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OS URSOS SAEM DA TOCA

Barbados, pesados e maduros,
os "bears" desafiam os estereótipos do mundo gay

Paulo e Henrique, da CWBears: serviços para a comunidade "ursina"

Capa da última edição da revista virtual Ambear, editada em Londrina

Quando descobriu sua preferência sexual, Fabio se viu meio perdido. Afinal, como encontrar numa boate gay alguém barbado, com mais de 100 quilos e acima dos 50 anos? E, caso encontrasse, como não ser confundido com um garoto de programa ou, na melhor das hipóteses, um aproveitador de coroas? Os points GLS, definitivamente, não eram para ele.

Graças à internet, o webdesigner percebeu que não estava sozinho. Seu lugar era junto com os bears (ursos), uma espécie de tribo dentro da tribo, marcada pela negação de certos estereótipos do universo gay. A começar pelo culto à juventude, corpos sarados, roupas de marca, glamour, etc. Para um urso, homem tem que ter cara de homem - e nenhum pingo de afetação.

O vocabulário ''ursino'', como se diz no meio, é variado. Muscle bear é o urso musculoso. Polar bear, o grisalho. Há ainda o lontra, um tipo mais magro. Sem contar os agregados: cub (gordinho de pele lisa), dad (o paizão, que faz a linha protetor) e, é claro, chaser (caçador). Fabio, jovem e com o peso em dia, encaixa-se nesta última categoria.

Surgido nos anos 70, nos Estados Unidos, o movimento explodiu para valer com o advento da web, a exemplo de outras subculturas. A história é sempre a mesma. Os interessados se encontram em fóruns de discussão, trocam informações e, um dia, decidem dar o salto para o mundo real.

No Brasil, os ursos pioneiros começaram a se reunir em São Paulo, onde já existe todo um circuito de sites e badalações. Curitiba é considerada um pólo em franco crescimento, graças a figuras como Fabio, criador do portal Ursos do Paraná, e a dupla Paulo Fernando e Henrique HCA, produtores da festa CWBears.

O evento, surgido há pouco mais de um ano, consolidou de vez a cena local. Costuma atrair entre 100 e 150 pessoas por edição e já foi realizado em boates, chácaras, piscinas e saunas. Tudo muito bem organizado e com divulgação dirigida na internet. ''A ideia não é encher as festas, porque há o risco de descaracterizá-las. Queremos que o público fiel continue se sentindo à vontade'', afirma Henrique, 40, DJ e produtor musical.

Sentir-se à vontade, aliás, é o mais importante num evento ursino. ''Em qual outro lugar um gordinho pode dançar sem camisa e não ser hostilizado?'', questiona Paulo, 45, empresário. ''Quando entra um cara mais velho numa boate gay tradicional, logo vão dizendo que a geriatria chegou'', emenda Henrique, bem-humorado.

Para a dupla, a CWBears fez com que muitos voltassem a sair à noite. E mais: recuperassem uma autoconfiança perdida por conta das exigências, digamos, estéticas do mundo gay. Os produtores, no entanto, garantem que nada disso seria possível se eles não tivessem, literalmente, mostrado a cara. ''Fomos os primeiros aqui a colocar nome, foto e telefone na internet. Isso gerou confiança'', diz Paulo.

Empreendedores, os dois transformaram a CWBears em empresa e agora pretendem montar um bar próprio para a tribo. Outra proposta, eles contam, é incentivar o turismo ursino na cidade, já que muitos bears de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul têm vindo para cá apenas para se divertir nas festas. ''Por que não criar um Bear Weekend em Curitiba, com várias opções de programas?'', sugere o empresário.

Mas os planos ambiciosos não param por aí. O sonho da dupla é formar uma verdadeira rede/comunidade, para que os bears curitibanos consumam produtos e serviços oferecidos por outros ursos.

Se tudo der certo, vai ter muito urso saindo do armário. Ou melhor, da toca.

COMUNICAÇÃO DE PESO
Há quatro anos no ar, a revista virtual AmBear é um dos prin
cipais canais de divulgação da cena ursina brasileira. Traz artigos, dicas, entrevistas e fotos, sempre destacando os ursos mais atuantes do movimento. Muita gente do próprio meio não sabe, mas o informativo é produzido a partir de Londrina, onde o editor Ham vive com seu companheiro.

Ham ("presunto" em português) é um cub de 28 anos que trabalha numa agência de propaganda. Nas horas vagas, edita a revista e presta consultoria em comunicação visual para outros grupos ursinos. Começou a Ambear como uma brincadeira, criando apenas capas com manchetes fictícias. Com o tempo, o projeto tomou corpo e hoje acumula 222 edições disponibilizadas na rede.

O editor lembra que descobriu o mundo dos ursos em 2000, por meio do reality show Vinte e Poucos Anos, da MTV. Um dos participantes era gay assumido e atuava na comunidade Ursos de São Paulo, uma das primeiras do gênero no país. "Até então eu não me considerava gay, pois não me sentia bem junto com os outros gays", conta.

Por essas e outras, ele afirma que a meta da AmBear é apresentar o movimento aos gordinhos que não o conhecem - e que talvez sofram por se sentirem isolados. "A cena cresceu muito aqui no Brasil. Mas ainda é tímida, porque a maioria dos ursos não gosta de aparecer", diz.

O próprio Ham prefere se manter anônimo, pois não se assumiu para a família, que é toda de Londrina. A cidade, aliás, tem uma cena "mais virtual do que real", como ele mesmo define. Ainda assim, ele considera o movimento paranaense um dos melhores do Brasil. "São os mais belos homens gordinhos da terrinha tupiniquim", empolga-se.


por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
e imagem de divulgação
abril de 2009

QUE TAL UM PIT STOP?

Alternativo ao motel, o modelo de serv-car
se expande pelos bairros da cidade

Carro estacionado num serv-car: discrição é a alma do negócio

Atire a primeira pedra quem nunca namorou numa lanchonete drive-in. Ou melhor: num serv-car, como esse tipo de espaço é chamado em Curitiba - e apenas em Curitiba.

Ok, talvez não seja o seu caso. Mas alguém próximo certamente já desfrutou os prazeres da vida, com privacidade, dentro de um carro. Se você ainda não deu o braço a torcer, saiba que essa é uma atividade lucrativa, que começou há mais de 20 anos nos bairros centrais e hoje se expande pelos periféricos.

Há quem diga que já são mais de 30 serv-cars espalhados por Curitiba. Dos mais tradicionais, em terrenos arborizados, aos chamados boxes, isolados por lonas. Alguns destes últimos contam até com interfones para chamar os garçons. Tudo em nome da discrição, a alma desse negócio.

É tanta discrição que nenhum dos proprietários procurados pela reportagem quis se identificar. E foram poucos os que se dispuseram a falar. Como Antônio (nome fictício), dono de dois serv-cars administrados por ele e a família. Um próximo ao centro e outro no hauer, onde fomos recebidos.

A fachada é de uma lanchonete comum, com balcão e móveis de plástico. O estacionamento fica atrás, com 10 vagas individuais separadas por paredes. Em vez de portões de metal, como nos motéis, lonas de caminhão protegem os carros dos olhares alheios. Com o calor que anda fazendo, parecem verdadeiros fornos.

A mulher de Antônio e duas funcionárias tomam conta do lugar, servindo sanduíches, porções e bebidas. A regra número um, ele explica, é jamais encarar o cliente diretamente. Mesmo assim, o empresário acredita que o grande atrativo dos drive-ins não é a privacidade, e sim a segurança. "Hoje em dia, você não pode ficar cinco minutos parado com o carro na rua que alguém te assalta".

O preço também conta na hora de decidir pelo serv-car. Nas lanchonetes de Antônio, por exemplo, é cobrada uma taxa de R$ 10 de consumação. "Quanto maior a crise, melhor para o nosso ramo. Quem precisa de um lugar para namorar, e não tem condições de pagar um motel, acaba vindo para cá", afirma.

Se é difícil arrancar informações básicas dos donos, imagine dados sobre o faturamento. Não custa especular. Levando-se em conta que o movimento médio de carros bate na casa dos 30 por dia, dá para chutar que os 30 drive-ins curitibanos recebem cerca de 900 veículos diariamente.

Um chute alto, talvez, mas que fornece pistas sobre a lucratividade do setor. Seja como for, é possível dizer que quase 2 mil pessoas (pois ninguém vai num lugar desses sozinho) frequentam todos os dias os serv-cars da cidade.

LANCHINHO EXECUTIVO

A maioria das lanchonetes funciona das 10 horas à uma da manhã e cobra entre R$ 10 e R$ 12 de consumação. O "almoço executivo" e a saída das aulas noturnas são os momentos de pico. No fim de semana, o movimento é ainda mais intenso.

No Capão Raso, próximo a uma faculdade, um drive-in chama a atenção por conta dos já citados interfones. Mas o luxo para por aí. Trata-se de um lugar escuro e apertado, onde apenas um funcionário cuida de tudo.

Paulo (outro nome fictício) frita porções congeladas, bate polpas de frutas no liquidificador, serve os clientes e acerta a conta. Ainda assim, o faz-tudo se considera apenas um garçom, que trabalha num misto de "lanchonete com motel", como ele mesmo define.

Há um ano e meio no ramo, Paulo já trabalhou em outro serv-car, no Capão da Imbuia. Diz que nunca viu nada de anormal em suas jornadas noturnas, a não ser uma cliente excessivamente ruidosa. "A mulher fazia tanto barulho que eu até sabia que era ela que estava no carro", lembra.

Histórias como essa - e muitas outras impublicáveis - acontecem todos os dias. Antônio, inclusive, pretende escrever um livro de "causos" quando se aposentar. Um de seus preferidos dá conta de duas mulheres que resolveram fazer um lanchinho no meio da tarde. Foram seguidas pelo marido de uma delas, que queria invadir o box a qualquer custo.

O empresário conseguiu segurar o homem e foi chamá-las. Eram patroa e empregada, e estavam completamente nuas no automóvel. Mas não é que a esposa conseguiu virar o jogo?

"Ela saiu furiosa do carro, apontando o dedo na cara do sujeito. Disse que estava fazendo um acerto de cheques com a funcionária, pois na empresa não era seguro", conta. Resumo da ópera: o marido, arrependido, abraçou a mulher e pediu desculpas a todos. Tolinho...

Casos de violência, no entanto, são raros. Pelo menos é o que dizem os proprietários. "Só me lembro de um, presenciado pela minha filha", garante Antônio.

De acordo com ele, a confusão começou quando, por algum motivo, um travesti e seu cliente começaram a se agredir na saída do drive-in. Quando um automóvel se aproximou, o transformista fingiu ser mulher e pediu socorro, aos berros, alegando que estava grávida. "Então, uns caras desceram do carro e começaram a bater no sujeito. Mas quem mandou sair com traveco?", conclui.

Algumas passagens do gênero já viraram verdadeiras lendas urbanas. Como a da árvore que tombou sobre um carro no Verde Batel, um dos mais tradicionais serv-cars da cidade (leia mais no quadro ao lado).

"Aconteceu realmente. Pedimos autorização à prefeitura para cortar um cedro que estava quase caindo. Não conseguimos e, durante um temporal, a árvore caiu mesmo, em cima de uma brasília. O dono do carro, que estava com a amante, ficou desesperado. O que ele iria dizer em casa?", diverte-se o proprietário, Roberto (mais um pseudônimo).

Mas, afinal, como surgiu o nome serv-car, tão curitibano? Segundo Roberto, o termo foi criado por ele, para diferenciar sua lanchonete dos drive-ins que exibiam filmes. Antônio, por sua vez, não sabe dizer quem inventou, apenas a "etimologia". "Drive-in vem do inglês, enquanto serv-car é português", explica, sem mistérios.

TRADIÇÃO CURITIBANA

A história do Verde Batel remonta a uma época mais ingênua. Em 1983, quando foi inaugurado, a Avenida do Batel era o "point" da juventude curitibana. E o surgimento de um drive-in bem no meio dessa movimentação mudou os hábitos dos casais de namorados.

Uma lanchonete, no Capanema já servia lanches no carro à noite. Mas não havia privacidade para se namorar, lembra Roberto, um engenheiro que abriu o serv-car em sociedade com o irmão, então recém-chegado de uma temporada num garimpo do Pará.

Apesar da boa localização, o lugar só pegou para valer graças a uma parceria com uma emissora de rádio, que buscava um público mais jovem. "Para você ter uma ideia, a programação do domingo à tarde era transmitida ao vivo do Verde Batel", conta.

Quando o dono de uma churrascaria fez uma oferta melhor para os proprietários do terreno, o drive-in foi obrigado a se mudar. Sua última parada foi o bairro das Mercês, onde funciona há nove anos. Ali, um terreno de 3.600 metros quadrados oferece capacidade para receber 90 carros - no esquema tradicional, sem boxes ou lonas.

"Preferimos deixar assim. Nosso conceito é mais de namoro, de romance. Senão vira motel, e aí podemos ter problemas com a saúde pública e a polícia", diz o empresário. O que explica, talvez, o receio de outros proprietários em se identificar. De qualquer forma, existe uma licença da prefeitura específica para os serv-cars.

Para Roberto, espaços centrais e em grandes áreas, como o do Verde Batel, estão em vias de extinção por conta do boom imobiliário. "Onde você vai encontrar um lugar como esse, a um preço acessível, hoje em dia? É por isso que o negócio está crescendo na periferia", afirma o engenheiro, dono de outro drive-in, não muito longe dali.

por OMAR GODOY
com foto de MARCOS BORGES
março de 2009

A VIDA SECRETA DOS "COLORIDOS"

Casais liberais contam por que
Curitiba é referência no circuito do swing



Capital disso e daquilo, Curitiba também é considerada referência nacional de um estilo de vida alternativo e invisível: o swing. São três casas noturnas para casais liberais na cidade, que, juntas, atraem cerca de mil pessoas todas as semanas. Muitas delas vêm do interior e de estados vizinhos, e não são raros os grupos que organizam excursões para se divertir por estas bandas.

O segredo por trás dessa fama, quem diria, está nas características mais combatidas do temperamento dos curitibanos. Discretos e formais, os casais locais atraem os ''estrangeiros'' justamente por sua, digamos, serenidade. ''Isso ajuda muito, porque o pessoal de fora sabe que não vai se incomodar depois. O que acontece na casa, fica na casa'', afirmam Ronaldo e Cris, mais conhecidos como Kasal 6969. Eles se encontraram com a reportagem da FOLHA na praça de alimentação de um shopping center.

Swingers, ou ''swingueiros'', há cinco anos, os dois exercem uma espécie de liderança no clube liberal mais conhecido e badalado da cidade - o Desiree, em Santa Felicidade. Simpáticos e bons de papo, tratam do assunto com a naturalidade de quem comenta um hobby qualquer. Não à toa, mantêm contato frequente com outros cem casais, experientes ou não. Uma turma animada em todos os sentidos, que costuma se reunir para festas, churrascos, viagens e até aniversários de crianças.

''A vida muda depois do swing. A nossa rotina era trabalhar, ver novela e dormir. Agora temos uma programação social intensa, com atividade o tempo todo'', diz Ronaldo, 39 anos, que pesava mais de 100 quilos antes de frequentar o clube. Hoje, obriga-se a estar em forma, para não fazer feio entre os swingers.

Para Cris, que tem a mesma idade, as amizades surgidas nesse meio são mais sinceras e menos interesseiras. Aliás, os casais liberais dividem as pessoas em dois grupos: ''colorido'' e ''preto e branco''. ''Com os coloridos a gente pode conversar sobre tudo. Já com os preto e branco (sic) é diferente. É aquele relacionamento frio, de vizinho'', explica.

O Kasal 6969 está junto há 20 anos e não tem filhos (uma exceção em seu círculo de convivência). Livres das obrigações familiares, costumam buscar parceiros também na internet. Ou melhor: parceiras, pois Cris é assumidamente bissexual. A troca de casais propriamente dita, ela afirma, acontece em situações especiais.

O ''bi feminino'', como dizem os praticantes, é uma espécie de porta de entrada para o mundo do swing. Cris, por exemplo, revela que teve inúmeras relações com mulheres antes de se envolver com homens. ''Levou dois anos para isso acontecer'', lembra.

O mesmo vale para Mi, 25, casada com Jef, 27. Em uma conversa a três, pelo viva-voz do telefone celular, ela conta que o marido era muito ciumento. Por isso, as primeiras visitas ao clube serviam apenas para apimentar o relacionamento. Os dois dançavam, olhavam os outros casais em ação e voltavam para casa inspirados. ''Conhecemos o Desiree por curiosidade, levados pela minha irmã e o namorado dela. E nunca mais saímos de lá'', diz.

A exemplo do Kasal 6969, Mi e Jef preferem se identificar como ''profissionais liberais'' (um termo bastante vago, convenhamos). Mas, no geral, os swingers curitibanos são pessoas de classe média ''realmente média''. ''A maioria dos nossos conhecidos mora entre o Portão e o Boqueirão'', afirma Ronaldo.

O swing, definitivamente, não é para os mais pobres. Além das noitadas nos clubes (que não são baratas), há uma série de gastos com eventos e viagens. ''Conheço um casal de Santa Maria (RS) que está sempre por aqui. Eles poderiam ir às casas de Porto Alegre e Camboriú, só que preferem o pessoal de Curitiba'', conta Mi. Cris também cita amigos de Joinville, São Paulo e Brasília que vira e mexe aparecem na cidade.

Questionados se o swing vicia, os casais afirmam que conseguiriam retomar a rotina ''preto e branca'' sem maiores problemas. E garantem: sentiriam mais falta das amizades e da adrenalina envolvida do que do sexo em si. ''A vida ficaria muito chata'', admite Ronaldo. Cris, por sua vez, acredita que um dia vai se cansar de tanto agito. ''Acho que, no futuro, vamos continuar sendo amigos de todo esse pessoal. Mas só para se reunir e lembrar de nossas histórias''.

O FIM DO CIÚME?

Pode parecer contraditório. Mas para o mundo liberal do swing funcionar, é preciso respeitar um certo código de ética. A começar por uma das máximas do meio: ‘‘Não cobice a mulher do próximo a não ser que o próximo esteja muito próximo’’.

Trocando em míudos, é importante que todos os envolvidos estejam cientes da situação. Daí que, para os swingers, os parceiros só se traem quando não há o consentimento mútuo. ‘‘Swing sim, traição não’’ é outro lema dos praticantes, que juram de pés juntos que sempre usam preservativos.

Ter um casamento estável e sólido também está entre os requisitos básicos. ‘‘O swing não é uma tábua de salvação para a relação. Pelo contrário. O casal que está mal normalmente acaba se separando depois de experimentar a troca’’, afirma Camargo, dono do Desiree Club.

E o mais importante: separar sexo e sentimento. ‘‘Minha mulher pode transar com um cara a noite inteira. Se, no final, ela deitar no colo dele e fizer carinho no rosto, o pau vai quebrar’’, diz o empresário.

Cenas de cíume existem, porém são raras e facilmente contornadas. O caso recente do homem assassinado por um marido transtornado, durante uma sessão de swing em Campo Grande, é uma trágica exceção que confirma a regra. ‘‘Eles provavelmente eram inexperientes. Os iniciantes querem ir direto ao ponto, não entendem que é legal conversar com as pessoas, conhecer o meio’’, opina Ronaldo, do Kasal 6969.

Cientista social e mestrando em Antropologia na UFPR, Valtemar Sartorelhi é autor de uma dissertação sobre o universo swinger. Intitulado ‘‘Corpo, Sexualidade e Gênero: Troca de Casais no Cyberespaço’’, o trabalho investiga a busca de parceiros pela internet e discute o conceito de ‘‘trocas simbólicas’’.

‘‘No swing, o que se troca é o corpo do parceiro. Amor e carinho ficam de fora da negociação’’, afirma Sartorelhi. De acordo com ele, há uma confusão entre a troca de casais e o chamado relacionamento aberto. ‘‘São duas coisas diferentes. O casal swinger está junto o tempo todo, ao contrário de quem pratica o relacionamento aberto’’.

Para Sartorelhi, a internet é a responsável pelo boom do swing mundo afora, e não apenas por sua amplitude e caráter agregador. Ao garantir o anonimato, a rede possibilita que os casais experimentem aos poucos o estilo de vida liberal. Em sua pesquisa, o sociólogo identificou uma série de etapas nesse processo, que começa com a fantasia individualizada de um dos parceiros.

O passo seguinte é dividir a fantasia com outro. Depois, vem a fase de imaginar a participação de terceiros durante a relação. Até que a internet entra no jogo, por meio da navegação em sites especializados e do contato via MSN e Orkut (há incontáveis comunidades para swingers no portal de relacionamentos). Encontros são marcados e, se houver ‘‘química’’ entre os casais, a troca pode acontecer – normalmente em outra data.

Ao contrário de outros acadêmicos que se dedicam ao tema, Sartorelhi não acredita que a popularização do swing é fruto da emancipação sexual da mulher. Segundo ele, a troca de casais traz um forte componente machista, travestido de igualdade de direitos. ‘‘Os swingers costumam dizer que as mulheres definem as regras do jogo e controlam tudo. Mas basta analisar os anúncios de casais na internet para constatar que o corpo feminino é usado como objeto dessa propaganda’’, afirma.

A maioria dos anúncios, publicados em portais dedicados exclusivamente ao swing, apresenta somente fotos da mulher. E mesmo os textos priorizam a descrição física e as preferências da parceira. ‘‘Isso faz parte da lógica machista da sociedade, não é uma característica exclusiva do swing’’, completa Sartorelhi.

Os casais, obviamente, discordam. ‘‘Não acho o swing machista nem feminista. A feminilidade é só um cartão de visita, pois a mulher é mais sensual’’, diz Mi, casada com Jef. ‘‘Homem nunca é bonito’’, ironiza Cris, a outra metade do Kasal 6969.

Mas por que apenas o bissexualismo feminino é incentivado? ‘‘O bi masculino não tem muita aceitação. Os clubes inclusive proíbem as relações homossexuais’’, afirma Ronaldo. Ele ainda conta que os homens com esse tipo de tendência raramente se revelam. E quando o fazem, costumam formar turmas separadas. ‘‘Nada contra, só não tenho a mínima vontade de experimentar’’, enfatiza.

"AMOR EU DOU EM CASA"

O ménage à trois, ou simplesmente ménage, é uma constante no mundo do swing. A prática é tão popular que os clubes do gênero permitem, pelo menos uma vez por semana, a entrada de mulheres e homens solteiros. São os chamados ‘‘avulsos’’.

O sexo entre um homem e duas mulheres é bastante comum no meio. Mas há quem prefira inverter os papéis. Como Rodrigo, que revela ter dividido a mulher com mais de 100 avulsos nos últimos dez anos. ‘‘Ela é extremamente ciumenta, nunca deixaria eu ficar com outra’’, diz, por telefone.

O marido, que não é bissexual, admite se excitar com esse tipo de relação. Também conta que, às vezes, a esposa transa com mais de um homem na mesma noite. Ela, no entanto, não quis falar com a reportagem.

O casal tem uma filha e está junto há 13 anos. Ele tem 42 e trabalha com vendas. Ela completou 30 e cuida da casa. Freqüentam o clube Liberty House, mas ficam ‘‘ligados no swing’’, como diz Rodrigo, mesmo quando não estão na casa. ‘‘Você passa a agir de maneira diferente. Vai a uma balada normal e observa as pessoas, conversa, troca telefone para se encontrar depois’’, afirma.

Para ele, a sociedade têm uma visão errada do ‘‘movimento’’. ‘‘As pessoas pensam que a gente chega lá, tira a roupa e sai transando. Não sabem que há toda uma socialização’’. ‘‘O clube é como uma danceteria normal, só que depois de certo horário rolam umas brincadeiras para quebrar o gelo’’, acrescenta.

Como todo swinger, Rodrigo também tem o próprio código de regras, para evitar que os avulsos passem dos limites. E quais são esses limites? ‘‘É o cara achar que a mulher é dele’’, explica. Beijar na boca, por exemplo, está terminantemente proibido. ‘‘Isso é muito pessoal. Amor eu dou em casa’’, justifica.

PRAZER E NEGÓCIOS

Seria injusto afirmar que Curitiba é uma das capitais brasileiras do swing (ao lado de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Camboriú) apenas porque o comportamento polido dos casais locais atrai os adeptos de outros estados. Muito do sucesso da cidade nesse circuito se deve à casa especializada Desiree Swing Club, criada há 11 anos.

Com estrutura de uma boate convencial, o espaço abre três vezes por semana e recebe cerca de 300 pessoas por noite. A divulgação é feita na base do boca-a-boca e pela internet, em um portal que também hospeda anúncios de casais associados.

O dono, que pede para ser identificado como Camargo, é um empresário veterano da noite curitibana. Comandou uma danceteria ‘‘normal’’ e foi um dos primeiros na cidade a promover festas no estilo Clube das Mulheres. Swinger de carteirinha, organizava jantares informais para casais por puro gosto. Mas enquanto os encontros ganhavam novos interessados, sua paciência para os clientes da boate se esgotava. ‘‘Até o dia em que fiquei de saco daquela piazada e resolvi abrir meu próprio clube para casais’’, conta.

Ele afirma que o Desiree cresceu junto com o movimento do swing no Brasil. Inicialmente freqüentada por 30 casais, a casa ganhou tanto público que teve de se mudar para um lugar maior, fora do Centro. Atualmente funciona num casarão construído em uma espécie de chácara, no bairro de Santa Felicidade. Há também uma ‘‘franquia’’ londrinense, que Camargo admite acompanhar somente de longe.

A cidade ainda conta com outros dois clubes, igualmente fundados por swingers: Pepper (no Rebouças) e Liberty House (no Parolin). Este último teve a participação de Camargo em sua criação, mas hoje os dois empresários são inimigos mortais – por motivos que fogem ao objetivo da reportagem.

Para o dono do Desiree, a casa rival não possui boa estrutura e, por cobrar mais barato, atrai ‘‘gente de baixo nível’’. Segundo ele, quem quer ver pessoas jovens e bonitas deve ir ao seu clube. Já o administrador do Liberty, Júnior, sequer considera Camargo um concorrente. ‘‘Não questiono a estrutura e o resultado financeiro do Desiree. Mas aquilo lá virou apenas uma balada liberal para curiosos. A verdadeira essência do swing está aqui’’.

Alheio ao ‘‘debate’’, o proprietário do Pepper se limita a falar sobre o diferencial de seu espaço. ‘‘Nosso sistema é de barzinho, e não de balada. Até o som é mais baixo, para o pessoal poder conversar com calma’’.

O empresário, no entanto, não dispensa uma alfinetada na concorrência. ‘‘Swing não é para jovem. É para casal que está junto há mais de dez anos e quer sair da rotina. Se você vir muitos jovens num clube, é porque alguma coisa está errada’’.

Rixas à parte, o fato é que os empreendedores do ramo já presenciaram muitas extravagâncias ao longo dos anos – a maioria impublicável. ‘‘Quantos cadernos você tem aí para anotar?’’, diverte-se Júnior. Entre outras histórias, ele recorda a de um casal cuja esposa decidiu bater seu recorde pessoal de parceiros numa só noite.

A façanha foi realizada durante uma festa organizada especialmente para a dupla. Para a alegria geral, deu tudo certo: no fim da jornada, a mulher contabilizou relações com 34 homens. ‘‘Um mês depois, eles foram para Brasília e ela bateu outro recorde. Transou com 41 caras’’, arremata Júnior.

Camargo também tem seu ‘‘causo’’ clássico, protagonizado por um casal à primeira vista inexperiente. Segundo o empresário, os dois vestiam roupas ‘‘certinhas’’ e pareciam constrangidos diante dos strippers que circulavam pelo clube para animar o ambiente. No meio da noite, porém, desapareceram.

Preocupado, o dono do clube foi atrás e os encontrou em meio a uma tremenda orgia, que seguiu até o dia amanhecer. Detalhe: o sujeito só olhava a mulher se divertir. E quando todos se diziam exaustos e loucos para ir descansar em casa, o casal surpreendeu outra vez. ‘‘Eles contaram que dali iriam direto para o cartório, onde se casariam no civil’’. Taí um novo conceito de despedida de solteiro.

VER PARA CRER

Antes de marcar qualquer entrevista para esta matéria, era preciso conferir de perto o que realmente acontece em uma casa para casais liberais. Sem revelar que se tratava de uma reportagem, claro. E foi isso que fiz, acompanhado da repórter da FOLHA Carolina Gabardo Belo.

Só havia um cuidado a ser tomado: não deixar transparecer que éramos apenas colegas. Afinal, casais ‘‘montados’’, como se diz na gíria dos swingers, podem ser expulsos dos clubes se descobertos. Definida uma estratégia para evitar um possível vexame, partimos de táxi para o Desiree Swing Club, nos confins de Santa Felicidade.

Chovia muito naquela noite de sexta-feira, e o motorista foi sincero quando soube o destino da corrida. ‘‘Se o jornal não tivesse convênio com a nossa cooperativa, eu não levaria vocês. Lá é muito escuro e perigoso’’. Mas o caminho não ofereceu grandes dificuldades, apesar de incluir a passagem por uma ponte de madeira e um trecho de terra. Em menos de meia hora, estávamos lá. O taxista, mais aliviado, aceitou nos pegar no fim da noite.

O terreno, iluminado por tochas, revelava um casarão e um amplo espaço para carros – de todos os tipos e marcas. Na porta do clube, um batalhão de seguranças revistava os casais. Confirmamos nossa reserva (feita por telefone no dia anterior) e logo recebemos a primeira orientação, na verdade uma ‘‘palavra amiga’’. ‘‘Ninguém aqui é obrigado a fazer o que não quer’’, disse um sujeito com pinta de guarda-costas, porém bonachão.

Em seguida, um rapaz nos levou para um tour pelo local. Primeiro, mostrou a pista de dança, o bar e um balcão com pratos, talheres e vasilhas. Era o bufê de sopas, cortesia da casa naquela noite. Também passamos por uma lojinha que vende trajes sensuais e, para nossa surpresa, peças comuns. ‘‘Tem gente que perde a roupa por aí e não pode voltar para casa pelado’’, explica uma funcionária.

Chegamos então às áreas reservadas para as ‘‘brincadeiras’’ entre casais. A saber: dark room (o recinto totalmente escuro onde ninguém é de ninguém), cabines compartilhadas, quartos privativos (pagos à parte) e aquário (uma espécie de vitrine do sexo). Mas nada se compara ao salão localizado nos fundos do clube, equipado com uma cama enorme.

Ali, dezenas de pessoas podem se embolar ao mesmo tempo, enquanto outras tantas observam em silêncio – uma placa na parede pede que os presentes evitem ‘‘conversas e risadas desnecessárias’’. Aliás, sinais com avisos e normas de conduta estão espalhados por todo o clube, bem como rolos de papel-toalha.

De volta ao espaço central, ocupamos uma mesa em frente à pista de dança, embalada por hits de FM. Os casais vão chegando e é impossível definir a média de idade predominante. Há desde jovens de 20 e poucos anos até gente mais madura, na faixa dos 50.

Por volta da meia-noite, o lugar já está cheio. As garçonetes, enfeitadas com orelhas de coelhinho, correm para dar conta de tantos pedidos. O clima inicial é o de uma balada convencional, não fosse a presença de strippers de ambos e sexos. Alguns casais, certamente ‘‘habitués’’ da casa, cumprimentam os dançarinos como se fossem velhos amigos. À medida em que o álcool sobe à cabeça, as pessoas vão se revelando.

Na mesa ao lado, por exemplo, uma esposa se transforma depois de tirar o blazer pesado e escuro. De salto alto, usando apenas sutiã, calcinha e uma micro-saia (praticamente uma faixa na cintura), ela inicia uma dança do poste digna de profissionais. O marido só fica olhando, imóvel, com um cigarro na boca. Levanta-se apenas para buscar mais bebida para a mulher, que ostenta uma aliança grossa e brilhante.

Lá por 1h30, o DJ toca uma música lenta e anuncia que o ‘‘jogo do relógio’’ vai começar. Vários casais formam um círculo em volta da pista, enquanto todas as luzes são apagadas. Quando acendem, por um instante, é hora de trocar de parceiro. Algumas duplas somente dançam. Outras partem para carícias mais ousadas.

Terminado o aquecimento, os corredores das áreas reservadas pegam fogo. É gente para lá e para cá, porém ninguém pode andar desacompanhado (dias depois, quando revelei ao dono do Desiree que estive lá, ele afirmou que nos safamos de uma expulsão justamente porque ficamos juntos o tempo todo).

Como prevíamos, a sala do ‘‘camão’’, como é chamada, está lotada. São vários grupos amontoados, e é difícil saber quantas pessoas participam de cada um deles. Não demora muito e um forte odor toma conta do recinto. É hora de chamar o táxi. A conta fica em R$ 80 – R$ 60 só do valor da entrada para o casal.

No carro, comentamos nossas impressões finais e chegamos à mesma conclusão: o que vimos na casa não nos chocou, tampouco excitou. Fomos envolvidos em uma atmosfera de tanta naturalidade que mesmo a visão do sexo grupal ao vivo e em cores se tornou banal. Estava dado o primeiro passo para a compreensão do mundo swinger.

por OMAR GODOY
com colaboração de CAROLINA GABARDO BELO
e reprodução de O Bacanal, de TIZIANO
novembro de 2008

DEUSES DO AMOR

Cresce a procura por cursos
de artes sensuais para homens

Carlos Kadosh, ‘‘orientador sexual’’: aulas de pompoarismo masculino

Andreia e Fernanda, sócias da escola Joanah Pink


Há oito anos, o professor de História Carlos Oliveira teve um encontro que mudou sua vida para sempre. Durante um curso de Memorização, ele conheceu Celine Imaguire, 14 anos mais velha e especialista numa área no mínimo peculiar: o mundo das artes sensuais.

Carlos, um fã da literatura erótica, logo se afinou com Celine, instrutora do curso Deusa do Amor, sobre auto-estima e sensualidade para mulheres. A ‘‘ementa’’? Sexo tântrico, Kama Sutra, massagens, hiperorgasmo, pompoarismo, dicas de sedução...

Não demorou muito e o professor virou uma espécie de modelo das aulas, ajudando a ilustrar as posições ensinadas pela namorada. O passo seguinte não poderia ser outro – criar um curso semelhante, porém voltado para homens.

Após fazer uma pós-graduação em Orientação Sexual numa faculdade de São Paulo, Carlos se viu apto para seguir o caminho de Celine. Antes, porém, trocou o sobrenome Oliveira por Kadosh (‘‘sagrado’’ em hebreu), ‘‘para não ficar tão comum’’. Hoje, aos 34 anos, ele percorre o país ajudando alunos a se aperfeiçoar sexualmente.

Cursos de artes sensuais não são uma novidade entre as mulheres. Vira e mexe o tema volta à baila, como aconteceu com o recente fenômeno da ‘‘dança do poste’’, impulsionado pela novela Duas Caras. Mas aulas exclusivas para homens ainda são pouco conhecidas e divulgadas.

Kadosh conta que conseguiu formar apenas quatro turmas nos últimos oito anos. Seus alunos preferem ser atendidos individualmente, para evitar constrangimentos e sanar dúvidas específicas.

E se engana quem pensa que o perfil do público se baseia em homens com dificuldades sexuais. Quem o procura está feliz com seu desempenho na cama, porém quer turbiná-lo. ‘‘Sou um orientador, não um terapeuta. Não prometo curas’’, faz questão de deixar claro.

Ao contrário das mulheres que se matriculam na Deusa do Amor, os alunos de Kadosh não querem aprender a seduzir ou criar climas eróticos. Em 90% dos casos, o negócio deles é explorar o pompoarismo masculino – um conjunto de técnicas e exercícios voltados para a contração dos músculos eretores do pênis.

‘‘A média da ereção no Ocidente é de 90 graus. Com esses exercícios, de origem oriental, é possível chegar a 120 graus, na altura do umbigo’’, explica, com uma caneta na mão, o ‘‘orientador’’.

Mas nem tudo se resolve com o pompoarismo. Para Kadosh, o problema dos homens é não se colocar racionalmente durante a relação sexual. ‘‘O sujeito pode até ser romântico na hora das preliminares. Só que, no ato em si, ele age de forma primitiva e acaba com tudo muito rápido. Isso é uma armadilha da natureza, para a gente se multiplicar’’.

Kadosh é adepto do tantrismo, cujos ensinamentos dão conta de que é possível alcançar saúde, prosperidade e longevidade pela via do sexo. O segredo, segundo ele, está na transmutação do vigor sexual em outros tipos de energia. Para isso, é preciso ser mais cerebral e menos impulsivo na hora H.

Outros fatores que comprometem a performance na cama são a má alimentação, o tabagismo e o alcoolismo. ‘‘Como bacias de frutas todos os dias. Nos palácios dos sultões, há frutas por todos os lados. Elas têm energia vital’’, diz o professor.

Quanto aos exercícios físicos, melhor tomar cuidado. ‘‘Não recomendo a bicicleta, pois puxa a musculatura para baixo. O ideal é pular corda’’, afirma.

Juntos, Carlos Kadosh e Celine Imaguire comandam uma espécie de holding erótica. Além das aulas (no valor de R$ 60 por hora), editam livros sobre sexualidade e mantêm um laboratório de produtos naturais. Nada mal para quem lecionava em um curso supletivo para funcionários dos Correios.

Ainda assim, ele continua ajudando a mulher nas aulas para as turmas femininas. Sem a menor cerimônia, passa horas de roupão ou sunga diante de dezenas de alunas. ‘‘Não tenho o menor problema com isso. Para falar a verdade, é o que mais gosto de fazer’’, confessa o dublê de instrutor e modelo.

Se existe mesmo a tão discutida crise do macho contemporâneo, ela, definitivamente, não passa por ali.

PAI, MÃE E FILHO

''O pessoal acha que é só sacanagem, mas o que eu aprendi nas aulas funciona mesmo'', garante Roberto (nome fictício), 51 anos, ex-aluno do professor Carlos Kadosh.

Em 2004, o comerciante e a mulher fizeram, separados, os cursos de Kadosh e Celine Imaguire. Gostaram tanto que, meses depois, matricularam-se em uma aula de grupo. E levaram o filho junto. ''Na época, ele tinha 18 anos. Aprendeu tudo o que eu gostaria de ter aprendido quando era jovem e não tive oportunidade'', diz.

Roberto ainda conta que, após as palestras, continuou fazendo os exercícios de pompoarismo recomendados pelo instrutor. Hoje, considera-se um homem ''multiorgasmático''. ''Mas não adianta nada se apenas um dos parceiros aprender as técnicas'', adverte.

Paulo, 37, é um calouro nas artes sensuais. Teve aulas com Kadosh há apenas duas semanas, porém está animado para colocar as lições em prática. Ele confessa que enfrenta um momento atribulado no casamento, e por isso resolveu procurar apoio.

''Os homens acreditam que já nasceram sabendo de tudo. Mas sempre é possível melhorar, e acho que estou no caminho'', afirma.

''A SOMBRA DO RICARDÃO''

Carlos Kadosh também atua, como palestrante convidado, na escola Joanah Pink, no bairro Bom Retiro. Trata-se de um ''Centro Integrado da Mulher'' que oferece, entre outros serviços, workshops de iniciação às artes sensuais. Inicialmente voltado para o público feminino, o espaço tem sido cada vez mais procurado por homens.

São três cursos direcionados para eles: Do que Elas Gostam, Como Enlouquecer uma Mulher na Cama e MBA - Muito Bom no Assunto. Este último, mais completo, ensina desde técnicas para beijar melhor a exercícios de pompoarismo masculino.

''Criamos todo um clima para quebrar a resistência dos homens'', diz Andreia Berté, sócia e palestrante do centro. Ela conta que até a decoração do lugar é mudada para receber os alunos. ''Montamos um bar aqui dentro, onde eles são recebidos com cerveja e aperitivos. Além disso, toda a equipe se veste com roupas masculinas''.

A maioria procura os cursos por sugestão das parceiras, que já ''estudaram'' na escola e também querem ser agradadas na cama. Superada a desconfiança inicial, os marmanjos se soltam e tiram todas as dúvidas possíveis. ''Eles perguntam tudo, até onde fica 'o tal do clitóris''', diz Andreia.

Ela e sua sócia, Fernanda Pauliv, são publicitárias e trabalhavam na mesma agência antes de criar o centro, há seis anos. Desde então, não param de ver a clientela crescer.

''Acho que as mulheres se perderam quando começaram a disputar vagas no mercado de trabalho. Dedicaram-se mais à vida profissional e deixaram os maridos um pouco de lado. Agora, tentam resgatar sua feminilidade, sua delicadeza'', afirma Andreia.

Mas e os homens? Por que precisam desse tipo de aula? ''Eles estão vendo suas mulheres aprenderem tantas coisas novas que não querem ficar para trás. É a sombra do Ricardão'', brinca.

Deusa do Amor
Joanah Pink

por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA (Kadosh)
e material de divulgação (sócias)
agosto de 2008