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GURUS IN COMPANY

Palestrantes motivacionais buscam
destaque em um mercado dominado
por executivos, atletas e celebridades

Maurino Veiga: "assistente de realização de sonhos"

O consultor Petrúcio Chalegre, vulgo Monge Genshô


Para cada Bernardinho, Max Gehringer ou Arnaldo Jabor que se apresenta Brasil afora, há centenas de anônimos em busca de destaque no concorrido terreno das palestras corporativas. Não se sabe ao certo os valores que esse mercado movimenta - até porque o sigilo faz parte do negócio. Mas a julgar pelo grande número de novatos à disposição, estima-se que seja um filão lucrativo mesmo para quem ainda não representa uma grife.

''Também não saberia dizer esse número, mas acredito que sejam uns bons milhões'', diz o empresário português Paulo Campos, diretor da agência de palestrantes Via Tecla, na ativa há pouco mais de dois anos.

Com escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, a empresa administra um ''banco de talentos'' com cerca de cem consultores (como também são chamados os profissionais da área). ''Do ano passado para cá, a procura praticamente dobrou'', revela.

Na internet, há ofertas para todos os gostos e bolsos. De executivos aposentados a esportistas vitoriosos, passando por mágicos, monges e celebridades do terceiro time. O site de uma outra agência paulista chega a dividir os palestrantes em diversas categorias - sobra espaço até para os ''Iniciantes Bons e Baratos''.

A remuneração começa em cerca de R$ 2 mil, mas não é raro encontrar quem fale de graça para ganhar público. Já o teto pode chegar a R$ 100 mil, caso do cachê do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Não à toa, já existe uma escola de formação para o setor. A Academia do Palestrante, em São Paulo, oferece cursos como Teatro para Não-atores (Técnicas Teatrais para a Comunicação em Público) e Empreendedorismo para Palestrantes (Extensivo e Intensivo). A lição é clara: ser bom de bico não é o suficiente. Se o novato não souber gerir a própria carreira, morre na praia.

Cerca de 90% das palestras são realizadas no sistema in company, com exclusividade para o público de determinada empresa. Os temas giram em torno de quatro núcleos básicos: liderança, vendas, qualidade de vida e motivação. Estes dois últimos, mais universais, são a base do mercado.

De um lado estão companhias cuja filosofia inclui a máxima de que ''funcionários felizes são mais produtivos''. Do outro, há empregados muitas vezes estressados e desanimados. É o território perfeito para os palestrantes, sempre prontos para levantar o moral da tropa.

''No fim dos eventos, todos saem extasiados com a possibilidade de mudar de vida, seja no trabalho ou em casa'', diz o conferencista Diego Berro, paulista que hoje mora no eixo Curitiba-Balneário Camboriú.

Aos 25 anos, e há 6 no mercado, Berro foi considerado pelo Guiness o palestrante mais jovem do Brasil. Também era dele o recorde de palestras realizadas num único dia (11, em Ponta Grossa), mas um colega gaúcho superou sua marca - por apenas um evento.

Diplomado em cursos de neurolinguística, ele garante que seu trabalho não tem nada a ver com auto-ajuda. No entanto, acredita haver uma ligação entre as conferências e sua origem na Igreja Adventista. ''Como nasci dentro da igreja, isso me gera um equilíbrio emocional e espiritual".

Diego Berro é apenas um dos muitos palestrantes que se lançam por conta própria, sem um histórico de grandes realizações no currículo. Como o ex-servidor público Osmar Coutinho, de 48 anos, que há 15 trocou o funcionalismo pelos auditórios de empresas.

''Existem pessoas que falam com amigos ou colegas de trabalho e, de repente, estão rodeadas de gente querendo ouvir. São pessoas que se sentem bem e sabem dar conselhos interessantes. Era o meu caso'', conta.

PRIMEIROS PASSOS

Para quem ainda não é conhecido no meio, o caminho das pedras inclui se oferecer para falar de graça e escrever artigos, também sem remuneração, em sites e publicações sobre planejamento de carreira, vendas, bem-estar, recursos humanos e afins. Na página do conferencista Diego Berro, por exemplo, o internauta pode se consultar por meio de textos como ''Agradeça em vez de reclamar'', ''Empreenda seus sonhos'' e ''A influência das cores, dos sons e das sensações no processo de venda''.

Outra porta de entrada para o mundo das palestras in company são os livros. Daniel Godri Jr., de 30 anos, já escreveu três: ''Mudanças e Oportunidades - 70 Dicas para Você Vencer as Montanhas do Medo na Vida e Nos Negócios'', ''Venda Mais e Melhor - Aumente seu Volume de Vendas e o seu Faturamento'' e ''Sou Campeão por Natureza - Segredos dos Animais para ser um Vencedor''.

Além do livros, Godri Jr. tem CDs e DVDs lançados e apresenta um programa de TV numa emissora ligada ao catolicismo carismático. Segue os passos do pai, veterano no mercado das palestras motivacionais. ''Acho que é o primeiro caso de segunda geração atuando no meio'', diz.

Questionados sobre a fama de ''gurus'', os palestrantes desconversam. Mas não escondem uma certa vaidade. ''Sou um anjo disfarçado, um amigo que ajuda o outro a caminhar mais rapidamente'', afirma Osmar Coutinho. ''Querendo ou não, você acaba influenciando pessoas'', opina Godri Jr.

O rótulo também é rejeitado por Maurino Veiga, de 37 anos, fundador do instituto que leva seu nome e um dos consultores mais requisitados de Curitiba. ''Me considero um assistente de realização de sonhos, só isso'', garante.

Ao contrário de muitos palestrantes que fazem da própria casa sua base de contatos, Veiga atende em um amplo escritório no centro de Curitiba. E não trabalha só. Cerca de 25 colaboradores - entre médicos, psicólogos e assistentes administrativos - fornecem o suporte necessário para o desenvolvimento de seus programas de motivação, qualidade de vida, relacionamento interpessoal, etc.

Formado em Administração, Marketing e com alguns cursos realizados na área terapêutica, Veiga define seu público: ''São pessoas muito inteligentes, que querem melhorar sua qualidade vida e não conseguem''. Mas por que não conseguem, se são tão inteligentes? ''Porque a rotina não as deixa pensar, e elas acabam não criando um tempo para desenvolver uma vida com mais qualidade'', responde.

Para o palestrante e professor universitário Marcelo Karam, o problema está no autoconhecimento. Ou melhor, na falta dele. ''A educação não estimula as pessoas a refletir, apenas a produzir'', diz o ex-campeão de ginástica aeróbica.

Mais crítico do que os colegas, ele também aponta o estágio atual do capitalismo como um dos fatores responsáveis pela desestruturação do indivíduo. ''A economia está aquecida, mas o planeta não suporta mais um ritmo tão maluco. Nesse ambiente competitivo, as pessoas adoecem, tornam-se depressivas, viciadas em remédios''.

As empresas, por sua vez, atuam numa via de mão dupla: ao mesmo tempo em que estimulam a competitividade, contratam palestrantes para falar sobre motivação e qualidade de vida. Karam concorda. ''As empresas são altamente contraditórias. Muitas delas querem que eu chegue, fale e que tudo continue como está. Acho até que não faço mais trabalhos porque nem sempre digo o que os contratantes querem'', confessa.

Agradando ou não os patrões, os motivadores de plantão nem sempre provocam mudanças por onde passam. Não necessariamente por culpa deles, e sim de quem contrata. ''Há bons e maus profissionais em qualquer atividade econômica. O problema é que, muitas vezes, as empresas consomem essas ferramentas por modismo e não as usam de maneira adequada'', afirma o consultor de RH Cássio Mattos, ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e atualmente membro do conselho deliberativo da entidade.

Ele ainda faz questão de enfatizar que as técnicas de motivação não fazem milagres. ''Elas servem para que o empregado que já se sente bem dentro da empresa continue motivado. Quem é deprimido por natureza, vai ficar do mesmo jeito''.

Ou seja: quem nasceu para jabuti, nunca vai chegar a galo.

OS EXÓTICOS

Na fauna dos gurus corporativos, não faltam espécies, digamos, exóticas. Há quem acredite que, quanto mais inusitada a embalagem, melhor. Como o paulista Helder Moreira, cuja profissão é viajar pelo País com a palestra ''Lições de Existência de Elvis Presley''.

Sim, ele é um cover do Rei do Rock! E faz analogias entre a trajetória das empresas e o sucesso do cantor (que morreu deprimido e entupido de remédios, mas isso deve ser apenas um detalhe).

Ilusionistas também estão em alta no mercado. Um do mais procurados é o catarinense Dalmir Sant'Anna, que registrou para si o nome-marca ''Palestrante Mágico'' e vende seus truques como ''uma ferramenta diferente e interessante de treinamento e aprendizado''. Não, ele não serra executivos no meio.

Diferente mesmo deve ser a palestra da atriz carioca Narjara Tureta. Ex-estrela mirim da Rede Globo, a filha de Regina Duarte em Malu Mulher caiu no ostracismo quando amadureceu. Acabou virando vendedora de água de côco na praia de Copacabana para sobreviver - e agora tenta a sorte como palestrante motivacional.

Seu colega João Signorelli, também ex-global, é um pouco mais experiente. Há mais de dois anos, veste-se como Ghandi e apresenta em empresas o monólogo ''O Líder Servidor''.

Nessa linha ''paz e amor'', mas com mais profundidade, destaca-se o empresário e consultor Petrúcio Chalegre, de Florianópolis. Com mais de 40 anos de serviços prestados a grandes companhias brasileiras, Chalegre deu uma guinada existencial ao se aproximar do zen budismo. Hoje, atende pelo nome de Monge Genshô e ensina como ''conciliar a prática espiritual com uma atuação ética no mundo corporativo''.

Em direção radicalmente oposta está Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro (Bope). Sua palestra baseada no filme Tropa de Elite já é um dos maiores hits do momento. Storani compara missões de combate ao crime com metas comerciais e incita a audiência a repetir gritos de guerra. E se alguém não gostar, que peça para sair.

por OMAR GODOY
com fotos de divulgação
maio de 2008

DEUSES DO AMOR

Cresce a procura por cursos
de artes sensuais para homens

Carlos Kadosh, ‘‘orientador sexual’’: aulas de pompoarismo masculino

Andreia e Fernanda, sócias da escola Joanah Pink


Há oito anos, o professor de História Carlos Oliveira teve um encontro que mudou sua vida para sempre. Durante um curso de Memorização, ele conheceu Celine Imaguire, 14 anos mais velha e especialista numa área no mínimo peculiar: o mundo das artes sensuais.

Carlos, um fã da literatura erótica, logo se afinou com Celine, instrutora do curso Deusa do Amor, sobre auto-estima e sensualidade para mulheres. A ‘‘ementa’’? Sexo tântrico, Kama Sutra, massagens, hiperorgasmo, pompoarismo, dicas de sedução...

Não demorou muito e o professor virou uma espécie de modelo das aulas, ajudando a ilustrar as posições ensinadas pela namorada. O passo seguinte não poderia ser outro – criar um curso semelhante, porém voltado para homens.

Após fazer uma pós-graduação em Orientação Sexual numa faculdade de São Paulo, Carlos se viu apto para seguir o caminho de Celine. Antes, porém, trocou o sobrenome Oliveira por Kadosh (‘‘sagrado’’ em hebreu), ‘‘para não ficar tão comum’’. Hoje, aos 34 anos, ele percorre o país ajudando alunos a se aperfeiçoar sexualmente.

Cursos de artes sensuais não são uma novidade entre as mulheres. Vira e mexe o tema volta à baila, como aconteceu com o recente fenômeno da ‘‘dança do poste’’, impulsionado pela novela Duas Caras. Mas aulas exclusivas para homens ainda são pouco conhecidas e divulgadas.

Kadosh conta que conseguiu formar apenas quatro turmas nos últimos oito anos. Seus alunos preferem ser atendidos individualmente, para evitar constrangimentos e sanar dúvidas específicas.

E se engana quem pensa que o perfil do público se baseia em homens com dificuldades sexuais. Quem o procura está feliz com seu desempenho na cama, porém quer turbiná-lo. ‘‘Sou um orientador, não um terapeuta. Não prometo curas’’, faz questão de deixar claro.

Ao contrário das mulheres que se matriculam na Deusa do Amor, os alunos de Kadosh não querem aprender a seduzir ou criar climas eróticos. Em 90% dos casos, o negócio deles é explorar o pompoarismo masculino – um conjunto de técnicas e exercícios voltados para a contração dos músculos eretores do pênis.

‘‘A média da ereção no Ocidente é de 90 graus. Com esses exercícios, de origem oriental, é possível chegar a 120 graus, na altura do umbigo’’, explica, com uma caneta na mão, o ‘‘orientador’’.

Mas nem tudo se resolve com o pompoarismo. Para Kadosh, o problema dos homens é não se colocar racionalmente durante a relação sexual. ‘‘O sujeito pode até ser romântico na hora das preliminares. Só que, no ato em si, ele age de forma primitiva e acaba com tudo muito rápido. Isso é uma armadilha da natureza, para a gente se multiplicar’’.

Kadosh é adepto do tantrismo, cujos ensinamentos dão conta de que é possível alcançar saúde, prosperidade e longevidade pela via do sexo. O segredo, segundo ele, está na transmutação do vigor sexual em outros tipos de energia. Para isso, é preciso ser mais cerebral e menos impulsivo na hora H.

Outros fatores que comprometem a performance na cama são a má alimentação, o tabagismo e o alcoolismo. ‘‘Como bacias de frutas todos os dias. Nos palácios dos sultões, há frutas por todos os lados. Elas têm energia vital’’, diz o professor.

Quanto aos exercícios físicos, melhor tomar cuidado. ‘‘Não recomendo a bicicleta, pois puxa a musculatura para baixo. O ideal é pular corda’’, afirma.

Juntos, Carlos Kadosh e Celine Imaguire comandam uma espécie de holding erótica. Além das aulas (no valor de R$ 60 por hora), editam livros sobre sexualidade e mantêm um laboratório de produtos naturais. Nada mal para quem lecionava em um curso supletivo para funcionários dos Correios.

Ainda assim, ele continua ajudando a mulher nas aulas para as turmas femininas. Sem a menor cerimônia, passa horas de roupão ou sunga diante de dezenas de alunas. ‘‘Não tenho o menor problema com isso. Para falar a verdade, é o que mais gosto de fazer’’, confessa o dublê de instrutor e modelo.

Se existe mesmo a tão discutida crise do macho contemporâneo, ela, definitivamente, não passa por ali.

PAI, MÃE E FILHO

''O pessoal acha que é só sacanagem, mas o que eu aprendi nas aulas funciona mesmo'', garante Roberto (nome fictício), 51 anos, ex-aluno do professor Carlos Kadosh.

Em 2004, o comerciante e a mulher fizeram, separados, os cursos de Kadosh e Celine Imaguire. Gostaram tanto que, meses depois, matricularam-se em uma aula de grupo. E levaram o filho junto. ''Na época, ele tinha 18 anos. Aprendeu tudo o que eu gostaria de ter aprendido quando era jovem e não tive oportunidade'', diz.

Roberto ainda conta que, após as palestras, continuou fazendo os exercícios de pompoarismo recomendados pelo instrutor. Hoje, considera-se um homem ''multiorgasmático''. ''Mas não adianta nada se apenas um dos parceiros aprender as técnicas'', adverte.

Paulo, 37, é um calouro nas artes sensuais. Teve aulas com Kadosh há apenas duas semanas, porém está animado para colocar as lições em prática. Ele confessa que enfrenta um momento atribulado no casamento, e por isso resolveu procurar apoio.

''Os homens acreditam que já nasceram sabendo de tudo. Mas sempre é possível melhorar, e acho que estou no caminho'', afirma.

''A SOMBRA DO RICARDÃO''

Carlos Kadosh também atua, como palestrante convidado, na escola Joanah Pink, no bairro Bom Retiro. Trata-se de um ''Centro Integrado da Mulher'' que oferece, entre outros serviços, workshops de iniciação às artes sensuais. Inicialmente voltado para o público feminino, o espaço tem sido cada vez mais procurado por homens.

São três cursos direcionados para eles: Do que Elas Gostam, Como Enlouquecer uma Mulher na Cama e MBA - Muito Bom no Assunto. Este último, mais completo, ensina desde técnicas para beijar melhor a exercícios de pompoarismo masculino.

''Criamos todo um clima para quebrar a resistência dos homens'', diz Andreia Berté, sócia e palestrante do centro. Ela conta que até a decoração do lugar é mudada para receber os alunos. ''Montamos um bar aqui dentro, onde eles são recebidos com cerveja e aperitivos. Além disso, toda a equipe se veste com roupas masculinas''.

A maioria procura os cursos por sugestão das parceiras, que já ''estudaram'' na escola e também querem ser agradadas na cama. Superada a desconfiança inicial, os marmanjos se soltam e tiram todas as dúvidas possíveis. ''Eles perguntam tudo, até onde fica 'o tal do clitóris''', diz Andreia.

Ela e sua sócia, Fernanda Pauliv, são publicitárias e trabalhavam na mesma agência antes de criar o centro, há seis anos. Desde então, não param de ver a clientela crescer.

''Acho que as mulheres se perderam quando começaram a disputar vagas no mercado de trabalho. Dedicaram-se mais à vida profissional e deixaram os maridos um pouco de lado. Agora, tentam resgatar sua feminilidade, sua delicadeza'', afirma Andreia.

Mas e os homens? Por que precisam desse tipo de aula? ''Eles estão vendo suas mulheres aprenderem tantas coisas novas que não querem ficar para trás. É a sombra do Ricardão'', brinca.

Deusa do Amor
Joanah Pink

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA (Kadosh)
e material de divulgação (sócias)
agosto de 2008

DOMINGO SOMÁTICO

Terapia corporal que foi moda
nos anos 70 e 80 ainda atrai interessados

Marcelo Leal, terapeuta: ‘‘Ideologia autoritária a respeito do corpo’’

Oficina promove desbloqueio das ‘‘couraças emocionais’’


''Já participei de oficinas de Soma para mais de cem pessoas'', lembra o somaterapeuta Marcelo Leal, 42 anos. A Somaterapia, ou simplesmente Soma, foi moda no Brasil entre o fim dos anos 70 e o início dos 90, quando seu criador, o psiquiatra e escritor Roberto Freire, emplacava um best-seller depois do outro. São dele livros como Cleo e Daniel, Ame e Dê Vexame e Sem Tesão Não Há Solução, considerados libertários por toda uma geração de leitores.

Nos últimos tempos, porém, a Soma saiu um pouco de cena. Novas terapias alternativas surgiram com força total, e a produção literária de Freire foi diminuindo até sua morte, em maio deste ano. Por outro lado, o interesse do meio acadêmico por suas idéias tem crescido, inclusive fora do país - há grupos de somaterapia em Londres, Lisboa, Barcelona e Madrid.

A reportagem da FOLHA acompanhou uma oficina de demonstração ''somática'' realizada no domingo, em Curitiba, e comprovou que o legado de Bigode (como Freire era chamado pelos amigos) continua vivo. Era o segundo dia do encontro, quando os dez participantes, já devidamente apresentados, praticaram alguns dos exercícios mais básicos do processo terapêutico.

Surgida em meio à ditadura militar, período em que Freire se dedicou à militância política, a Soma é uma terapia corporal, em grupo e de fundo anarquista. Suas bases teóricas vêm principalmente das pesquisas de Wilhelm Reich (1897-1957), discípulo dissidente de Freud cuja principal tese dava conta de que os problemas emocionais são causados pela repressão sexual.

Reich acreditava que a moral familiar e religiosa é um instrumento de dominação e manutenção do poder. Reprimido, o organismo humano desenvolve ''couraças'' onde se acumulam as energias geradas pelos mecanismos de defesa. E somente o desbloqueio dessas tensões é capaz de libertar as pessoas de suas dificuldades. Para isso, é preciso tirar o paciente do divã e colocá-lo de pé e em movimento.

Na Somaterapia, essa prática se dá por meio de elementos retirados do teatro e, acima de tudo, da capoeira. ''A ludicidade da capoeira possibilita uma autonomia maior do corpo'', diz Marcelo Leal logo no início do encontro, realizado em uma academia de dança no bairro do Juvevê. Em seguida, ele inicia uma série de exercícios voltados, entre outras coisas, para a perda do medo da exposição e do ridículo.

Ao longo da tarde, o somaterapeuta lança no ar uma série de conceitos ''libertários'': ''O poder já está introjetado na gente'', ''Existe toda uma ideologia autoritária a respeito do corpo'', ''Preciso ir atrás das coisas que eu quero'', ''Desde a infância, criamos armaduras para nos defender do meio hostil'', ''Não podemos aceitar as coisas impostas de cima para baixo'', ''Temos de descobrir o que nos dá prazer'', etc.

Formado em Arquitetura, Leal conheceu a Soma na faculdade, por meio de um livro de Roberto Freire. Identificou-se com as idéias do escritor, mas não imaginou que havia outros interessados em Florianópolis, onde estudava. Até encontrar um cartaz divulgando um grupo somático na cidade, ao qual se integrou. Depois de passar três anos como assistente de outros terapeutas (entre eles o próprio Freire), formou-se na área e hoje tem clientes em Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

Ele explica que um grupo de somaterapia dura em torno de um ano e meio. As sessões são mensais e duram 12 horas - no caso de Curitiba, divididas entre o sábado e o domingo. Ao longo do processo, são desenvolvidos cerca de 30 exercícios, 80% deles corporais. O restante do tempo é dedicado à ''leitura'', momento em que os clientes levantam problemas e os discutem coletivamente.

CINCO SENTIDOS

Após conduzir o aquecimento com capoeira, Leal instrui os participantes a fazer o que ele chama de ''exercício dos cinco sentidos''. Para começar, todos devem se observar e elencar os três colegas que considera mais interessantes, por quaisquer motivos. Cada etapa é desenvolvida com uma dessas pessoas, em ordem decrescente de interesse, por assim dizer.

O terapeuta explica que se trata de uma forma de aprender a lidar com a rejeição. ''Se alguém não o escolheu, não é porque não gosta de você. Ele só não quer fazer o exercício com você'', afirma.

Na sequência, os parceiros se sentam no chão, frente a frente, com as pernas praticamente entrelaçadas. Com os rostos quase colados, conversam sobre assuntos aleatórios. Depois, são incentivados a sussurar alguma coisa no ouvido do colega. É a fase auditiva do trabalho.

Na etapa visual, deita-se com a cabeça no colo do outro. A tarefa consiste em observar a face do colega. Ou melhor, fazer um mapeamento afetivo do rosto, como diz Leal. ''Lembre que você não está olhando para qualquer lugar. Vocês são dois corpos, dois somas humanos'', reforça.

Na mesma posição também é feito o mapeamento tátil da face do parceiro. Mais uma vez, o terapeuta interfere: ''É um companheiro de trabalho, e não um boneco, que está na sua frente. Não faça massagem, nem carinho. Apenas toque''. Como se trata de uma demonstração, o exercício termina sem as fases olfativa e gustativa. ''Para não cansar o pessoal'', diz Leal.

Por fim, a turma é organizada em novas duplas, que devem se revezar em uma espécie de jogo de confiança. A idéia é que um sirva de guia para o outro, que, de olhos fechados, fará um passeio de 10 minutos do lado de fora da academia.

Encerrada a parte corporal do encontro, é hora da ''leitura'', da troca de impressões. E quando alguém se refere a um colega na terceira pessoa, o terapeuta adverte: ''Fale diretamente, olhando para o outro. Seja direto e franco''. A idéia, segundo Leal, é romper com os pactos de mediocridade estabelecidos no dia-a-dia.

Ele conclui a oficina convidando os presentes a integrar o próximo grupo curitibano de Soma. Descreve minuciosamente os detalhes do processo e marca para novembro uma segunda reunião, em que espera a adesão definitiva das pessoas - e de novos interessados.

Também aproveita para rebater alguns pontos polêmicos sobre a terapia levantados pela reportagem.''O valor mensal (R$ 180,00) não cobre apenas a minha remuneração. Ainda tenho de pagar o aluguel do espaço, passagens e hospedagem'', esclarece.

Quanto ao estigma de que na somaterapria ''todo mundo transa com todo mundo'', ele brinca: ''Se rolar um bacanal, me convidem, porque eu nunca participei de nenhum''.

No dia seguinte, por telefone, duas participantes falaram sobre a experiência. Para a estudante de Artes Cênicas Marina Nucci, 22, a Soma pode ajudá-la a ''se descobrir melhor''. Ela fez a oficina acompanhada do namorado e colega de faculdade Iury, 18, e diz que ambos pretendem integrar o grupo em vias de formação.

''Faço terapia tradicional e acho que esse trabalho com o corpo pode me acrescentar muito'', afirma a atriz, que conheceu as idéias de Freire a partir de textos indicados por professores.

A arquiteta Annamaria Pires, 55, ficou sabendo do encontro pela internet e se inscreveu junto com a irmã, a engenheira Elizabeth. As duas também pensam em seguir com o grupo. ''Me interessei por essa visão integrada do corpo, do psicológico e do social'', diz.

Ela acredita que, na Soma, poderá dissolver suas ''couraças''. ''Minha proposta é fazer um tipo de 'saneamento básico' consciente em mim mesmo'', diverte-se.

''COMO NÃO SER UM IDIOTA''

A reportagem ainda conversou com dois ex-integrantes de grupos somáticos. Um deles, o artista plástico Lauro Borges, 45, tem planos de se tornar terapeuta. Para isso, atua como assistente de Marcelo Leal em suas atividades na cidade. ''O primeiro passo é refazer toda a terapia'', explica Lauro, que participou de uma das primeiras turmas de Curitiba.

Interessado por filosofias orientais, artes marciais e bioenergética, Lauro conheceu a obra literária de Roberto Freire por meio de uma amiga. Acabou se aproximando do escritor e virando um representante da somaterapia por aqui. ''Hoje eu sei qual é o meu programa neurótico e como não ser um idiota. Porque o caráter não se arranca, a gente apenas aprende a lidar com ele'', afirma.

Integrante do último grupo formado em Curitiba, encerrado em maio, a atriz e artista visual Giorgia Conceição confessa que superou os próprios preconceitos para ingressar na terapia. ''Na minha cabeça, a Soma era uma coisa datada, de bicho-grilo. Mas aos poucos fui descobrindo que ela é atual, está sempre se renovando com as pesquisas feitas pelo terapeutas'', diz.

Giorgia também conta que a somaterapia a fez perder o medo de investir na carreira artística. ''A Soma mostra que você pode ter um estilo de vida diferente mesmo em uma sociedade que não está tão aberta assim''.

O CONTRÁRIO DA MORTE

Somaterapia à parte, Roberto Freire (1927-2008) é um dos símbolos da contracultura no Brasil. Ousado, polêmico e radical, levou uma vida intensa tanto no plano intelectual quanto no pessoal. Formado em Medicina, com especialização em Psiquiatria, clinicou em São Paulo até descobrir o teatro.

Atuou como dramaturgo, roteirista de TV, cineasta, jurado de festivais de MPB e jornalista (venceu o Prêmio Esso de Reportagem quando trabalhou na revista Realidade e colaboração na fundação da Caros Amigos). Em paralelo, militou na organização clandestina Ação Popular. Foi preso e torturado. Ainda assim, detestava as patrulhas ideológicas de esquerda.

Com inúmeros problemas de saúde, Freire se retirou de cena em meados da década passada. Passou os últimos anos esquecido e internado num asilo, em contato apenas com os filhos e amigos próximos. Frasista nato, deixa uma série de pensamentos antológicos. Entre eles o que resume sua trajetória: ''É o amor, e não a vida, o contrário da morte''.


por OMAR GODOY
com fotos de MAURO FRASSON
outubro de 2008

FALAR NÃO É FÁCIL

Mercado competitivo faz aumentar
a procura por cursos de oratória


Aula de oratória no Senac: alunos em busca de crescimento profissional

Curso da professora Marina Machado: recursos teatrais e audiovisuais


Na Antigüidade, falar bem em público já era uma habilidade considerada importante. Professores como o grego Aristóteles e o romano Quintiliano se aprofundaram no assunto e fundaram as bases da oratória, uma tradição que se estendeu ao longo dos séculos. Ou seja: desde a civilização clássica, sabe-se que a arte da eloqüência não é necessariamente um dom natural. Uma boa retórica depende de estudo e, principalmente, treinamento.

Hoje em dia, o senso comum indica que as aulas de oratória são procuradas por pessoas extremamente tímidas ou políticos dispostos a melhorar sua lábia diante do povão. Nada disso. Em voga novamente, os cursos do gênero recebem cada vez mais alunos, a grande maioria em busca de ascensão profissional. É que o mercado, essa entidade superior e onipresente, tem sido cruel com quem não sabe se expressar direito em público.

A começar pelas entrevistas de emprego, acirradíssimas. Em muitos casos, os processos de recrutamento também incluem as constrangedoras dinâmicas de grupo, que limam logo de cara os menos falantes. Mesmo os já empregados devem ter a língua afiada se quiserem sobreviver nessa selva. Reuniões, apresentações de projetos e concursos internos são uma constante no mundo corporativo – e exigem funcionários afiados no que se convencionou chamar de ‘‘comunicação interpessoal’’.

Diante desse cenário, pode-se afirmar que quem procura um curso de oratória em 2008 é porque perdeu oportunidades. Ou tem medo de perdê-las no futuro. Que o digam os dez alunos matriculados na turma de junho do Senac, em Curitiba. Numa noite gelada de terça-feira, eles largaram suas famílias e o aconchego do lar para assistir à primeira aula, sempre a mais embaraçosa.

Um a um, os alunos se levantam e falam um pouco de si, a partir de um questionário escrito no quadro. Curiosamente, apenas dois ou três se mostram excessivamente travados. O espontâneo Mário César, por exemplo, não esconde a vontade de participar da reportagem. No intervalo, conta que vende carros em uma concessionária e está ali para buscar um ‘‘crescimento em todas áreas’’.

A performance no trabalho, ele revela, poderia ser melhor. ‘‘Quando estou com um ou dois clientes, não há problemas. Mas falo rápido e gaguejo se estou em frente a um grupo maior’’, afirma o vendedor de 35 anos. Mário também enrola a língua na igreja evangélica, em situações que pedem uma palavra de fé perante os outros fiéis. ‘‘Quero poder falar, sem gaguejar, como a vida é bela’’, diz.

A verdade é que o vínculo entre empresas e clientes mudou. ‘‘Relacionamento’’ e ‘‘fidelização’’ são as novas palavras de ordem entre os ‘‘consultores de vendas’’, como agora são chamados os vendedores. Além de convencer os fregueses, eles devem ensiná-los a usar os produtos.

Como o consultor João Carlos Moreira, 40, responsável pela área de pós-venda de uma indústria de alimentos. Seu trabalho consiste em treinar panificadores que utilizam matéria-prima produzida por sua empresa. Mas ele nem sempre consegue se expressar como gostaria.

‘‘Tenho a informação, só que não consigo transmiti-la com clareza’’, confessa Moreira. Com as técnicas aprendidas no curso do Senac, pago pela companhia, o consultor pretende surpreender os clientes. ‘‘Falar sobre pão já é chato. Imagina por duas horas. Meu objetivo é fazer um treinamento diferente, que as pessoas tenham prazer em participar’’, afirma.

Dentro do perfil variado da turma, há quem sequer entrou no mercado. Karin Bittar, 24, recém-formada em Ciências Eqüinas, matriculou-se nas aulas de oratória para encurtar o caminho rumo ao primeiro emprego. Ela conta que fica ruborizada e com ‘‘o coração na goela’’ quando se vê diante de uma platéia. ‘‘Quero fazer uma apresentação sem ter de ficar consultando uma ‘cola’ o tempo todo’’, diz.

Empregados ou não, os alunos passam por um processo de desmistificação da fala. ‘‘Vocês estão muito mais expostos ao público no dia-a-dia do que imaginam’’, provoca a professora Sirley Maciel. ‘‘Contem com quantas pessoas você falam em um dia normal. Todo conhecimento que usaram para falar com uma, poderiam usar para falar com todas, se estivessem reunidas numa sala’’, prossegue. E conclui: ‘‘O que muda é a sensação, a forma como vocês se colocam nessa situação’’.

DESBLOQUEIO

No curso da atriz e diretora Marina Machado, ministrado no teatro que leva seu nome, recursos audiovisuais e de dramaturgia são usados para ''desbloquear'' a classe. Em cima do palco, diante dos colegas e de uma câmera de vídeo, os alunos são instigados pela professora. Falam de si, opinam sobre figuras da política e contam uma história de amor qualquer. Depois, podem assistir à fita em casa, para se analisar.

''Meu curso não é quadrado, porque a vida também não é'', afirma Marina. Para ela, a oratória moderna deve envolver elementos de outras áreas (como a Psicologia e a Programação Neurolingüística) e estimular a criatividade e o senso crítico. ''Tudo para que a pessoa encontre sua própria voz'', diz.

Ainda assim, é importante que o aluno tenha a consciência de que, lá no fundo, a tensão na hora de falar em público sempre vai permanecer. ''Você não perde o medo, mas pode controlá-lo'', garante o piscólogo e professor Flávio Pereira, da escola Cérebro & Comunicação. ''Artistas como a Hebe Camargo, o Jô Soares e a Ivete Sangalo costumam contar em entrevistas que até hoje ficam tensos antes de entrar em cena'', exemplifica.

O segredo do bem dizer, segundo o professor, está na fase anterior à apresentação. E pode ser resumido em três passos: planejar o que vai ser dito, preparar o material e ensaiar bastante.

O assistente comercial Alexandre Augusto, 36, fez o curso de Pereira no início do ano e concorda. ''Valeu a pena para aprender técnicas de como se portar em público. Você revê sua postura, seus gestos e passa a se sentir mais seguro. Mas a inibição continua a mesma'', afirma. Ao contrário do que diz o ditado, falar, definitivamente, não é fácil.

COMO ESCOLHER

Como saber se um curso de oratória é realmente bom? Taí uma pergunta difícil, principalmente em se tratando de uma área que não conta com uma formação específica. ''Tem muita gente que leu um livro e já se acha apto a ensinar'', alerta a professora Marina Machado.

O caminho mais seguro para escolher é buscar referências com algum conhecido. Mas há outros aspectos que devem ser levados em conta, como o currículo do professor e seu reconhecimento no mercado.

A carga horária deve ter, no mínimo, 12 horas. Parte desse tempo deve ser destinado a atividades práticas, como apresentações individuais dos alunos para toda a turma. Apostilas sempre são bem-vindas. E cuidado com cursos muito baratos.

Já a utilização de técnicas de Programação Neurolingüística (PNL), baseadas no autoconhecimento, divide opiniões. Flávio Pereira, especialista em Psicoterapia Cognitiva, é totalmente a favor. ''É importante que o aluno tenha autoconfiança, auto-estima. E diga para si mesmo: 'Eu posso!'''.

Marina, formada no meio teatral, também aprova a PNL. ''Você é aquilo que pensa e faz, não pode ser seu próprio inimigo''.

Sirley Maciel é mais cautelosa. ''Pode até ser positivo. Só tenho medo de quem usa essas técnicas de maneira deturpada, pois vira lavagem cerebral'', diz a professora, formada em Artes Cênicas, com especialização em Psicodrama. ''Como meus conhecimentos sobre o tema não são suficientes, não me sinto respaldada para usá-los nas aulas'', completa.

por OMAR GODOY
com fotos de DIEGO SINGH (Senac)
e MAURO FRASSON (Marina)
julho de 2008

DO CHUVEIRO PARA O MUNDO

Professor desmistifica a voz com
''aulas de canto para desafinados''


Cléia, cantora de uma grupo vocal: Não me achava capaz

A bancária Lúcia: músicas de Michael Jackson e Nikka Costa

Para o professor Paulo Valente, qualquer indivíduo pode desenvolver a voz


Que no peito dos desafinados também bate um coração, todo mundo sabe. Mas isso não libera ninguém a sair cantando por aí. Pelo contrário. Apesar de o homem emitir vocalizações desde a pré-história, qualquer pessoa pensa mil vezes antes de soltar a voz em público.

No imaginário geral, a habilidade de cantar é um dom, um presente divino concedido a meia dúzia de sortudos. Na contramão desse mito, o professor de canto Paulo Valente garante: com exceção dos portadores de alguma patologia, todos os indivíduos podem desenvolver sua voz.

Amazonense radicado há 13 anos em Curitiba, Valente atrai alunos por meio de um chamariz peculiar. Em seus anúncios e folhetos, oferece ''aulas de canto para desafinados''. E, ao contrário do que possa parecer, não são poucos os que driblam a vergonha e o procuram.

Na prática, não existe um conteúdo didático específico para quem desafina. As aulas são iguais para todos, iniciantes ou não. Até porque, ele conta, há uma confusão conceitual sobre o assunto. ''Desafinação é quando você canta um som e alguém não consegue reproduzir. E por não conseguir, a pessoa passa a achar que sua voz é feia.''

Valente ainda diz que, para piorar, certos professores acabam desencorajando os alunos. ''Existe gente que tem uma voz muito interessante, mas que desistiu de cantar por não se encaixar no padrão imposto. Também há casos de vozes agradáveis que se tornaram estranhas depois de passar por aulas.''

Por essas e outras, ele desenvolve uma metodologia baseada justamente na desmistificação do canto. A proposta é ajudar o aluno a descobrir os próprios recursos, respeitando as limitações e aumentando a auto-estima.

De acordo com Valente, nenhum timbre de voz é igual ao outro, como as impressões digitais. No entanto, a grande maioria dos professores atua no sentido de moldar seus pupilos. ''Somos apenas facilitadores, mas há quem se veja como um autor'', diz.

Como não poderia deixar de ser, essa postura crítica trouxe dificuldades para o professor e eventual concertista. Na escola onde se formou bacharel em Canto, Paulo contestou a técnicas ensinadas e bateu de frente com seus mestres.

Valente hoje conta com 20 alunos regulares, que pagam R$ 80 por aula. Os encontros são semanais e ele só aceita novos aprendizes mediante um compromisso: estudar, no mínimo, uma hora por dia.

E se o pupilo tem sérios problemas de auto-estima, o professor ataca de psicologia da educação. ''Ninguém tem a capacidade de dizer se o outro tem talento ou não'', afirma. Taí um bom argumento para trocar o chuveiro pelo palco - nem que seja o do karaokê.

SUCESSO NO KARAOKÊ

A bancária Lúcia França, 41 anos, sempre gostou de cantar. Achava sua voz suave, porém sentia que faltava força. Procurou uma professora de canto e teve aulas por alguns meses. Desistiu por não perceber qualquer tipo de progresso.

Cléia Delicoli, 38, é coordenadora de marketing de uma empresa. Também tinha, lá no íntimo, o desejo de soltar a voz. A convite de um amigo, entrou para um grupo vocal que se apresenta em missas, nos fins de semana. Ainda assim, sentia-se insegura.

As duas são alunas do ''professor dos desafinados'' e estão, literalmente, descobrindo a própria voz. ''Não me achava capaz sequer de ter aulas'', confessa Cléia, que conheceu Valente por indicação de um amigo. Para ela, cantar bem era sinônimo de cantar alto. Estava errada, claro.

Mas o que pegava mesmo era a confiança. Ou melhor, a falta dela. ''O que mais trava, no fim das contas, é não acreditar'', afirma. Hoje, Cléia se diz mais à vontade para cantar e até gravou um CD com o grupo.

Despretensiosa, Lúcia decidiu procurar Valente após ver um anúncio de suas aulas na televisão. Depois de três meses de encontros semanais, já sente uma evolução. E revela: testou suas novas habilidades num karokê.

Cantou as baladas ''On My Own'' (Nikka Costa) e ''Ben'' (Michael Jackson). Foi aplaudida e elogiada. Mas perdeu uma parceira de cantoria. ''Minha amiga disse que não vai mais cantar comigo, porque minha voz está muito forte'', conta, toda orgulhosa.

por OMAR GODOY
com fotos de DIEGO SINGH
agosto de 2008