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O NOME COMPLETO

Giancarlo Rufatto: foco aqui, e não em Londres

Reza a lenda que Giancarlo Rufatto levou um choque elétrico quando era criança. A sequela foi uma leve paralisia no braço esquerdo, que ele só foi descobrir na adolescência, quando sentiu dificuldade de tocar violão.

Expulso da banda de covers que formou com os colegas do Cefet de Pato Branco, Giancarlo resolveu compor as próprias músicas, com notas mais adequadas a sua pequena limitação. Desde então, tornou-se um compositor incansável, autor de canções marcadas pelo romantismo e sonoridades acústicas.

Hoje, aos 27 anos, o artista se divide entre Curitiba e Coronel Vivida, sua cidade natal, na região de Pato Branco. Formado em Publicidade, faz trabalhos avulsos para se manter, mas seu foco é mesmo a música. Participou de várias bandas e projetos-solo assinados com outros nomes até se "assumir" como Giancarlo Rufatto, em 2006.

"Eu odiava meu nome completo. Até perceber que tinha amadurecido e não fazia mais sentido ficar me escondendo atrás de alteregos", diz o admirador de cantores como Ryan Adams, Bob Dylan, Al Green e Renato Russo.

A Legião Urbana, aliás, é uma espécie de influência controversa em seu trabalho. "As pessoas acabam me ligando só à Legião. Como eu uso óculos e barba, ficam o tempo todo dizendo que eu pareço o Renato Russo", conta o músico, que também é fã assumido dos Engenheiros do Hawaii. "Sou, sim. Infelizmente", ironiza.

A verdade é que Giancarlo se posiciona como uma voz dissonante no atual cenário alternativo de Curitiba, em que muitos grupos já se formam com planos de trilhar uma carreira internacional (na esteira do conterrâneo Bonde do Rolê e do paulista Cansei de Ser Sexy). "É claro que deve ser legal tocar em Londres. Mas é a minha mãe que tem de gostar do som que eu faço, não um cara lá na Inglaterra. Queria ouvir minha música tocando numa rádio do interior", afirma.

Outra de suas marcas é justamente a liberdade de falar o que lhe der na telha. Algo raro no meio artístico curitibano, onde se prefere não incomodar para não ser incomodado. "Tem muita gente hipócrita em Curitiba, e uma das coisas que eu mais gosto é meter a boca nos outros", diz.

Para ele, existe um certo cânone local blindado contra críticas. "Ninguém tem coragem de falar da Relespública, por exemplo. Eles já fizeram muita coisa boa, mas são irrelevantes hoje em dia", afirma.

Depois de passar os últimos três anos como solista, Giancarlo recentemente se juntou a uma banda. É o Hotel Avenida, cuja formação inclui figuras experientes do rock de Curitiba. Será que o trovador solitário, como diz o clichê, finalmente encontrou sua turma? "Acho que sim. O Ivan (Santos, do grupo OAEOZ), que hoje toca comigo, conheceu meus trabalhos antigos, gostou e acabou me adotando", conta.

Prestes a gravar o primeiro álbum, o Hotel Avenida segue fazendo shows pela cidade. E, no momento, os outros integrantes tentam convencer o vocalista a fazer um número solo no meio da apresentação. "Eu não entendo. Quando tocava sozinho, todo mundo dizia para eu formar uma banda. Agora que eu tenho uma, querem que eu toque sozinho", diverte-se.

Giancarlo Ruffato no MySpace

por OMAR GODOY
com foto de divulgação
março de 2009

ESCONDIDO EM CURITIBA

Naporano: ‘‘necessidade física’’ de pesquisar


Fernando Naporano não gosta de ser fotografado. Só aceita posar depois de alguma insistência. Também descarta aparecer com sua coleção de milhares de LPs, CDs, K-7s e DVDs. ‘‘Isso é um clichê, deixo para o Fábio Massari’’, diz, citando o ex-VJ da MTV, notório por sua discoteca reforçada.

Ele segue dirigindo a rápida sessão. Faz questão de sair nas fotos acompanhado da cadela Melody. E também de fumar. ‘‘Sou politicamente incorreto. Faço propaganda mesmo. Adoro cigarro!’’.

Naporano foi um dos maiores críticos musicais do país a partir dos anos 80. Seus textos para o jornal Folha de São Paulo e a revista Bizz combinavam personalidade forte e muito conhecimento de causa. Em paralelo, liderava o Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, hoje lembrado como uma cult band que inaugurou o expediente de cantar em inglês no underground brasileiro.

Quando saiu do país, no início da década seguinte, virou correspondente de veículos como O Estado de São Paulo, Correio Braziliense e Rede Globo, além de colaborar com publicações estrangeiras. Ainda trabalhou para a gravadora Continental, negociando os direitos de discos brasileiros para os mercados europeu e asiático.

Foram 13 anos em Londres e dois nos EUA. Naporano só voltou ao Brasil em 2004, para ficar mais perto da filha, que mora em São Paulo com a mãe. Até tentou viver novamente na capital paulista, mas não se adaptou. ‘‘Escreva o que eu vou dizer, por favor: São Paulo é uma cidade aflitiva, suja e cara’’, afirma, na primeira das várias ênfases da conversa.

Em seguida, mudou-se para Florianópolis (SC) e, enfim, Curitiba, onde encontrou o equilíbrio entre qualidade de vida e proximidade da filha. Considera-se aposentado, apesar de fazer eventuais trabalhos de tradução. ‘‘Tenho nojo de me envolver com as coisas vigentes. As diretrizes da imprensa cultural atual são estupidamente medíocres’’, justifica.

Lendo assim, pode parecer que Naporano é um sujeito amargo. Mas suas tiradas, mesmo as mais agressivas, contém um humor ácido, impagável. Exemplos não faltam.

‘‘Prefiro dar vassouradas na minha mãe do que assistir a esses festivais corporativos’’, diz, sobre os shows internacionais patrocinados por grandes empresas. ‘‘Não vou jantar com um gordo desgraçado só para convecê-lo a lançar um livro sobre o rock psicodélico do Texas’’, dispara, quando o assunto são os projetos que gostaria de desenvolver - e sua inaptidão para lidar com o ‘‘mundo real’’, como ele mesmo admite.

Morando há dois anos com a incrivelmente jovem Bianca, o jornalista passa o dia lendo nos parques da cidade. Pesquisa poesia, cinema e praticamente todos os gêneros de música. Tem vários livros prontos, mas quer mesmo é relançar a obra do Maria Angélica, ainda inédita no formato digital.

‘‘Procuro um mecenas para produzir uma caixa com quatro CDs e um livreto contando a história da banda. Tem de ser uma coisa luxuosa, em respeito ao público. Do contrário, não faço’’, afirma, para depois cogitar uma série de shows acústicos caso o projeto saia do papel.

Outra de suas paixões é o futebol. Torcedor incurável do São Paulo e do Everton (Inglaterra), assiste a jogos de todos os cantos do mundo. ‘‘Luto contra o tempo para dar conta de ver, ler e ouvir tudo o que me interessa. É meio neurótico, uma necessidade física’’, confessa, cercado por estantes lotadas.

Aliás, a casa espaçosa, no bairro do Seminário, é um verdadeiro museu. Só de LPs e CDs, são cerca de 25 mil. Todos devidamente organizados - em ordem alfabética e divididos em categorias extremamente pessoais, como ‘‘60’s Westcoast Sounds’’, ‘‘70’s Europe’’ e ‘‘Italian Stuff’’.

Antes de encerrar o papo, insisto em saber sua idade, que ele não revela de jeito nenhum (há quem diga que Naporano tem 46). ‘‘Escreva aí: idade inconfessa. Porque não acredito em drama de geração, nesse negócio de que ‘no meu tempo era melhor’’’, diz. ‘‘No Brasil, há essa mania de dizer que o jovem é burro, não pensa. A Bianca só tem 20 anos e é um gênio’’, completa.

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
fevereiro de 2009

GUITARRAS E RESPONSABILIDADES

Ser adulto e ter uma banda de rock
deixou de ser tabu no underground

Alexandra é bancária, mãe de uma menina e guitarrista do Subburbia

O geólogo André, do ruído/mm: amigos "estabilizados" estão voltando a tocar

O médico Erasmo, do Tristessa: neurocirurgia e música barulhenta


Após os seis anos da faculdade, e outros cinco de residência, o médico Erasmo Barros, 31 anos, finalmente pode se considerar um neurocirurgião. "É a formação mais longa da Medicina", explica o doutor, que também termina em breve um mestrado em cirurgia.

Abrir e operar o crânio dos outros, convenhamos, é uma tremenda responsabilidade. São cerca de cem horas de trabalho semanais, ele conta, marcadas por muita tensão e estresse. Não é de se admirar que muitos médicos simplesmente não conseguem se desconectar quando saem do centro cirúrgico. "Se tirar a Medicina, muito deles não têm mais nada", diz.

Com Erasmo é diferente. Ao menos uma vez por semana, o neurocirurgião se encontra com três amigos (dois advogados e um arquiteto) para tocar música alta, pesada e barulhenta. Eles formam o Tristessa, banda que transita pelo underground roqueiro da cidade desde 2003.

A exemplo do quarteto, centenas de outro grupos do cenário independente, ou alternativo, são formados por artistas que se dividem entre a música e a carreira profissional. E não está se falando, aqui, de atividades ligadas à comunicação. Afinal, jornalistas, publicitários e designers sempre estiveram envolvidos no meio artístico.

Tampouco se trata de um mero hobby. Essas bandas compõem seu próprio material, produzem shows e festivais, lançam discos e excursionam pelo Brasil (algumas chegam ao exterior). "Hobby é para quem coleciona selo, alimenta peixe. Para mim, o rock e a medicina se complementam", afirma Erasmo.

Alexandra Sakaguchi, 27, concorda. "Não considero um hobby. A gente leva a banda muito a sério", diz a integrante do Subburbia. Bancária há nove anos, ela também estuda Direito. "É um curso que facilita o acesso a concursos públicos", explica a guitarrista, que busca uma condição estável.

Ela revela que nem sempre foi fácil conciliar as duas coisas. Sobretudo pela pressão da família, japonesa e de costumes tradicionais. "Toco em bandas desde os 16 anos, mas meus pais nunca aprovaram. Quando minha filha nasceu, ficou ainda pior", conta a mãe de Clarice, hoje com 7 anos.

Como se vê, a administração do tempo não é o maior problema para os músicos. E o fato de ser adulto e tocar rock and roll também começa a ser encarado com naturalidade pela sociedade. "Todo adulto tem uma válvula de escape, e o mercado de trabalho não vê mais isso como um ponto negativo. Muito pelo contrário", afirma Bruno Zagonel, 29, baterista do Criaturas e engenheiro de uma companhia multinacional.

A verdade é que ninguém mais precisa largar o rock só porque se casou, teve filhos e conseguiu um emprego respeitável. E mais: há quem tenha se estabilizado e retornado à vida nos palcos alternativos. "Conheço gente que voltou a ter banda depois que os filhos cresceram um pouco", conta o geólogo André Ramiro, 28, pai de um menino e integrante dos grupos ruído/mm (com minúsculas mesmo) e Índios Eletrônicos.

Para Erasmo, é tudo uma questão de postura. "Você tem que escolher. Ou assume suas responsabilidades, ou vira um Peter Pan que não aceita envelhecer e permanece com aquela ilusão do sucesso. Se você passou dos 25 anos e ainda não vendeu pelo menos umas 20 mil cópias, não vai ser um rockstar", brinca.

Depois de cortar um dobrado ao conviver com colegas de grupo bem mais jovens (e sem maiores preocupações na vida), o médico promoveu uma troca geral de integrantes. Hoje, afirma que o Tristessa finalmente chegou à formação ideal. "Todos são casados, trabalham e querem estar cedo em casa para descansar. É a banda que eu sempre quis".

HORA DE OPTAR

Oneide Diedrich, 33, foi vocalista do Pelebrói Não Sei?, um dos grupos mais populares do underground local nesta década. Mas travava uma espécie de "guerra interior", como se tivesse de optar por uma das duas atividades. Chegou à conclusão de que não havia escolha.

"Quem é compositor entende isso melhor. Você não decide se vai compor uma música. É ela que decide aparecer", explica o psicólogo, que tem formação em Psicanálise e é sócio de uma clínica.

No melhor momento do Pelebrói, quando o grupo ganhou reconhecimento fora da cidade, Oneide se viu "obrigado a fazer sucesso". Como era de se esperar, o processo culminou no fim da banda - e ele percebeu que era hora de investir na clínica.

A inspiração, é claro, não cessou. Surgiu então um novo projeto, Diedrich e os Marlenes, cujos músicos compartilham do mesmo dia-a-dia "adulto". " Um dos caras tem um filho adolescente que já toca em uma banda", conta o artista-analista, que ainda chama a atenção para a longevidade de ídolos como Bob Dylan e os Rolling Stones. "Eles são a prova de que o rock também envelheceu", afirma.

Como Oneide, o advogado Gustavo Rodrigues, 39, acredita que a atração pelos porões do rock é irreversível. "Deve ser um cromossomo defeituoso", ironiza o baixista e vocalista da banda Mão-de-Ferro. Mas ao contrário do psicólogo, ele nunca se angustiou com um sentimento de dualidade.

O conflito, por assim dizer, era de ordem mais prática. Casado, pai de dois filhos e com uma longa carreira no Tribunal de Justiça, o advogado percebeu que a agenda de seu antigo grupo, Os Catalépticos, não estava de acordo com sua realidade. "Viajávamos para o exterior todos os anos. Foram quatro turnês pela Europa e três pelos EUA", lembra.

Em uma das excursões americanas, os músicos visitaram a Disneylândia. Ao ligar para a mulher, durante o passeio, Gustavo soube que um dos meninos ardia em febre. Teve a certeza de que não deveria estar ali. Meses depois, na Espanha, outro alarme: sua casa havia sido inundada por conta de um temporal. A sensação de impotência foi ainda maior.

As responsabilidades profissionais e familiares se somaram ao desgaste natural de qualquer banda e Os Catalépticos encerraram sua trajetória. O advogado pensou em parar de tocar, mas não conseguiu. Montou o Mão-de-Ferro e hoje administra a carreira do grupo "muito de leve".

À beira dos 40 anos, ele admite que às vezes se arrepende de marcar um show. Preferia estar em casa, com a família, e dormir um pouco mais no dia seguinte. "Acho que a idade está pesando", conclui.

por OMAR GODOY
com fotos de LETÍCIA MOREIRA
novembro de 2008

NA CARA E NA CORAGEM

Jô Mistinguett agendou, via internet, nove shows fora do país

Em vez de reclamar da falta de apoio, como nove entre dez artistas locais, Jô Mistinguett foi à luta. Comprou uma passagem para Portugal e, via internet, iniciou uma série de contatos para marcar shows fora do País. Descolou uma agente portuguesa e saiu daqui com nove datas agendadas: oito em terras lusitanas e uma em Paris. ''Fiz tudo na cara e na coragem'', orgulha-se.

Recém-chegada da mini-turnê, a cantora e DJ de 24 anos se diz surpresa com o tratamento que recebeu do público dos dois países. ''Os portugueses, principalmente, são muito quentes, bem parecidos com a gente'', conta. De acordo com ela, que canta em inglês e toca electro-rock, só o fato de ser brasileira já chamava a atenção das platéias. ''Na França, teve gente que me cobrou músicas em português'', lembra

Sua trajetória musical começou há pouco menos de quatro anos, quando trocou Joinville por Curitiba, para estudar Design de Produto. ''Mas toco teclado desde os dez anos. Cheguei a me apresentar em restaurantes e teatros com aqueles órgãos de dois andares, com pedal'', revela, rindo. Já no Paraná, Jô fez um curso de Discotecagem na Academia Internacional de Música Eletrônica (Aimec) e criou o projeto Gomma Fou, com o também DJ Péricles M.

A dupla terminou de forma precoce, bem como seu interesse pela faculdade. O desejo de se expressar, no entanto, permaneceu. Rebatizada como Jô Mistinguett (na certidão é Josely Costa), ela investiu no trabalho-solo e, como se vê, não tem do que se arrepender. Em tempo: o apelido é uma homenagem à dançarina Mistinguett, famosa nos cabarés franceses na transição entre os séculos 19 e 20.

Estudiosa, Jô ainda cursou Masterização e Produção na Aimec. Gostaria de ingressar na UFPR, porém acredita que a música eletrônica ainda é discriminada no meio acadêmico. Enquanto procura outro curso para se matricular, aprende a mexer nos equipamentos que trouxe da Europa.

Os novos ''brinquedinhos'' reforçam à parafernalha instalada em seu estúdio caseiro, onde ela costuma se enfurnar durante várias horas do dia. ''Com o sol alto, é só até às dez da noite, em ponto. Passou disso, os vizinhos já interfonam. É como se eles ficassem vigiando'', brinca.

Jô Mistinguett no MySpace

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
novembro de 2008

GAROTAS DIABÓLICAS

As Diabatz: ''vida nova'' com o psychobilly


Membros de uma tribo pequena, porém fidelíssima, os adeptos do psychobilly seguem conquistando novos seguidores em Curitiba. Inclusive garotas, que também fazem questão de adotar o visual extravagante da turma - inspirado nos roqueiros dos anos 50, nos punks e em filmes de terror classe B. Entre elas, destaca-se o trio As Diabatz, provavelmente a primeira banda feminina do gênero no país.

Juntas desde o fim de 2006, Carolina Salmazo (voz e guitarra, 19 anos), Cláudia Smith (baixo acústico, 24) e Ana Cláudia Marques (bateria, 20) já surgiram fazendo barulho. E não apenas nos palcos. Sua página no site MySpace chamou a atenção da gringolândia e não demorou muito para que elas recebessem o primeiro convite para tocar no exterior.

O show aconteceu em um dos maiores festivais de psychobilly do mundo, realizado na Espanha, em uma praia perto de Barcelona. Antes, as meninas estiveram em Roterdã (Holanda), onde gravaram as faixas de seu primeiro álbum. O disco está pronto, e agora o grupo negocia um contrato de distribuição com uma gravadora internacional. Nada mal para quem só havia tocado em Curitiba, Maringá e Londrina.

O gosto pelo psychobilly, elas contam, vem do caráter apolítico do movimento. Inicialmente envolvidas com a cena punk, as garotas trocaram a contestação pela diversão. ''No psychobilly você pode ter a opinião que quiser sobre as coisas. Ninguém vai discutir se não concorda'', diz Cláudia, mulher de Coxinha, um dos músicos mais versáteis da cidade.

Cláudia se formou em Pedagogia, mas hoje se dedica integralmente à banda. Ana é designer. E Carolina se vira como professora de inglês e garçonete de um café. No caso dela, é preciso estar ''à paisana'' para não chocar os clientes. ''As pessoas estranham muito as tatuagens e o cabelo raspado com topete. Na faculdade pensavam que eu tinha câncer'', lembra Cláudia.

Elas afirmam que o psychobilly mudou suas vidas, e agora não conseguem namorar alguém de fora do meio. ''Imagina ficar com um cara que curte MPB ou funk'', brinca a baixista. ''A gente conversa muito sobre música, seria impossível conviver com um namorado que não goste das mesmas coisas ou não entenda nosso visual'', diz Carolina.

Enquanto o CD de estréia e a primeira turnê internacional não viram realidade, As Diabatz seguem se apresentando por aqui mesmo. Na próxima quinta, tocam pela primeira vez em São Paulo. Para ouvir quatro faixas das meninas, acesse o MySpace da banda.

por OMAR GODOY
com foto de DIEGO SINGH
outubro de 2008

CONFISSÕES DE UM COVER

Miro, o Renato Russo de Pinhais: autógrafos para os fãs no interior



Há seis anos, Miro Penna trocou o ofício de torneiro mecânico pela vida de rockstar. Ou quase isso. Vocalista da banda Legião Urbana Cover Curitiba, Penna viu sua agenda de shows crescer a tal ponto que a dedicação exlusiva à música se tornou inevitável. Hoje, percorre o Paraná e Santa Catarina tocando as canções de Renato Russo para platéias muitas vezes carentes de informação cultural.

''No interior, chego a dar autógrafos para as pessoas'', conta o cantor, cujo público inclui garotos que mal tinham saído das fraldas quando o grupo de Brasília estava no auge. ''É a prova de que o trabalho da Legião continua atual. A música 'Que País É Este', por exemplo, tem tudo a ver com os dias de hoje'', diz o morador de Pinhais.

Penna acumula as funções de vocalista e empresário da banda. Passa as manhãs na internet, fazendo contatos e negociando shows. São no mínimo cinco por mês, com cachês que variam entre R$ 600 e R$ 1 mil. Nada extraordinário, mas que ajuda a sustentar seus dois filhos - um rapaz de 20 e uma menina de 9.

A trajetória como imitador esconde um objetivo: emplacar com as próprias composições. O plano, segundo ele, é se firmar como um cover conceituado e, só então, partir para o material autoral. No entanto, falta coragem. ''Ainda não encontrei um diferencial nas minhas músicas que me faça mostrar a cara'', admite.

Penna também revela que, muitas vezes, surpreende-se agindo e falando como o ídolo fora do palco. ''Tenho que me policiar'', diz. Além de ter um timbre de voz parecido com o do artista, o Renato Russo de Pinhais também se esforça para mimetizar seu gestual e movimentos. ''Dizem que esse é o meu ponto forte'', afirma.

Confusão de identidade à parte, Penna não tem idéia do que fará quando seu rosto não for mais parecido com o do cantor. Afinal, ele já completou 40 anos - e Russo morreu com 36. ''Sabe que eu nunca tinha pensando nisso?'', confessa.

por OMAR GODOY
com foto de DIEGO SINGH
setembro de 2008

DO CHUVEIRO PARA O MUNDO

Professor desmistifica a voz com
''aulas de canto para desafinados''


Cléia, cantora de uma grupo vocal: Não me achava capaz

A bancária Lúcia: músicas de Michael Jackson e Nikka Costa

Para o professor Paulo Valente, qualquer indivíduo pode desenvolver a voz


Que no peito dos desafinados também bate um coração, todo mundo sabe. Mas isso não libera ninguém a sair cantando por aí. Pelo contrário. Apesar de o homem emitir vocalizações desde a pré-história, qualquer pessoa pensa mil vezes antes de soltar a voz em público.

No imaginário geral, a habilidade de cantar é um dom, um presente divino concedido a meia dúzia de sortudos. Na contramão desse mito, o professor de canto Paulo Valente garante: com exceção dos portadores de alguma patologia, todos os indivíduos podem desenvolver sua voz.

Amazonense radicado há 13 anos em Curitiba, Valente atrai alunos por meio de um chamariz peculiar. Em seus anúncios e folhetos, oferece ''aulas de canto para desafinados''. E, ao contrário do que possa parecer, não são poucos os que driblam a vergonha e o procuram.

Na prática, não existe um conteúdo didático específico para quem desafina. As aulas são iguais para todos, iniciantes ou não. Até porque, ele conta, há uma confusão conceitual sobre o assunto. ''Desafinação é quando você canta um som e alguém não consegue reproduzir. E por não conseguir, a pessoa passa a achar que sua voz é feia.''

Valente ainda diz que, para piorar, certos professores acabam desencorajando os alunos. ''Existe gente que tem uma voz muito interessante, mas que desistiu de cantar por não se encaixar no padrão imposto. Também há casos de vozes agradáveis que se tornaram estranhas depois de passar por aulas.''

Por essas e outras, ele desenvolve uma metodologia baseada justamente na desmistificação do canto. A proposta é ajudar o aluno a descobrir os próprios recursos, respeitando as limitações e aumentando a auto-estima.

De acordo com Valente, nenhum timbre de voz é igual ao outro, como as impressões digitais. No entanto, a grande maioria dos professores atua no sentido de moldar seus pupilos. ''Somos apenas facilitadores, mas há quem se veja como um autor'', diz.

Como não poderia deixar de ser, essa postura crítica trouxe dificuldades para o professor e eventual concertista. Na escola onde se formou bacharel em Canto, Paulo contestou a técnicas ensinadas e bateu de frente com seus mestres.

Valente hoje conta com 20 alunos regulares, que pagam R$ 80 por aula. Os encontros são semanais e ele só aceita novos aprendizes mediante um compromisso: estudar, no mínimo, uma hora por dia.

E se o pupilo tem sérios problemas de auto-estima, o professor ataca de psicologia da educação. ''Ninguém tem a capacidade de dizer se o outro tem talento ou não'', afirma. Taí um bom argumento para trocar o chuveiro pelo palco - nem que seja o do karaokê.

SUCESSO NO KARAOKÊ

A bancária Lúcia França, 41 anos, sempre gostou de cantar. Achava sua voz suave, porém sentia que faltava força. Procurou uma professora de canto e teve aulas por alguns meses. Desistiu por não perceber qualquer tipo de progresso.

Cléia Delicoli, 38, é coordenadora de marketing de uma empresa. Também tinha, lá no íntimo, o desejo de soltar a voz. A convite de um amigo, entrou para um grupo vocal que se apresenta em missas, nos fins de semana. Ainda assim, sentia-se insegura.

As duas são alunas do ''professor dos desafinados'' e estão, literalmente, descobrindo a própria voz. ''Não me achava capaz sequer de ter aulas'', confessa Cléia, que conheceu Valente por indicação de um amigo. Para ela, cantar bem era sinônimo de cantar alto. Estava errada, claro.

Mas o que pegava mesmo era a confiança. Ou melhor, a falta dela. ''O que mais trava, no fim das contas, é não acreditar'', afirma. Hoje, Cléia se diz mais à vontade para cantar e até gravou um CD com o grupo.

Despretensiosa, Lúcia decidiu procurar Valente após ver um anúncio de suas aulas na televisão. Depois de três meses de encontros semanais, já sente uma evolução. E revela: testou suas novas habilidades num karokê.

Cantou as baladas ''On My Own'' (Nikka Costa) e ''Ben'' (Michael Jackson). Foi aplaudida e elogiada. Mas perdeu uma parceira de cantoria. ''Minha amiga disse que não vai mais cantar comigo, porque minha voz está muito forte'', conta, toda orgulhosa.

por OMAR GODOY
com fotos de DIEGO SINGH
agosto de 2008