrio entre qualidade de vida e proximidade da filha. Considera-se aposentado, apesar de fazer eventuais trabalhos de tradução. ‘‘Tenho nojo de me envolver com as coisas vigentes. As diretrizes da imprensa cultural atual são estupidamente medíocres’’, justifica.

Lendo assim, pode parecer que Naporano é um sujeito amargo. Mas suas tiradas, mesmo as mais agressivas, contém um humor ácido, impagável. Exemplos não faltam.

‘‘Prefiro dar vassouradas na minha mãe do que assistir a esses festivais corporativos’’, diz, sobre os shows internacionais patrocinados por grandes empresas. ‘‘Não vou jantar com um gordo desgraçado só para convecê-lo a lançar um livro sobre o rock psicodélico do Texas’’, dispara, quando o assunto são os projetos que gostaria de desenvolver - e sua inaptidão para lidar com o ‘‘mundo real’’, como ele mesmo admite.

Morando há dois anos com a incrivelmente jovem Bianca, o jornalista passa o dia lendo nos parques da cidade. Pesquisa poesia, cinema e praticamente todos os gêneros de música. Tem vários livros prontos, mas quer mesmo é relançar a obra do Maria Angélica, ainda inédita no formato digital.

‘‘Procuro um mecenas para produzir uma caixa com quatro CDs e um livreto contando a história da banda. Tem de ser uma coisa luxuosa, em respeito ao público. Do contrário, não faço’’, afirma, para depois cogitar uma série de shows acústicos caso o projeto saia do papel.

Outra de suas paixões é o futebol. Torcedor incurável do São Paulo e do Everton (Inglaterra), assiste a jogos de todos os cantos do mundo. ‘‘Luto contra o tempo para dar conta de ver, ler e ouvir tudo o que me interessa. É meio neurótico, uma necessidade física’’, confessa, cercado por estantes lotadas.

Aliás, a casa espaçosa, no bairro do Seminário, é um verdadeiro museu. Só de LPs e CDs, são cerca de 25 mil. Todos devidamente organizados - em ordem alfabética e divididos em categorias extremamente pessoais, como ‘‘60’s Westcoast Sounds’’, ‘‘70’s Europe’’ e ‘‘Italian Stuff’’.

Antes de encerrar o papo, insisto em saber sua idade, que ele não revela de jeito nenhum (há quem diga que Naporano tem 46). ‘‘Escreva aí: idade inconfessa. Porque não acredito em drama de geração, nesse negócio de que ‘no meu tempo era melhor’’’, diz. ‘‘No Brasil, há essa mania de dizer que o jovem é burro, não pensa. A Bianca só tem 20 anos e é um gênio’’, completa.

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
fevereiro de 2009

JACARÉ, O RETORNO

Ciclista performático está de volta às ruas da cidade

Ele voltou. Depois de uma longa temporada fora de Curitiba, Jacaré novamente pedala pela cidade com sua bicicleta, digamos, "performática". Foram quatro anos de viagens Brasil afora, divulgando lojas, circos e parques de diversões por meio do poderoso sistema de som da bike.

A magrela, enfeitada com uma "carenagem" de garrafas plásticas recicladas, está ainda mais envenenada e já pesa 120 quilos (pensando bem, não tem nada de magrela). Em plena Rua XV, não há quem resista a uma espiada mais de perto. Saudado por turistas, lojistas e até policiais, Jacaré é só alegria.

"Estou comemorando a vitória do Obama. Temos a mesma idade, 47 anos. Vou colocar uma música em homenagem a ele", diz, para em seguida tocar uma gravação de "New York, New York" com Liza Minnelli.

Convidado por uma empresa de eventos a retornar a Curitiba, Jacaré agora quer reconquistar sua clientela. Cobra R$ 20 por hora de divulgação, com direito a aplicação de banners do anunciante na bike. Para complementar a renda, vende colares, brincos e pulseiras que ele mesmo produz com fios de aço.

Foi com o artesanatato que o artista popular começou a ficar conhecido na cidade. O apelido, por sinal, vem do tempo em que tinha barracas no Largo da Ordem e na praia de Ipanema (a paranaense, claro). "Comprei dois jacarezinhos de brinquedo para enfeitar a barraca. Os bichos faziam tanto sucesso que foram roubados. Mas acabei ficando com esse nome", lembra.

Batizado como José Leopoldo de Oliveira Silva, Jacaré nasceu na cidade alagoana de Viçosa, cujos filhos mais ilustres são os políticos Teotônio Vilela (pai e filho) e Aldo Rebelo. Saiu de lá aos 17 anos para conhecer São Paulo, onde morava seu irmão. Resolveu ficar e logo foi admitido como office boy de um banco.

Em seguida, trabalhou como mensageiro e auxiliar de compras na Rede Globo. Estabilizou-se na função de operador de empilhadeira no aeroporto de Guarulhos. "Acho que minha história com a bicicleta vem desses dois empregos. Na Globo, peguei gosto pela comunicação. No aeroporto, aprendi um pouco de aerodinâmica", afirma.

O namoro com Curitiba começou em 2000, quando esteve por aqui visitando um sobrinho. Encantado com a limpeza e os parques da cidade, mudou-se de mala e cuia após conseguir uma vaga como operador de máquinas em uma indústria de bebidas. Mais tarde, insatisfeito com o salário, desistiu de ter carteira assinada para investir no artesanato. A bike-show surgiu pouco depois, bem como seu primeiro cliente de peso - o senador Álvaro Dias, para quem trabalhou durante uma campanha eleitoral.

Solteiro e sem filhos, o artista atualmente mora em uma pensão no bairro do Rebouças. Tem várias idéias a serem desenvolvidas, entre elas um projeto ambicioso: divulgar Curitiba ao redor do mundo, caso a cidade seja uma das sedes da Copa de 2014. Para quem criou o próprio meio de vida, um sonho a mais não faz mal, certo?

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
novembro de 2008

O JAPÃO É AQUI

Lina, do Centro Cultura Tomodachi: filosofia através do idioma

Há pouco tempo, o governo do Japão anunciou um projeto para ''regulamentar'' a culinária típica do país. A ideia era resgatar a essência de certos pratos, desvirtuados por adaptações ocidentais (quem curte o brasileiríssimo sushi com queijo e goiabada sabe do que estamos falando). Mas ninguém por lá deu muita bola, e a proposta foi engavetada.

Corta para o Brasil. Em Curitiba, no palco de um concorrido evento para fãs da cultura pop nipônica, uma banda de rock toca apenas temas de desenhos animados made in Japan. À frente dos músicos, uma garota negra, de no máximo 20 anos, canta sem um pingo de sotaque. O público delira.

Volta para o Japão. O grande ídolo do momento na música tradicional do país é negro. E americano de Pittsburgh. Quem se importa? Jero, neto de japoneses, arrasta multidões de todas as idades aos shows.

Esses e outros cruzamentos culturais já não são mais previsões para o futuro. Acontecem aqui e agora, e só tendem a ganhar mais visibilidade nos próximos anos. ''Isso é, ao mesmo tempo, assustador e espetacular'', diz a advogada e professora de japonês Lina Saheki, 32, antenada com a movimentação. Sem muito alarde, como preza a tradição oriental, ela criou, com outros quatro amigos, um espaço catalizador dessas tendências.

Inaugurado em agosto de 2008, o Centro Cultural Tomodachi, no Largo da Ordem, oferece aulas de língua japonesa, mangá, música, origami, filosofia, história do oriente, etc. ''A mentalidade ocidental coloca o Japão como algo muito distante. Nossa proposta para o centro era criar um lugar menos étnico e mais acessível'', explica.

Lina hoje se divide entre a gestão do espaço e as aulas de japonês. Mas revela que jamais se imaginou como professora da língua. Filha de japoneses, cresceu em Vitória (ES), onde o pai fazia questão de dar lições diárias do idioma para a família. Formou-se em Direito e começou a lecionar numa faculdade, até que uma experiência fora do país mudou os rumos de sua trajetória.

Em troca de uma bolsa de estudos para cursar um doutorado na Espanha, Lina passou a ensinar japonês para funcionários da Unesco. Esse reencontro com a língua, dessa vez na condição de instrutora, foi uma revelação. ''Cada palavra, cada ideograma, tem um sentido muito prório, profundo. Descobri que poderia ensinar filosofia através do idioma'', conta.

Em Curitiba desde 2006, quando se mudou para ficar mais perto do noivo, ela começou a perceber o grande interesse dos jovens pela cultura nipônica (sempre a partir dos mangás, animes e afins). E apostou que haveria uma demanda por aprofundamento. Daí para a fundação do Tomodachi (que significa ''amigos'' em português) foi só uma questão de tempo. ''Aqui, não ensinamos apenas a língua. Ensinamos valores. Sou muito idealista'', conclui.

Centro Cultural Tomodachi

por OMAR GODOY
com foto de DIEGO SINGH
janeiro de 2009

COSTUREIRA PERFORMÁTICA

Lisa Simpson já costurou, "ao vivo", em bazares e shows de rock

''Toda pessoa pode fazer sua própria roupa'', garante Lisa Simpson, 25 anos. Especialista em reciclar e customizar roupas, ela se define como uma ''agente de costura'' e, desde o ano passado, oferece seus serviços em um ateliê próprio.

O trabalho, ela explica, é totalmente artesanal e independente das tendências vigentes. O que a aproxima mais das artes visuais do que do circuito da moda propriamente dito. ''Costurar, para mim, também tem um lado performático'', diz Lisa, que já costurou, ''ao vivo'', em bazares e shows de bandas de rock.

Para ela, é interessante que as clientes vejam as roupas sendo transformadas e deem palpites durante o processo. ''O que me move é a intenção da pessoa. Sou só um veículo'', afirma.

Nascida em São Paulo, Lisa se mudou com a família para o Canadá em meados dos anos 90. E o que era para ser apenas uma temporada acabou virando uma década na cidade de Vancouver. Lá, ela frequentou a escola e se encantou pelas aulas de corte e costura, disciplina obrigatória no currículo básico do país - inclusive para os meninos. Por ter um tipo físico diferente das canadenses (mais altas e esguias), a futura ''agente'' começou a praticar adaptando as próprias peças que comprava.

De volta ao Brasil, e dessa vez a Curitiba, onde sua família tem negócios, Lisa logo chamou a atenção das novas amigas. Não apenas por chegar ''totalmente gringa'', como ela mesma admite, em uma cidade que mal conhecia (o que lhe rendeu o apelido inspirado no seriado de tevê). Graças ao seu visual diferente, começou a receber encomendas para customizar roupas e não parou mais. Hoje, concilia a rotina no ateliê, batizado de Agente (Costura), com as aulas da faculdade de Artes Visuais.

Mas, afinal, como funciona o business de Lisa? Segundo ela, todo mundo tem peças antigas, ou pouco usadas, das quais não consegue se desfazer, seja por razões afetivas ou porque a estampa e o tecido são interessantes. Em vez de renovar o guarda-roupa em lojas, suas clientes a procuram para repaginar o que já possuem em casa. A partir de R$ 15, é possível ter uma calça transformada em bermuda, por exemplo.

''Há um lado meio social nesse trabalho, no sentido de reciclar e não acumular'', afirma Lisa, que prepara para breve um desfile na rua, em frente ao ateliê.

Agente (Costura)

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
janeiro de 2009

CARTOLA ELETRÔNICO

Eduardo já organizou mais de cem campeonatos de futebol virtual

A grande final do Campeonato Paranaense de Futebol Digital aconteceu no dia 11 de novembro, numa loja de games do centro da cidade. Cerca de 200 jogadores, além de vários curiosos, assistiram à partida entre um agente penitenciário de 29 anos e um estudante de 16. O mais velho levou a melhor, e voltou para casa com um videogame de última geração como prêmio.

Quem disputou a primeira edição do torneio, em 2005, certamente não imaginava que a brincadeira ganharia proporções tão grandes. Realizado no apartamento do organizador, o então office-boy Eduardo Gomes, o campeonato contou com apenas seis jogadores. De lá para cá, ele já promoveu mais de cem competições - uma delas, patrocinada por uma rádio, foi disputada dentro de um cinema.

Eduardo, hoje com 30 anos, fundou a Federação Paranaense de Futebol Digital antes mesmo de a entidade existir de verdade. Depois de registrar o estatuto em cartório, ele investiu suas economias na divulgação do primeiro torneio. A repercussão na imprensa esportiva foi tão positiva que a segunda edição, realizada no mês seguinte, atraiu 44 jogadores. "Tive de emprestar televisões da família", lembra.

O terceiro campeonato, com mais de 60 inscritos, aconteceu numa loja alugada. Em paralelo, outras federações surgiam pelo Brasil, sempre tendo a paranaense como referência. E assim foi, até que Eduardo montou seu próprio negócio de games. Mas não sem uma dose de sacrifício.

Quinze dias depois da inauguração, ladrões levaram todo o seu estoque - causando um prejuízo de R$ 30 mil (dinheiro emprestado de um primo). De volta à estaca zero, o "cartola eletrônico" se reergueu fazendo o que sabe: organizando competições.

Instalado em um novo local, e com 4 mil panfletos em mãos, ele percorreu os estádios da cidade divulgando o paranaense "virtual" de 2008. E, como se sabe, o torneio foi um sucesso, com mais de 200 inscritos. Tanto que Eduardo planeja aumentar o espaço da loja, incrementando a estrutura com um telão.

Também apaixonado por futebol "real", o cartola é daqueles que interrompe o que estiver fazendo para ver uma partida pela televisão. "Minha namorada fica louca quando vejo um Milan e Juventus, por exemplo", conta. Mas, jogar mesmo, não é muito com ele. "O sedentarismo é tanto que eu só joguei de goleiro. Para que ficar correndo atrás da bola se ela pode vir até mim?", debocha.

Federação de Futebol Digital

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
dezembro de 2008

CAÇADORA DE TENDÊNCIAS

Patrícia Papp: um novo jeito de trabalhar com comunicação

Luiza vai nascer na semana que vem. É o segundo bebê da publicitária Patrícia Papp, 33 anos, mãe de um menino de 5, o Pedro. Para cuidar da pequena, ela terá de abrir mão, pelo menos por um tempo, de uma das partes mais "chatas" de seu trabalho: viajar, a cada 40 dias, para fora do país. Só neste ano de gravidez, Patrícia esteve nos Estados Unidos, Japão, Malásia e Argentina.

Sócia e fundadora da empresa Pulp Idéias e Conteúdo, a publicitária é uma caçadora de tendências profissional. Ou cool hunter, como se diz no meio. Seu dia-a-dia consiste basicamente em investigar novidades e apresentá-las ao mercado - por meio de boletins informativos e de forma mais direta, no sistema de consultoria.

Patrícia explica sua atuação. "Digamos que um shopping center pretende fazer uma grande transformação. Nós analisamos a situação e sugerimos ações inovadoras para que o cliente comunique essa mudança. Pintar tudo de determinada cor, por exemplo, como vimos em um outro shopping de Hong Kong". E por aí vai, sempre com atenção nos detalhes.

Assumidamente inquieta e agitada, a publicitária passou por quase todas as grandes agências da cidade (como estagiária ou diretora de arte). Até perceber, há três anos, que a comunicação entrou em uma nova fase. E não só porque a quantidade de informação e de veículos para transmiti-la aumentou. A maneira como as pessoas recebem e interagem com os conteúdos também mudou.

"A publicidade não é mais estática. O consumidor agora já pode participar de uma campanha, mandando sua história pela internet, ajudando a escrever o roteiro do comercial ou mesmo desenhando um modelo de tênis", afirma. Desse desejo de "fazer parte da mudança" surgiu a Pulp, criada com dois amigos jornalistas e "novidadeiros" de carteirinha.

Atenta, 24 horas, a tudo o que é diferente, Patrícia ainda leciona e se envolve nas atividades do Clube de Criação do Paraná (entidade que discute a comunicação regional e preserva sua memória). De quebra, está sempre à disposição para debates, palestras, seminários e entrevistas. "Aprendo muito com os estudantes, pois eles têm uma maneira toda própria de se relacionar com as novas ferramentas de comunicação. Mas a verdade é que eu não consigo dizer não", admite.

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
novembro de 2008

LIVRE PARA SER POPULAR

Luiz Felipe Leprevost: a favor da vaia

"Quem que gosta de se alimentar só de rissole e fanta uva? Sei de gente faminta capaz de mastigar o pintinho amarelinho do Gugu Liberato ainda vivo."

O trecho, extraído do novo livro de Luiz Felipe Leprevost, dá uma dica sobre a verve do autor. Seus contos trazem um humor trágico, ou talvez seja o contrário. Tanto faz, na verdade. "Não identifico o humor quando estou escrevendo. Mas, de tão trágicas, algumas situações se tornam patéticas, grotescas", afirma.

Leprevost, de 29 anos, considera-se um escritor. Mesmo transitando pela música (com o projeto Normas da ABNT) e a dramaturgia (é formado em Teatro e prepara três peças para 2009, uma delas como diretor). "No fim das contas, tudo é literatura, ficção", justifica o autor de seis livros, sendo dois de poesia. O mais recente, Inverno Dentro dos Tímpanos, é o primeiro produzido e lançado em um esquema profissional.

Desde 2007, quando retornou de uma temporada de três anos de estudos no Rio de Janeiro, Leprevost emenda um projeto no outro. Esse fôlego criativo é fruto justamente da experiência carioca. "Voltei com uma liberdade artística maior. Coisa que você só consegue se anda de bermuda e chinelo e deixa a barba crescer", brinca.

Envolvido pelo clima despojado do lugar, ele também viu seu trabalho se tornar cada vez mais leve e popular. "Passei a me diferenciar dos pedantes de plantão", garante o artista, que define o Rio como "Cidade Maravilhosa, população do dane-se" (a palavra é outra, mas enfim...).

Já os curitibanos, ao contrário, continuam com seus receios e pudores. "Enquanto as pessoas daqui não tiverem a capacidade de vaiar, não teremos um público de verdade. Falo de vaia num sentindo simbólico, de crítica, de reflexão", diz.

A volta para Curitiba, ele conta, deveu-se à "estrutura afetiva e material" que sua família pode oferecer. Aliás, o parentesco com figuras influentes na cidade não poderia ficar de fora da conversa.

O escritor é irmão do deputado estadual Ney Leprevost (PP) e dos empresários João Guilherme e Alexandre, donos de bares e produtores de eventos. Mas garante que os laços familiares mais atrapalham do que ajudam. "Já sofri preconceito da classe artística por causa do sobrenome. Por outro lado, algumas pessoas acreditam, equivocadamente, que eu poderia contribuir para projetos graças à influência de meus irmãos".

Entre um lado e outro, Leprevost fica com os amigos que já compreenderam sua postura independente. Tão independente que ele admite ter uma certa dificuldade para lidar com os aspectos mais práticos da produção cultural - como a formatação de projetos para leis de incentivo e investidores. "Estou começando a acreditar que os grandes dramaturgos de hoje em dia são os caras que sabem elaborar projetos", diverte-se.

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
novembro de 2008

NA CARA E NA CORAGEM

Jô Mistinguett agendou, via internet, nove shows fora do país

Em vez de reclamar da falta de apoio, como nove entre dez artistas locais, Jô Mistinguett foi à luta. Comprou uma passagem para Portugal e, via internet, iniciou uma série de contatos para marcar shows fora do País. Descolou uma agente portuguesa e saiu daqui com nove datas agendadas: oito em terras lusitanas e uma em Paris. ''Fiz tudo na cara e na coragem'', orgulha-se.

Recém-chegada da mini-turnê, a cantora e DJ de 24 anos se diz surpresa com o tratamento que recebeu do público dos dois países. ''Os portugueses, principalmente, são muito quentes, bem parecidos com a gente'', conta. De acordo com ela, que canta em inglês e toca electro-rock, só o fato de ser brasileira já chamava a atenção das platéias. ''Na França, teve gente que me cobrou músicas em português'', lembra

Sua trajetória musical começou há pouco menos de quatro anos, quando trocou Joinville por Curitiba, para estudar Design de Produto. ''Mas toco teclado desde os dez anos. Cheguei a me apresentar em restaurantes e teatros com aqueles órgãos de dois andares, com pedal'', revela, rindo. Já no Paraná, Jô fez um curso de Discotecagem na Academia Internacional de Música Eletrônica (Aimec) e criou o projeto Gomma Fou, com o também DJ Péricles M.

A dupla terminou de forma precoce, bem como seu interesse pela faculdade. O desejo de se expressar, no entanto, permaneceu. Rebatizada como Jô Mistinguett (na certidão é Josely Costa), ela investiu no trabalho-solo e, como se vê, não tem do que se arrepender. Em tempo: o apelido é uma homenagem à dançarina Mistinguett, famosa nos cabarés franceses na transição entre os séculos 19 e 20.

Estudiosa, Jô ainda cursou Masterização e Produção na Aimec. Gostaria de ingressar na UFPR, porém acredita que a música eletrônica ainda é discriminada no meio acadêmico. Enquanto procura outro curso para se matricular, aprende a mexer nos equipamentos que trouxe da Europa.

Os novos ''brinquedinhos'' reforçam à parafernalha instalada em seu estúdio caseiro, onde ela costuma se enfurnar durante várias horas do dia. ''Com o sol alto, é só até às dez da noite, em ponto. Passou disso, os vizinhos já interfonam. É como se eles ficassem vigiando'', brinca.

Jô Mistinguett no MySpace

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
novembro de 2008

ENSAIO SOBRE O SOM

Laroca assina o trabalho de som de Ensaio Sobre a Cegueira


Alessandro Laroca está em cartaz nos cinemas com Ensaio Sobre a Cegueira, do diretor Fernando Meirelles. E antes que alguém pergunte: não, ele não está entre os personagens que perdem a visão e são confinados em uma espécie de campo de concentração.

Laroca, de 38 anos, é o supervisor de edição de som do longa-metragem. Coordena uma equipe de dez técnicos, responsáveis por criar a atmosfera sonora do filme. Detalhe: tudo produzido em Curitiba, em um estúdio localizado no bairro do Alto da XV.

"Durante a filmagem, praticamente só se captam os diálogos. Todo o resto é feito depois. Nosso trabalho é desenvolver efeitos, dublagens e acréscimos de som. Do barulho da porta do carro aos passos dos personagens", explica.

Um dos poucos - e reconhecidamente bons - profissionais do gênero no Brasil, Laroca trabalhou em títulos como 2 Filhos de Francisco, Olga, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e Tropa de Elite, entre outros. Mas a projeção veio mesmo com Cidade de Deus, que lhe rendeu prêmios nacionais e internacionais. "O Fernando (Meirelles) queria ter um brasileiro no departamento de som, que era todo composto por estrangeiros, e acabou me chamando", lembra.

Nascido em Castro, Laroca chegou a Curitiba no fim dos anos 80. Já atuava como músico profissional e técnico de estúdio quando resolveu estudar cinema em São Paulo. As duas paixões se combinaram e, até por falta de mão-de-obra especializada no mercado, ele se encaminhou para a área audiovisual. Praticamente um autodidata, começou trabalhando em curtas-metragens universitários, até ser convidado para produções maiores.

Sobre o fato de não estar em um grande centro, mas participar de filmes importantes, ele conta que a descentralização é uma tendência no cinema. "É comum, por exemplo, um longa ser montado na Nova Zelândia, mixado na Inglaterra e finalizado nos EUA. Muita coisa é acertada em conference calls (reuniões a distância, via telefone). Mesmo em Hollywood os caras não querem mais sair de casa", diz.

Atualmente, sua equipe desenvolve três projetos. O longa À Deriva, do cineasta Heitor Dhalia, e as séries de tevê Som e Fúria (para a Rede Globo) e Filhos do Carnaval (HBO). Quanto às metas e sonhos, ele prefere ser realista. "Meu objetivo é ter condições ideais de trabalho. Há um desconhecimento enorme com relação ao que fazemos, inclusive dentro do próprio meio cinematográfico. Se as pessoas tiverem mais noção da importância do som em um filme, poderão nos ajudar a trabalhar melhor", afirma.

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
outubro de 2008

DISTRAÇÕES SOBRE RODAS

O táxi de Rodrigo: "marketing da experiência"


Como diriam os professores da área de négocios, Rodrigo Brustolin é um case a ser estudado. O taxista de 29 anos não fez faculdade, mas, à sua maneira, utiliza ferramentas de marketing e atendimento ao cliente no dia-a-dia.

Andar no carro de Rodrigo é uma experiência (para usar outro termo comum entre os especialistas em business). Equipada com DVD e telas de plasma, a Zafira nova em folha conta com distração audiovisual para todos os gostos. De Bruno & Marrone a Bee Gees, passando por Tim Maia, Só Pra Contrariar e até vídeos de pesca.

Jornais e revistas também estão à disposição dos passageiros, além de uma infinidade de guloseimas. São balas, chicletes, amendoins, biscoitos e salgadinhos oferecidos sem qualquer custo adicional. Fora a atenção e o bom papo do motorista, um apaixonado pelo ofício. "Para mim, isso não é uma profissão. É uma brincadeira", afirma Rodrigo, há 11 anos na praça.

Seu pai, também taxista, queria que ele estudasse mais e seguisse uma carreira diferente - mas os conselhos foram em vão. Rodrigo bateu o pé e se dedicou integralmente ao carro, sempre com um objetivo bem definido em mente: superar-se em termos de inovação. Não à toa, seu próximo investimento é um frigobar, para que os clientes possam beber água gelada durante as corridas.

"Tento pensar como qualquer outro empresário", diz. Mas, por incrível que pareça, nem todos entendem suas intenções. Certa vez, a empresa de radiotáxi ao qual Rodrigo é ligada recebeu uma reclamação de uma passageira indignada. "A moça ficou brava quando ofereci uma bala e pediu para descer ali mesmo. Depois, ligou para a central dizendo que eu insinuei que ela estava com mau hálito", conta. Não há agrado que reverta o mau humor crônico.

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA RODRIGUES
agosto de 2008

EXTREMOS DO RÁDIO

Gláucio Pozzo: trabalho de dia, diversão à noite


Durante o dia, o radialista Gláucio Pozzo, 35 anos, trabalha na Lúmen FM - emissora direcionada a um público adulto e de gosto sofisticado. Entre outras tarefas, ele produz e apresenta o programa Alma Brasileira, que enfoca a nata da MPB.

Terminado o expediente, Gláucio volta para casa, descansa um pouco e entra no carro novamente. É que, a partir das 20 horas, ele comanda A Noite É Nossa, na Clube FM, uma jornada que se estende até à 1 da manhã.

As duas emissoras integram o mesmo grupo de comunicação e seus estúdios são divididos apenas por uma parede. Mas, ao contrário da Lúmen, a Clube tem vocação extremamente popular, e baseia sua programação nos grandes sucessos da música sertaneja.

Para fazer essa transição, o locutor encarna um personagem, inclusive adotando outro tom de voz. ''Viro o amigão da noite'', conta Gláucio, verdadeiro faz-tudo do programa. Além de apresentar e operar os equipamentos, ele recebe mensagens da audiência e produz quadros como Clube da Amizade e Informação com Descontração.

O primeiro promove encontros entre os ouvintes, que têm seus dados divulgados no ar e ficam à espera de contatos telefônicos. Já o segundo conta com um slogan didático: ''O que acontece de mais estranho, engraçado e diferente mundo afora''. Como se pode imaginar, o quadro traz notícias como ''Mulher casa com cobra na índia'' e ''China quer produzir vinho feito de peixe'', entre outras bizarrices bem-humoradas.

Gláucio foi criado em Curitibanos (SC), onde o pai é diretor de uma rádio. Seus dois irmãos e um primo também são comunicadores, o que praticamente forçou sua entrada nos estúdios. Aos 12 anos, ele já operava a mesa de som. E não demorou muito para que a cidade ficasse ''pequena demais'' para os seus objetivos.

Em 1993, o locutor chegou a Curitiba para atuar na extinta Studio 96. Ainda passou pelas emissoras 98 e Caiobá antes de iniciar a dobradinha Clube-Lúmen, em 2005.

Como se não bastasse a ''vida dupla'' no ar, Gláucio ainda empresta a voz para produtoras de comerciais e outros serviços avulsos. Mas não reclama da correria. Afinal, o rádio é mesmo uma cachaça, como se diz no meio. ''Na Lúmen eu trabalho, e na Clube me divirto'', afirma o radialista dos extremos.

por OMAR GODOY
com foto de THEO MARQUES
outubro de 2008

GAROTAS DIABÓLICAS

As Diabatz: ''vida nova'' com o psychobilly


Membros de uma tribo pequena, porém fidelíssima, os adeptos do psychobilly seguem conquistando novos seguidores em Curitiba. Inclusive garotas, que também fazem questão de adotar o visual extravagante da turma - inspirado nos roqueiros dos anos 50, nos punks e em filmes de terror classe B. Entre elas, destaca-se o trio As Diabatz, provavelmente a primeira banda feminina do gênero no país.

Juntas desde o fim de 2006, Carolina Salmazo (voz e guitarra, 19 anos), Cláudia Smith (baixo acústico, 24) e Ana Cláudia Marques (bateria, 20) já surgiram fazendo barulho. E não apenas nos palcos. Sua página no site MySpace chamou a atenção da gringolândia e não demorou muito para que elas recebessem o primeiro convite para tocar no exterior.

O show aconteceu em um dos maiores festivais de psychobilly do mundo, realizado na Espanha, em uma praia perto de Barcelona. Antes, as meninas estiveram em Roterdã (Holanda), onde gravaram as faixas de seu primeiro álbum. O disco está pronto, e agora o grupo negocia um contrato de distribuição com uma gravadora internacional. Nada mal para quem só havia tocado em Curitiba, Maringá e Londrina.

O gosto pelo psychobilly, elas contam, vem do caráter apolítico do movimento. Inicialmente envolvidas com a cena punk, as garotas trocaram a contestação pela diversão. ''No psychobilly você pode ter a opinião que quiser sobre as coisas. Ninguém vai discutir se não concorda'', diz Cláudia, mulher de Coxinha, um dos músicos mais versáteis da cidade.

Cláudia se formou em Pedagogia, mas hoje se dedica integralmente à banda. Ana é designer. E Carolina se vira como professora de inglês e garçonete de um café. No caso dela, é preciso estar ''à paisana'' para não chocar os clientes. ''As pessoas estranham muito as tatuagens e o cabelo raspado com topete. Na faculdade pensavam que eu tinha câncer'', lembra Cláudia.

Elas afirmam que o psychobilly mudou suas vidas, e agora não conseguem namorar alguém de fora do meio. ''Imagina ficar com um cara que curte MPB ou funk'', brinca a baixista. ''A gente conversa muito sobre música, seria impossível conviver com um namorado que não goste das mesmas coisas ou não entenda nosso visual'', diz Carolina.

Enquanto o CD de estréia e a primeira turnê internacional não viram realidade, As Diabatz seguem se apresentando por aqui mesmo. Na próxima quinta, tocam pela primeira vez em São Paulo. Para ouvir quatro faixas das meninas, acesse o MySpace da banda.

por OMAR GODOY
com foto de DIEGO SINGH
outubro de 2008