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CLIC CLAC BUM!

Atiradores falam de seu fascínio por armas de fogo
e se queixam da nova cultura desarmamentista do país

Antônio aguarda uma autorização do Exército para comprar sua pistola

Pista de IPSC: combinação de velocidade, precisão e potência

Guilherme atirou pela primeira vez aos 5 anos

Sexta-feira, início de uma noite de calor. Enquanto os bares continuam lotados no happy hour, um grupo de homens entre 25 a 40 anos não está nem aí para a badalação. Reunidos em um clube no bairro do Rebouças, eles só querem saber de uma coisa: mandar bala com suas pistolas.

Todos são praticantes de tiro prático, uma atividade organizada que já conta com federações em mais de 60 países. Ao contrário do tiro esportivo, incluído nos jogos Olímpicos e Panamericanos, o prático não limita o atirador a postos fixos. De quebra, permite o uso de calibres maiores, acima de 38.

São várias modalidades, sendo que uma das mais populares é o IPSC (International Practical Shooting Confederation). A ordem, aqui, é se movimentar em pistas que simulam situações reais de confronto com armas de fogo. No fim, vence quem melhor combinar precisão, velocidade e potência.

Para ser um atirador, é preciso se associar a uma federação e obter um registro junto ao Exército. Dessa forma, o indivíduo pode comprar e transportar armas de uso restrito sem a necessidade do porte. Novato no esporte, o empresário Antônio Frizzo Jr., 39, espera ansiosamente por essa autorização.

"Só estou aguardando o registro para comprar a minha pistola’’, diz Antônio, iniciado no esporte por seu gerente de banco. ‘’Ele me trouxe ao clube de tiro e pouco tempo depois eu já estava vindo sozinho. Agora venho quase todos os dias, acho que estou viciado’’, brinca o empresário, que ainda usa o material do clube.

Para ingressar de vez nesse universo, ele vai desembolsar cerca de R$ 4 mil (entre certidões, munição e a arma em si). ‘’Mas vale a pena. É uma ótima forma de aliviar o estresse’’, afirma.

Quem atira admite: dar seus pipocos por aí é mesmo uma mania. Mania que não se restringe aos clubes especializados, pois boa parte dos praticantes também coleciona armas em casa. Um fascínio que surge na infância, quase sempre por influência do pai ou do avô.

Que o diga Guilherme Scotti, 27, um dos membros da família que administra o clube do Rebouças. Seus primeiros tiros foram dados quando ele tinha apenas 5 anos. ‘’Meu avô e meu pai caçavam, cresci com muitas armas em casa’’, conta.

Formado em Marketing, Guilherme também é instrutor de tiro autorizado pela Polícia Federal. Uniu o útil ao agradável e hoje ministra vários cursos, inclusive particulares - o que ele chama de personal shooting.

Como se não bastasse, o atirador ainda costuma viajar para o Uruguai, onde a caça é permitida. ‘’É mais do que um hobby ou uma profissão. É um estilo de vida mesmo’’, reflete.

Questionado se não seria mais fácil (e barato) usar armas de pressão ou paintball, Guilherme responde no ato. ‘’Se você quer saber como é atirar de verdade, tem de usar arma de fogo. É como comparar o carro ao autorama’’.

José Teixeira, 27, é outro que transformou lazer em trabalho. Apesar de ter dois diplomas na área de Ciências Aeronáuticas, a paixão falou mais alto, e agora ele ganha a vida como armeiro (especialista em reparo e customização de revólveres, pistolas e afins).

A exemplo de Guilherme, José também atirou pela primeira vez quando era criança. ‘’Meu pai tinha armas para defesa e eu vivia fuçando os armários até encontrá-las’’, lembra. Não demorou muito e o futuro armeiro já sabia montar e desmontar os trabucos.

Aos 21 anos, comprou a primeira pistola e não parou mais. Ele prefere não revelar quantos itens tem em casa, mas seguramente são mais de 12 - número mínimo para configurar uma coleção. ‘’É difícil explicar porque gosto tanto disso. Tem gente que fica louco quando vê uma Mercedes. Comigo, isso acontece com armas’’, afirma.

SENSAÇÃO DE PODER

Essa fetichização da arma de fogo é alimentada pela indústria. Nos catálogos, sites e revistas, as peças são mostradas de forma quase sensual. Vende-se, mais do que a possibilidade de se defender, uma verdadeira sensação de poder.

"Tudo é sensação de poder nessa vida. Quando você compra um carrão, está mostrando que tem poder’’, justifica o empresário Mario Brandalize Filho, 51, presidente de Federação Paranaense de Tiro Prático, que reúne cerca de 1.300 afiliados.

Em 1989, ele deu apenas sete tiros com uma pistola calibre 45, emprestada de um amigo. Foi o suficiente para descobrir que aquela adrenalina e o cheiro da pólvora fariam parte de sua vida para sempre. Hoje, Mario é vice-campeão brasileiro de IPSC, na categoria senior, e tem seis armas - uma para defesa e cinco de competição. ‘’A gente compra mais pela emoção do que pela razão’’, confessa.

Mas os atiradores garantem: a empolgação de segurar um máquina de matar é coisa de iniciante. ‘’Quando você começa a praticar, acaba indo mais para o lado do esporte’’, diz Jonas Stefani, 27, recém-aprovado num concurso para a Polícia Civil. ‘’A fase da tara já passou. Agora eu vejo a arma como um instrumento esportivo’’, endossa o engenheiro Rodrigo Gonçalves, 36.

Seja como for, não deixa de ser um hobby politicamente incorreto, certo? ‘’Eu não definiria dessa forma. Talvez seja um hobby controvertido’’, contesta Mario.

Para ele, há uma cultura anti-armamento no Brasil atualmente. O que faz com que as pessoas tenham medo até de pistolas e revólveres descarregados. ‘’O problema não é a arma, e sim o mau uso dela’’, diz, antes de mostrar, orgulhoso, os vídeos de suas performances no campeonato brasileiro.

DEPOIS DO REFERENDO

Conseguir o registro de atirador junto ao Exército não é fácil. São exigidos tantos testes e certidões negativas que muitos candidatos recorrem a despachantes especializados para agilizar o processo. Obter o porte de arma, então, é quase impossível hoje em dia.

Os atiradores afirmam que a concessão, por parte da Polícia Federal, ficou mais difícil desde o chamado Referendo do Desarmamento, realizado em 2005. De acordo com eles, a PF restringiu radicalmente o porte depois que a maioria dos eleitores rejeitou a proposta defendida pelo governo - de proibir a comercialização de armas de fogo e munição em todo o país.

E como se trata de um poder discricionário (situação em que a autoridade pública tem liberdade para decidir de acordo com a conveniência e a oportunidade), os processos podem ficar empacados por anos. "O governo não conseguiu o salame inteiro e resolveu ir pegando as fatias", opina o armeiro Teixeira. "Quem quer tirar o porte são os homens de bem, e não os bandidos, que estão andando armados por aí", lamenta Brandalize.

por OMAR GODOY
com fotos de THEO MARQUES
março de 2009

OS URSOS SAEM DA TOCA

Barbados, pesados e maduros,
os "bears" desafiam os estereótipos do mundo gay

Paulo e Henrique, da CWBears: serviços para a comunidade "ursina"

Capa da última edição da revista virtual Ambear, editada em Londrina

Quando descobriu sua preferência sexual, Fabio se viu meio perdido. Afinal, como encontrar numa boate gay alguém barbado, com mais de 100 quilos e acima dos 50 anos? E, caso encontrasse, como não ser confundido com um garoto de programa ou, na melhor das hipóteses, um aproveitador de coroas? Os points GLS, definitivamente, não eram para ele.

Graças à internet, o webdesigner percebeu que não estava sozinho. Seu lugar era junto com os bears (ursos), uma espécie de tribo dentro da tribo, marcada pela negação de certos estereótipos do universo gay. A começar pelo culto à juventude, corpos sarados, roupas de marca, glamour, etc. Para um urso, homem tem que ter cara de homem - e nenhum pingo de afetação.

O vocabulário ''ursino'', como se diz no meio, é variado. Muscle bear é o urso musculoso. Polar bear, o grisalho. Há ainda o lontra, um tipo mais magro. Sem contar os agregados: cub (gordinho de pele lisa), dad (o paizão, que faz a linha protetor) e, é claro, chaser (caçador). Fabio, jovem e com o peso em dia, encaixa-se nesta última categoria.

Surgido nos anos 70, nos Estados Unidos, o movimento explodiu para valer com o advento da web, a exemplo de outras subculturas. A história é sempre a mesma. Os interessados se encontram em fóruns de discussão, trocam informações e, um dia, decidem dar o salto para o mundo real.

No Brasil, os ursos pioneiros começaram a se reunir em São Paulo, onde já existe todo um circuito de sites e badalações. Curitiba é considerada um pólo em franco crescimento, graças a figuras como Fabio, criador do portal Ursos do Paraná, e a dupla Paulo Fernando e Henrique HCA, produtores da festa CWBears.

O evento, surgido há pouco mais de um ano, consolidou de vez a cena local. Costuma atrair entre 100 e 150 pessoas por edição e já foi realizado em boates, chácaras, piscinas e saunas. Tudo muito bem organizado e com divulgação dirigida na internet. ''A ideia não é encher as festas, porque há o risco de descaracterizá-las. Queremos que o público fiel continue se sentindo à vontade'', afirma Henrique, 40, DJ e produtor musical.

Sentir-se à vontade, aliás, é o mais importante num evento ursino. ''Em qual outro lugar um gordinho pode dançar sem camisa e não ser hostilizado?'', questiona Paulo, 45, empresário. ''Quando entra um cara mais velho numa boate gay tradicional, logo vão dizendo que a geriatria chegou'', emenda Henrique, bem-humorado.

Para a dupla, a CWBears fez com que muitos voltassem a sair à noite. E mais: recuperassem uma autoconfiança perdida por conta das exigências, digamos, estéticas do mundo gay. Os produtores, no entanto, garantem que nada disso seria possível se eles não tivessem, literalmente, mostrado a cara. ''Fomos os primeiros aqui a colocar nome, foto e telefone na internet. Isso gerou confiança'', diz Paulo.

Empreendedores, os dois transformaram a CWBears em empresa e agora pretendem montar um bar próprio para a tribo. Outra proposta, eles contam, é incentivar o turismo ursino na cidade, já que muitos bears de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul têm vindo para cá apenas para se divertir nas festas. ''Por que não criar um Bear Weekend em Curitiba, com várias opções de programas?'', sugere o empresário.

Mas os planos ambiciosos não param por aí. O sonho da dupla é formar uma verdadeira rede/comunidade, para que os bears curitibanos consumam produtos e serviços oferecidos por outros ursos.

Se tudo der certo, vai ter muito urso saindo do armário. Ou melhor, da toca.

COMUNICAÇÃO DE PESO
Há quatro anos no ar, a revista virtual AmBear é um dos prin
cipais canais de divulgação da cena ursina brasileira. Traz artigos, dicas, entrevistas e fotos, sempre destacando os ursos mais atuantes do movimento. Muita gente do próprio meio não sabe, mas o informativo é produzido a partir de Londrina, onde o editor Ham vive com seu companheiro.

Ham ("presunto" em português) é um cub de 28 anos que trabalha numa agência de propaganda. Nas horas vagas, edita a revista e presta consultoria em comunicação visual para outros grupos ursinos. Começou a Ambear como uma brincadeira, criando apenas capas com manchetes fictícias. Com o tempo, o projeto tomou corpo e hoje acumula 222 edições disponibilizadas na rede.

O editor lembra que descobriu o mundo dos ursos em 2000, por meio do reality show Vinte e Poucos Anos, da MTV. Um dos participantes era gay assumido e atuava na comunidade Ursos de São Paulo, uma das primeiras do gênero no país. "Até então eu não me considerava gay, pois não me sentia bem junto com os outros gays", conta.

Por essas e outras, ele afirma que a meta da AmBear é apresentar o movimento aos gordinhos que não o conhecem - e que talvez sofram por se sentirem isolados. "A cena cresceu muito aqui no Brasil. Mas ainda é tímida, porque a maioria dos ursos não gosta de aparecer", diz.

O próprio Ham prefere se manter anônimo, pois não se assumiu para a família, que é toda de Londrina. A cidade, aliás, tem uma cena "mais virtual do que real", como ele mesmo define. Ainda assim, ele considera o movimento paranaense um dos melhores do Brasil. "São os mais belos homens gordinhos da terrinha tupiniquim", empolga-se.


por OMAR GODOY
com foto de LETÍCIA MOREIRA
e imagem de divulgação
abril de 2009

PAIXÃO INEXPLICÁVEL

Baloeiros ignoram o perigo e a lei
em nome de uma cultura secular

Bancada (fábrica de balões): arte e engenharia

Balão pronto para subir: hobby clandestino

DVD da série CWB Balões, que já está na sexta edição


Em dezembro do ano passado, 200 homens invadiram uma casa no bairro do Boa Vista. Não tentaram roubar nada, tampouco acertar contas com alguém. Só queriam pegar um balão que caiu no telhado. Mas enquanto o dono tentava apagar o pequeno foco de incêndio causado pelo objeto, a turma gritava e fazia bagunça, como se estivesse num estádio de futebol.

Meses antes, a polícia prendeu 12 pessoas com a boca na botija em uma fábrica clandestina no Fanny. Foram apreendidos 10 balões, 54 fogos de artifício e 4 DVDs com ''aulas'' sobre o assunto. Os envolvidos pagaram fiança de R$ 600 e vão responder em liberdade a um processo por crime ambiental.

O noticiário policial revela apenas superficialmente o estágio atual de uma tribo que não para de crescer: a dos baloeiros. Antes uma manifestação folclórica, a soltura de balões juninos ganhou uma ''pegada'' de cultura urbana contemporânea e hoje se espalha pelas periferias brasileiras.

Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba são os principais pólos do gênero. Mas a ''arte proibida'', como se diz no meio, está em todos os lugares. Principalmente por conta da internet, essa grande agregadora de pessoas e tendências. São incontáveis sites, blogs, fóruns e comunidades sobre o tema - sem contar os cada vez mais numerosos vídeos no YouTube.

Editados como clipes de esportes radicais, os registros de soltura e resgate de balões são uma febre. E não apenas na web. Há um verdadeiro ''mercado negro'' de DVDs que buscam transmitir a emoção envolvida na atividade. Para se ter uma ideia, a série Capital Ecológica, produzida em Curitiba, já está na 13 edição. O mesmo grupo lançou, recentemente, um vídeo dedicado exclusivamente à caçada de balões, Profissão Resgate.

Esse comércio informal ainda inclui camisetas e bijuterias temáticas. Na loja virtual Papel e Cola, é possível até pagar com cartão de crédito. Quem também lucra com a tribo são as empresas de papel de seda e fogos de artífico, estes últimos muito usados como efeito em balões noturnos.

Misto de obra de arte e produto de engenharia, o balão junino também se sofisticou. Os materiais têm mais qualidade, o que garante maior resistência e tempo de voo. Quanto aos temas, não há limites para a imaginação dos projetistas. Os desenhos vão de celebridades a imagens sacras, passando por grafismos, personagens de quadrinhos e retratos de familiares.

O tamanho dos novos balões impressiona. Se os de 10 metros, mais comuns, já enchem os olhos de quem vê, o que dizer de criações que chegam aos 50? Reza a lenda que o maior balão do Brasil, solto em São Paulo, tinha 72 metros. Não custou menos de R$ 30 mil.

TRADIÇÃO ARRAIGADA

Mas o que leva alguém a gastar tempo e dinheiro com um hobby que pode dar cadeia? Para responder, é preciso voltar ao ano de 1709, quando padres jesuítas soltaram os primeiros balões no Brasil. É o que conta o livro Balões: Paixão Inexplicável (1999), de Odair Bueno e Ivo Patrocínio, uma espécie de bíblia para os entusiastas. Lançado pouco depois da criminalização do balão junino, logo saiu de circulação. Hoje, pode custar R$ 300 nos sites de leilão.

A capa e o prefácio levam a assinatura dos respeitados Ziraldo e Carlos Heitor Cony, respectivamente. ''Nada mais belo, nada mais emocionante do que fazer e soltar um balão'', escreve Cony. Ao longo do livro, os autores enumeram exemplos de políticos, empresários e religiosos que se envolveram com a atividade. Muitos deles chegaram a financiar o trabalho de baloeiros.

É justamente aí que mora a polêmica. Como mudar, da noite para o dia, uma cultura arraigada há séculos na sociedade? Lá se foram 10 anos desde a criminalização, mas os fãs dos balões continuam ignorando o perigo e a própria lei. Pois o artigo 42 da legislação ambiental é claro: fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios é crime.

Presidida até pouco tempo por um militar reformado, a Sociedade Amigos do Balão (SAB), com sede no Rio de Janeiro, busca regulamentar a soltura. Sua proposta é cadastrar os grupos e vistoriar os balões, atestando sua segurança. Em outubro do ano passado, a entidade promoveu a Semana de Mobilização Pró-Regulamentação do Balão Junino, no intuito de sensibilizar autoridades e parlamentares. Uma causa talvez impossível, visto que a opinião pública e população em geral já se deram conta dos riscos embutidos na prática.

Segundo o delegado Olavo Romanus, da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, cerca de 90% das apreensões são fruto de denúncias feitas por vizinhos de baloeiros - uma prova da conscientização. Por outro lado, ele acredita que o fortalecimento da tribo é reflexo do crescimento do Brasil como um todo. ''Com a evolução da economia e o aumento do poder aquisitivo, todas as atividades se desenvolveram no país. Há também o fator internet, que colocou essas pessoas em contato''.

O tenente Anor Santos Júnior, da Força Verde do Batalhão de Polícia Ambiental, faz um balanço das ações da divisão em 2008. Foram 7 flagrantes e 169 autuações em Curitiba e região -além de 203 balões e inúmeros materiais de produção apreendidos. ''Nosso trabalho é fazer um acompanhamento dessa movimentação, inclusive na internet. Esperamos que, com o tempo, as pessoas entendam o risco que envolve essa prática'', diz o militar, para quem o problema está mesmo ''na questão cultural''.

CONFISSÕES DE BALOEIRO

"Só quem é louco pira junto no balão", diz a letra de um rap que circula na internet. Para os aficionados, é realmente difícil explicar o fascínio pela prática, muitas vezes transmitida de pai para filho.

"Gostar de mulher é fácil. Mas vai tentar entender porque alguém gosta de papel e cola. É um vício", brinca o comerciante e produtor de eventos Faxada, de 22 anos. Como tantos outros, ele se "converteu" ainda na infância, ao ver o pai soltar balões em festas de família. Hoje, mantém um blog sobre o assunto e produz a série de DVDs CWB Balões, que já está na sexta edição.

Faxada também faz parte da equipe Garagem, uma das muitas espalhadas por Curitiba e Região Metropolitana. Ele começa uma lista e não consegue parar: Elite, Oxigênio, Labareda, TVO, Arte Probida, Turma da Lua, Domínio da Arte, Vagalume, Arte Eterna, Zepelin Sul... Há até um grupo dedicado exclusivamente aos resgates, o Carrapeta.

Sair à caça de balões é um expediente tão comum quanto a soltura. O objeto recuperado pode voltar ao céu ou ser reciclado, mas também vale como um troféu. Por isso, não são raras as ocorrências de brigas e acidentes de trânsito durante as maratonas. "Você fica cego. Não quer saber se tem um rio, uma cerca ou um muro na sua frente", diz Faxada, ele mesmo um adepto dos resgates.

As equipes têm, em média, 10 integrantes. Cada um é responsável por uma parte do processo - do design à soltura. Algumas não contam com projetistas em suas fileiras, e por isso contratam serviços "terceirizados". Nesse caso, chegam a desembolsar R$ 300 por um único trabalho.

Membro de um dos grupos mais tradicionais da cidade, a Turma da Lua, Gordo, 34, está no meio há 20 anos. Também cresceu assistindo ao pai soltar balões com os amigos, porém só passou a construí-los depois que ele morreu.

O "estalo" para começar veio de uma reportagem sobre o tema exibida no antigo programa de tevê Comando da Madrugada, do jornalista Goulart de Andrade. "Vi aquelas obras de arte indo para o céu e fiquei louco. Hoje, percebo que fazer balão é uma forma de estar sempre perto do meu pai", reflete.

Gordo é formado em Administração de Empresas e atua na área. Mas já vendeu papel de seda para se sustentar. "Construí uma casa só com o dinheiro do papel", afirma. Ele conta que empresários do setor, e também do ramo de fogos do artifício, costumam patrocinar concursos de balões, os chamados Bocas de Ouro.

A rivalidade entre as equipes, Gordo garante, para por aí. "Na verdade existe uma união. Muitas vezes, as turmas fazem vaquinhas para pagar os estragos causados na casa de um vizinho".

E por falar em estragos, os baloeiros acreditam que apenas 2% do que é solto cai em chamas. "Hoje em dia, com a evolução dos balões, eles começam a apagar meia hora antes de chegar ao chão", afirma Gordo.

Para Faxada, quem prejudica a imagem do movimento são os marinheiros de primeira viagem, garotos imprudentes que aprendem pela internet e mandam trabalhos mal acabados para o céu. São esses, segundo ele, que causam incêndios. "Leva dois anos só para você começar a entender como a coisa funciona", diz.

Seja como for, o risco existe, não dá para negar. Ainda assim, os aficionados seguem desafiando a lei. Ou melhor: ignorando.

"Nós simplesmente não reconhecemos uma lei que vai contra a cultura e o folclore de um povo", justifica Gordo, favorável à regulamentação. "Por que não normatizar? Você não imagina a emoção que é ver centenas de crianças olhando para o alto, encantadas com um balão", arremata

por OMAR GODOY
com fotos de GORDO E FAXADA
janeiro de 2009

PISTA DUPLA

Motoclubistas novatos e "de raiz"
falam sobre o crescimento da tribo

Salsicha (frente), do Fator Mutante: conforto é o de menos

Almir, dos Paladinos, formado por policiais civis e militares

Durão, diretor local dos Abutres: "fio desencapado"


O Brasil caminha para ser o quarto maior produtor de motocicletas do mundo, perdendo apenas para China, Japão e Índia. Cerca de 2 milhões de unidades foram vendidas apenas neste ano, entre modelos populares e de luxo. Com isso, a frota nacional deve bater na casa dos 9 milhões de veículos de duas rodas - praticamente o dobro do número registrado em 2007.

Dentro de poucos anos, serão vendidas mais motos do que carros no País. Esse crescimento se deve, basicamente, a três fatores: aumento do poder aquisitivo, preços mais acessíveis e facilidade de financiamento. Mas, por trás desse boom, há também uma mudança de comportamento.

Um dos símbolos da contracultura, a motocicleta deixou de ser sinônimo de rebeldia. Tornou-se uma alternativa de transporte e o ganha-pão de muita gente. De quebra, virou opção de lazer nos fins de semana. Nunca se viu tantos comboios de motociclistas passeando pelas estradas.

Os motoclubes são uma febre em todo o Brasil. Só em Curitiba existem mais de 100, entre filiais de grandes grupos nacionais (as chamadas facções) e pequenas turmas de amigos. Cada um com seu perfil, estatuto e, é claro, colete de couro.

Durante muito tempo, os clubes rivalizavam e chegavam às vias de fato. Até que, em 1987, o líder do grupo Balaios foi vítima de um atentado a bomba no Rio de Janeiro. Houve um processo de pacificação e a convivência hoje é relativamente tranqüila.

A bronca, agora, tem viés conceitual. Os membros dos clubes ditos ''de raiz'' acreditam que os mais novos não vão durar muito tempo. Para eles, tudo não passa de um modismo seguido por gente que não compreende o verdadeiro estilo de vida motoclubista.

''A moto você compra. O espírito, não'', diz o professor aposentado Alexandre Durão, 58 anos, diretor da facção curitibana dos Abutres, um dos maiores motoclubes do País. ''Não acho que os outros estejam errados. Mas tem muitos por aí que apenas colocam um colete e se travestem de motociclistas na sexta-feira'', emenda.

De acordo com Durão, um abutre se sente parte de uma sociedade alternativa. Mesmo quando não está com o grupo. ''A gente vive esse espírito 24 horas. É uma questão de postura'', afirma.

E que postura é essa, que une desde desempregados a juízes de direito? ''Isso a gente não divulga, mas posso garantir que é tudo relacionado com o bem-viver'', desconversa.

As brigas, então, acabaram? ''Você já viu um fio desencapado? Ele está parado ali. Se você colocar a mão, vai levar um choque'', ironiza.

Integrante da facção local do motoclube Fator Mutante, Cláudio Adriano, 28, acredita que é tudo uma questão de ''pegada''. Para ele, o verdadeiro motoclubista não se importa com conforto. O contrário dos ''zé roelas'' que fundam clubes ''coxinhas'' só para ir ao litoral e voltar.

Salsicha, como é mais conhecido, trabalha como motorista e sonha em ter uma Harley Davidson. Juntou-se ao Fator Mutante justamente porque o grupo não faz distinção entre tipos de motocicletas. Ele conta que chegou a viajar para São Paulo na garupa de um amigo, pois não tinha dinheiro para ir com a própria moto. ''Somos todos irmãos. Se um não tiver grana, os outros inteiram a pinga dele'', diz.

Casado duas vezes e pai de um menino de 8 anos, Salsicha rompeu com a segunda mulher por causa do motoclube. Chegou a ficar um tempo afastado do grupo a pedido da parceira, mas a falta dos amigos acabou pesando. ''Eu sentia o mesmo amor por ela e pelo clube. Só que, de um lado, tinha uma pessoa só. Do outro, tinham várias'', justifica.

CADA UM NA SUA

Na outra pista, os motoclubistas, digamos, moderados não escondem que só estão nessa para espairecer. "É mais lazer e entretenimento do que estilo de vida", diz a administradora de empresas Danielle Carstens, 30. Ela e o marido, o engenheiro Luciano, estão entre os fundadores do motoclube Águias Indomáveis, criado em 2003.

Danielle admite que há um certo preconceito de seu grupo com os "cegezeiros" (donos de motos CG, mais baratas e menos potentes). Nos encontros de motociclistas, os dois extremos não se misturam muito. "Eles devem nos ver como um bando de almofadinhas que só querem passear no fim de semana. E isso não é mentira", brinca.

Ela inclui os Águias Indomáveis na categoria dos grupos "família", cada vez mais comuns nas estradas do País. O que não chega a ser uma surpresa, visto que até motoclubes gospel já viajam por aí. Mas uma turma só de policiais seria algo impensável há 20 anos.

É justamente essa a marca registrada dos Paladinos, formado em sua maioria por delegados, investigadores, coronéis, sargentos, etc. Muitos dos membros nem tinham motos antes de conhecer o grupo, como explica o policial civil Almir Alberti, 50, da Delegacia de Furtos e Roubos. "Tem um coronel amigo nosso, por exemplo, que não se deu bem com a moto e hoje está feliz com seu triciclo".

Nas viagens, ele conta, as mulheres e filhos seguem o grupo em vans alugadas. E se o destino é um encontro entre motoclubes, é quase certo que os Paladinos serão vistos com uma certa desconfiança. "Algumas pessoas sentem receio, sim. Os Abutres, por exemplo, sempre ficam meio arredios", diz.

Alberti ainda revela que não facilita a vida de eventuais arruaceiros só porque são da mesma tribo. "Independentemente de ser de motoclube, a gente tem de enquadrar quem estiver armado ou portando droga. Todos já estão cientes disso".

Para o policial, o surgimento de grupos independentes é uma reação à rigidez dos mais tradicionais. Em muitos deles, os novatos (também chamados de prósperos) são tratados como calouros e devem se submeter a uma série de provações. "Já vi homens de barba branca varrendo o chão, limpando motos e comprando cerveja enquanto os outros ficam de perna para o ar. Isso é uma humilhação", diz.

Durão, dos Abutres, rebate. "Em qualquer sociedade existe hierarquia. Você não faz gentilezas para as pessoas mais velhas?". Salsicha pensa da mesma forma. "A gente coloca o próspero à prova mesmo, para saber se ele está disposto a ajudar". A intenção, eles garantem, é que todos sirvam ao grupo.

Nesse debate, apenas uma coisa é certa: vai faltar estrada para tanta gente

por OMAR GODOY
com fotos de DIEGO SINGH
dezembro de 2008

OS TRIBALISTAS

Comunidade alternativa
nos arredores de Curitiba
é marcada pela autogestão
e o desapego aos bens materiais

Cerca de 50 pessoas, entre adultos e crianças, vivem na comunidade

Benyah: em busca de "relações verdadeiras"

Shoresh e família: "Essa vida é para encher a Terra inteira"


Nosso guia nesta reportagem é um gaúcho de 48 anos que largou tudo - inclusive o próprio nome - para ter uma ''vida preservada''. Rebatizado como Benyah, ele mora com outras 50 pessoas numa comunidade alternativa em Campo Largo, a 15 quilômetros de Curitiba. Separado do resto da sociedade, o grupo tem um único objetivo: viver, na prática, o amor pregado por Jesus Cristo.

Engenheiro Civil, Benyah deixou a cidade de Osório (RS) em busca de ''relações verdadeiras''. Visitou comunidades autogeridas em vários lugares do Brasil e da América Latina, mas não encontrou o que procurava. Mesmo as tribos indígenas, ele conta, estavam contaminadas pela perversidade.

Sua crença na humanidade já estava perdida quando, em 2002, durante o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, ele conheceu dois ''andadores'' (divulgadores) das Doze Tribos de Israel. Trata-se de um movimento internacional, dividido em confederações, que já conta com mais de 2.500 adeptos em nove países. Organizados em um regime tribal, os membros seguem uma espécie de cristianismo primitivo. Valorizam a família e não se prendem aos bens materiais.

No Brasil, há três comunidades ligadas às Doze Tribos, todas instaladas no Paraná. Juntos, os grupos de Londrina, Campo Largo e Mauá da Serra reúnem cerca de 180 pessoas. Segundo Benyah, o movimento brasileiro começou no Nordeste, no fim dos anos 80, e se deslocou para o Sul na década seguinte, por conta do clima mais propício à agricultura.

Convidado pelos andadores, Benyah passou duas semanas em Londrina e se impressionou com o que viu. ''Descobri que a única regra aqui é o amor. O resto é direcionado pela necessidade das pessoas'', explica. Pouco depois, ele ganhou um novo nome (em hebraico, como é de praxe entre as tribos) e se mudou de vez para a comunidade de Curitiba, posteriormente transferida para Campo Largo. E lá se vão quase sete anos.

Separado, o engenheiro é pais de três filhos, que moram com a mãe no Rio Grande do Sul e o visitam nas férias. ''Tenho esperanças de que, um dia, eles venham morar aqui comigo'', confessa Benyah, que atualmente mora numa barraca. ''Mora'' é modo de dizer, pois os membros do grupo praticamente só dormem em seus espaços reservados. Passam o dia trabalhando e fazem as refeições todos juntos, em uma casa central no sítio de 10 alqueires.

O terreno é de propriedade da comunidade, que também possui uma fábrica de chás orgânicos, um carro e um ônibus. Além do chá, velas artesanais, sandálias de couro e pães caseiros garantem o sustento dos moradores. Sem contar os recursos automaticamente doados pelos ''irmãos'' quando se mudam para lá. ''Quem tem uma casa, dá uma casa. Mas há quem chegue aqui com dívidas'', esclarece Benyah.

Há cinco casas espalhadas pelo sítio, uma delas em construção. Casados e solteiros moram em lugares separados, sendo que as famílias têm quartos exclusivos. As crianças, cerca de 20, são educadas ali mesmo, de acordo com a filosofia do movimento. Cada adulto trabalha com o que mais se afina, e algumas mulheres se dedicam a lecionar. Uma das professoras é a londrinense Dodavah, 34, que há dez anos largou a faculdade de Marketing para se juntar ao grupo.

Solteira, e sem um parceiro na comunidade, ela afirma não sentir falta de ter um relacionamento afetivo. Buscar alguém fora dali também está fora de cogitação. ''Simplesmente não faz sentido'', diz. Benyah arremata: ''Isso não costuma acontecer. E se acontece, a pessoa vai embora''.

O caso mais comum é o de Shoresh, 29, que conheceu Zait, 22, quando já morava no sítio. Os dois se casaram e hoje têm uma filha de 2 anos, Chedavah. Ex-mergulhador profissional, ele não vê os pais há dois anos. ''Minha mãe, que é psicóloga, foi totalmente contra a minha mudança. Depois de um ano, ela se arrependeu e até já veio me visitar uma vez'', conta.

Shoresh faz questão de dizer que ele e seus ''irmãos'' estão separados, e não isolados da sociedade. Explica que, todas as sextas-feiras, no fim da tarde, a comunidade é aberta para convidados. Aos sábados e domingos, é a vez do grupo visitar Curitiba, para vender seus produtos e divulgar a filosofia das Doze Tribos.

Neste momento, aliás, há um grupo em Florianópolis preparando o que pode ser uma nova sede do movimento. ''A idéia é criar milhares de pequenos núcleos como o nosso. Essa vida é para encher a Terra inteira. É o plano de Deus'', afirma Shoresh, sem conter a empolgação.

APENAS O NECESSÁRIO

De acordo com Benyah, são poucas as regras que regem a vida na comunidade. A principal delas, ao que parece, é abandonar a individualidade para viver em função do grupo. Tudo é dividido, ele explica, ''mas não de uma forma comunista, rigorosamente igual''.

Cada irmão elabora uma lista do que precisa, e a distribuição de roupas e outros objetos pessoais é feita de acordo com as necessidades - que não são muitas, já que todos se vestem da maneira mais simples possível.

No entanto, existe uma certa rotina a ser seguida. Todos acordam às 6 da manhã e uma hora depois já estão reunidos na casa central. Ali eles rezam, cantam e dançam antes da primeira refeição. Também praticam exercícios, como caminhada e alongamento. O trabalho para valer começa às 8 horas. Há atividades para todos: limpar, cozinhar, lecionar, plantar, construir, costurar, etc.

O almoço, com base em alimentos naturais e orgânicos, inclui mais uma sessão de oração, dança e cantoria. O mesmo acontece no fim da tarde, quando termina a jornada. E assim vai, até às 22 horas, quando o grupo se recolhe para dormir. Televisão, nem pensar. ''A gente até tem uma. Mas só usa de vez em quando, para ver algum vídeo gravado aqui mesmo'', conta Shoresh, que teve sua festa de casamento registrada.

Nem tudo é harmonia na comunidade, claro. Quando surge algum impasse, é acionado um conselho composto por sete homens ''responsáveis'', como diz Benyah. As mulheres só podem participar de um outro conselho, formado por casais.

Normalmente, quem cria problemas são aqueles que contribuem menos para a coletividade. Se a situação se agrava, a pessoa é convidada a se retirar. ''Não deixamos os conflitos sem resolução'', garante Benyah. ''O que nos mantém unidos é justamente a paz que temos uns com os outros'', completa Shoresh.

UMA VIDA SIMPLES

Não foi sem uma dose de insistência que a reportagem da FOLHA conseguiu entrar na comunidade das Doze Tribos em Campo Largo. Como tudo é decidido coletivamente, a visita levou cerca de um mês para ser autorizada.

O sítio, de fácil acesso, fica a menos de 20 minutos de Curitiba. Chegando lá, fomos recebidos por Benyah e encaminhados para a casa central. Ali, uma senhora nos serviu o chá que eles mesmo produzem e um bolo de gosto forte.

Não fosse pelo entra-e-sai da criançada e a música étnica que tocava no aparelho de som, o silêncio reinaria no lugar. Nem a construção de uma nova casa, a poucos metros, parecia atrapalhar aquela calmaria.

Terminado o papo com Benyah, Shoresh e Dodavah (que passavam pela sala e aceitaram contar suas histórias), fomos levados para um giro pela propriedade. Tudo muito simples e rústico, a começar pelo quartinho que serve de sala de aula para os pequenos.

Também conhecemos a oficina, onde um grupo trabalhava com velas aromáticas e sandálias de couro. A fábrica de chás ficou para outro dia, pois está instalada em Rondinha, a poucos quilômetros dali.

Visitamos, ainda, uma morada no fim do terreno, próxima de um barranco. Era, até o dia anterior, o canto de Shoresh, que agora dorme com a família em um quarto da casa central. A estrutura? Cama de casal, berço e estante. O banheiro fica do lado de fora.

Antes de voltarmos para a redação, o grupo posou para uma última foto e nos convidou para almoçar. O cheiro da comida estava ótimo, mas tivemos de recusar por conta de nossos horários ''apertados''. Quando já estávamos no carro, a mesma senhora que nos serviu o lanche veio correndo entregar um pão caseiro de presente.

Na estrada, foi impossível não refletir sobre a rotina louca da cidade, a eterna pressa do jornalismo e os nossos filhos - que, ao contrário das crianças da comunidade, não estavam com os pais.

ORIGENS E CONTROVÉRSIAS

O movimento das Doze Tribos foi fundado nos Estados Unidos, no início da década de 70, por Elbert Spriggs e sua mulher, Marsha. O nome é inspirado nas unidades patriarcais do Antigo Povo de Israel, que, segundo a tradição judaico-cristã, originaram-se dos descendentes de Abrãao.

As primeiras reuniões aconteciam na casa dos Spriggs, em Chattanooga, no estado do Tennesse. Em 1972, o casal criou um ministério para jovens, a Brigada da Luz. Com o tempo, os membros perceberam que poderiam viver comunitariamente, dividindo tarefas e compartilhando os resultados. Boa parte de seu sustento vinha de um café, o Yellow Deli, o primeiro de uma série de lojas espalhadas pelos EUA.

Além dos cafés, as comunidades ligadas às Doze Tribos possuem negócios variados, como fábricas de produtos naturais (chás, velas, cosméticos, etc.), gráficas e indústrias de móveis. Estas últimas foram motivo de polêmica em 2001, quando se descobriu que crianças de um grupo de Nova York estavam envolvidas na produção.

Três anos depois, na Alemanha, sete integrantes de uma comunidade foram presos por educar seus filhos em casa - o que é proibido no país. Na esteira das denúncias, surgiram também acusações de racismo e anti-semitismo contra o movimento. Para se defender, os membros alegam que há muitos negros no grupo e destacam sua origem judaica.

Doze Tribos no Brasil

por OMAR GODOY
com fotos de MARCOS BORGES

A VINGANÇA DAS NERDS

Aficionadas invadem o mundo masculino
dos games, quadrinhos, RPGs e afins

Mabel dá uma força para os rapazes do site Nerd Curitibano

Ana é fã da série Mochileiro das Galáxias

A cosplayer Luana: nerd, mas com uma queda pela aventura


Impossível não reconhecer o toque do celular da designer Carol Santos, 36 anos. É a Marcha Imperial, o famoso tema de entrada do vilão Darth Vader na série Guerra das Estrelas. Mais do que uma piada, o ringtone indica que Carol faz parte de uma tribo em franco crescimento: a das mulheres nerds.

Conhecidas como she-nerds, elas estão cada vez mais presentes nos eventos de quadrinhos, ficção científica, RPG, etc. Também dão suas opiniões em sites, blogs, twitters e comunidades virtuais. Algo impensável há dez, quinze anos, quando os encontros de aficionados praticamente só atraiam marmanjos - e, no máximo, uma ou outra namorada mais devotada.

"A própria palavra nerd agora tem outra conotação. Deixou de se referir ao estereótipo, bem americano, do cara de óculos viciado em computador", diz Carol. Ela tem razão.

A "nerdice", como se diz, hoje está mais associada à atitude de se aprofundar em algum assunto da cultura pop. "Minha vida acabou indo para um lado mais intelectual do que físico. Adoro pesquisar as coisas que me interessam. E eu simplesmente não consigo ter outro tipo de interesse que não seja cinema, música, videogame, etc", admite a designer.

Influenciada por um irmão 14 anos mais velho, Carol se apaixonou pelos Beatles ainda na infância. Implorava para entrar no quarto dele, repleto de discos, revistas e memorabilia em geral. Pouco tempo depois, quando sua irmã se casou com um japonês, veio outra revelação: o mundo dos jogos eletrônicos.

"Meu cunhado tem oito sobrinhos que naquela época já conheciam vários games. Era engraçado. Ficávamos eu e todos aqueles japinhas jogando o dia inteiro", lembra.

Se Carol é daquela época em que os nerds mal sabiam como era o cheiro de uma garota, as representantes da nova geração praticamente já se criam no meio. Graças à internet, elas perderam a vergonha de si mesmas. "Como as meninas são mais tímidas, acabam conhecendo as pessoas na web", explica a fotógrafa e desenhista industrial Ana Nemes, 20, fã da série de livros de humor e ficção científica Mochileiro das Galáxias.

Para a figurinista Luanna Castanho, 22, a internet é a válvula de escape das adolescentes superprotegidas pela família. "Os pais não deixam elas sair de casa, porque as ruas estão muito perigosas. Então ficam no Orkut o dia inteiro e ganham tudo o que querem", afirma a jogadora de RPG e campeã de concursos de cosplay (fantasias inspiradas em personagens de quadrinhos, filmes e animações).

Quando ficam um pouco mais velhas, e livres, as she-nerds não se privam de sair à noite, beber e se divertir. Porém de forma moderada, em lugares reservados e sem se arrastar madrugada adentro. "Prefiro um bar que toque música legal e a gente possa conversar", diz a designer Mabel Linberger, 23, colaboradora do site Nerd Curitibano.

Por sinal, a participação de várias designers, desenhistas e afins nesta matéria não é mera coincidência. "É que na faculdade a gente recebe muita referência de cultura pop, trash, cinema", justifica a designer Denise Chybior, 28, que também se aventura pelo terreno das artes visuais. É dela uma das esculturas da edição curitibana da Cow Parade, projeto de intervenção urbana que espalha vacas de fibra de vidro pelas cidades.

De volta ao tema "vida noturna", as she-nerds se dizem bem mais sociáveis do que seus pares masculinos. E ainda garantem ter um leque de gostos mais amplo. "Talvez seja uma característica feminina, de não ficar presa numa coisa só", opina Ana Nemes. "Não me considero totalmente nerd. É um lado da minha personalidade", garante Denise.

Ana, por exemplo, não dispensa um visual "mulherzinha", com direito a salto alto, vestido e unhas pintadas. Já Carol faz uma linha mais punk, que ela define como "nerdcore". A palavra, aliás, foi recentemente tatuada em seu braço - e se juntou aos outros oito desenhos que a designer tem no corpo.

O caso mais extremo é o de Luanna, conhecida como "Lua" nas rodas de cosplayers. Além de figurinista de um grupo de teatro, ela dá aulas de kung-fu e dança do ventre. De quebra, viaja por aí com a turma de um motoclube. "Sou eclética. Adoro uma aventura e também os meus amigos de cosplay. Eles não têm vergonha de brincar, de ser meio infantis", afirma.

Ok, não existe mulher 100% nerd. Mas elas não negam a "raça" quando a tentação fala mais alto. Como Carol, que dias desses largou os amigos numa mesa de bar para assistir em casa ao penúltimo episódio de Dexter, seu seriado favorito do momento. "Ninguém entendeu direito. E o pior é que o programa iria passar de novo depois!", diverte-se.

TODOS IGUAIS

Quando o assunto é relacionamento amoroso, as she-nerds são enfáticas: é muito mais fácil namorar alguém com os mesmos interesses. "Imagina conviver com uma pessoa que não sabem quem é quem em Star Wars", diz Ana, atualmente sozinha.

A afinidade, no entanto, não é tudo. Em algumas situações, pode até atrapalhar. "Além de se isolar mais, muitos caras nerds são arrogantes, acham que sabem tudo. Isso acaba irritando", adverte Denise.

Menos radicais do que os he-nerds, elas não vêem problema em se envolver com pessoas de fora do círculo de amizades. É o caso de Luanna. "Para falar a verdade, meu namorado acha o pessoal que anda comigo meio estranho", confessa.

No fim das contas, todas concordam em um ponto: fã ou não de Guerra nas Estrelas, o instinto masculino sempre prevalece. "Vendo de fora, você até acha que os nerds são mais delicados, sensíveis. Quando conhece melhor, percebe que não tem diferença nenhuma", afirma Mabel, que namorou um "cara bem nerd" durante 5 anos. Homem, pelo visto, é mesmo tudo igual.

por OMAR GODOY
com fotos de LETÍCIA MOREIRA (Mabel, Ana)
e MAURO FRASSON (Luana)
dezembro de 2008

CÉU PROFUNDO

Grupos de observação se unem para
celebrar o Ano Internacional da Astronomia

Integrantes do grupo Nevoeiro, especializado em "saídas de campo"

Professores do Planetário: sessões noturnas no IYA20009


O funcionário público Leandro Trevisan e o analista de sistemas Reginaldo Nazário se conheceram pela internet, em um site de leilões. Pesquisavam acessórios para telescópios e, conversa vem, conversa vai, descobriram que trabalhavam perto um do outro. Apaixonados por Astronomia, resolveram ir além do blablablá dos fóruns de discussão e fundaram seu próprio grupo de observação.

Há dois anos na ativa, o Nevoeiro, como foi batizado, hoje conta com 23 membros. Especializada em "saídas de campo", a turma se reúne em chácaras e sítios da Região Metropolitana de Curitiba para observar planetas, cometas, chuvas de meteoros, supernovas e afins. Uma atividade que exige disposição e, acima de tudo, condições climáticas adequadas.

Como o Nevoeiro, existem mais de cem outros grupos de observação espalhados pelo país. E não se trata apenas de um passatempo. A Astronomia é uma das raras ciências em que os estudiosos amadores exercem um papel ativo, principalmente na descoberta e acompanhamento de fenômenos. Afinal, os astrônomos profissionais costumam se concentrar em suas pesquisas específicas, enquanto os independentes estão "soltos" por aí atrás de objetos celestes.

Para incentivar ainda mais os amadores e atrair novos interessados, a Unesco (organismo da ONU voltado para a educação e a cultura) definiu 2009 como o Ano Internacional da Astronomia - IYA2009. As celebrações marcam os 400 anos da primeira utilização do telescópio, por Galileu Galilei, e vão contar com eventos em 135 países. Em Curitiba, a abertura oficial da programação acontece amanhã, no Colégio Estadual do Paraná, onde está montado o Planetário da cidade.

Segundo Bertholdo Schneider Jr., um dos representantes do IYA2009 por aqui, a principal meta nacional até o fim do ano é fazer com que um milhão de brasileiros observem o céu por meio de telescópios. O projeto ainda tem outros objetivos, entre eles "fornecer uma imagem moderna da ciência e do cientista", como consta no documento publicado pela Unesco.

Professor de Eletrônica e Biomédica da Universidade Tecnológica Federal do Paraná e membro do Clube de Astronomia da instituição (o Cautec), Bertholdo explica melhor esse último propósito. "Não somos loucos", brinca, sobre a fama de lunáticos dos observadores amadores. "Mas, se a pessoas nos veem assim, temos nossa parcela de culpa".

Será por isso que há pouquíssima presença feminina no meio? Amauri José, professor de Física e Astronomia do Planetário, tem outra tese. "Como é uma atividade noturna, os pais normalmente não liberam as adolescentes para as saídas de campo", afirma.

Seja como for, entre os 23 membros do Nevoeiro, apenas três são mulheres. Uma delas, a estudante Elaine Martins, entrou no grupo por influência do tio, Marcelo. As outras são namoradas ou mulheres dos integrantes. As parceiras que não participam das atividades também não se incomodam.

"Minha mulher sabe que somos apenas um bando de marmanjos olhando para o céu. É a nossa pelada do fim de semana", compara Reginaldo. "Na maioria das vezes, a gente come pizza, toma vinho e ri bastante", admite Marcelo.

Mas, afinal, qual o grande barato da Astronomia amadora? "Com os instrumentos, você vê o céu de uma forma totalmente diferente. Às vezes, a noite passa e não se consegue ver tudo", afirma Reginaldo.

Para Bertholdo, trata-se de uma reminiscência da infância. "Esse fascínio pelo universo é uma coisa que vai estar dentro da gente para sempre. Eu resumo tudo isso numa só palavra: encantamento".

ASTROLOGIA NÃO!

"Você está sozinho e de repente vê a Galáxia de Andromeda. Mas vai dividir isso com quem?", diz Marcelo Martins, do Nevoeiro, explicando a proliferação dos grupos independentes.

O investimento para começar a observar o céu não é pequeno. Um binóculo razoável custa cerca de R$ 200, enquanto uma luneta simples não sai por menos de R$ 800. Os astrônomos amadores, no entanto, recomendam que os interessados primeiro se envolvam com um grupo antes de comprar os equipamentos.

"A maioria das pessoas desiste porque compra um instrumento e não sabe o que fazer com ele. Um telescópio não é uma torradeira", ironiza Reginaldo. Ele ainda conta que alguns integrantes do Nevoeiro não têm sequer um binóculo, porém participam com frequência das saídas de campo.

Com ou sem equipamento, os novatos só não podem cometer a gafe de confundir Astronomia com Astrologia (ainda que as duas correntes tenham nascido juntas). "Isso é o que mais incomoda os astrônomos", admite Amauri, do Planetário do Colégio Estadual. "Mas, como gente de ciência, não podemos dizer que a Astrologia não tem fundamento".

Outro engano comum é associar a Astronomia à Ufologia. "A população que mais observa o céu é a dos astrônomos. E ninguém nunca viu um Ovni. Esse é o maior argumento contra a Ufologia", afirma o professor Bertholdo - sem descartar, é claro, a existência de vida extraterrestre.

Ano Internacional da Astronomia

por OMAR GODOY
com fotos de LETÍCIA MOREIRA
janeiro de 2009

BALADA-FAMÍLIA

Pais e filhos se esbaldam nos
Centros de Tradições Gaúchas

Adalto com a mulher, Ana: um dos raros gaúchos do CTG

Rodrigo e Manoela se conheceram no centro

Toninho, patrão do 20 de Setembro, frequentou um CTG em Boston


Desde já, uma promessa: ''bah'', ''tchê'' e outros clichês gaudérios estão terminantemente proibidos nesta matéria. A idéia, aqui, é entender o fenômeno dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), espaços culturais e festivos que atraem milhares de pessoas todos os fins de semana no Paraná.

Estima-se que, somados, os CTGs paranaenses possuam 300 mil filiados. Só em Curitiba e na Região Metropolitana há mais de 50 centros - de grupos de amigos que se reúnem apenas para dançar a entidades fortemente estruturadas. Destas últimas, duas foram visitadas pela reportagem. Uma considerada de elite e a outra, mais popular.

Clube de classe média alta, o Santa Mônica tem um departamento exclusivo para a cultura gauchesca. É o CTG Querência, fundado em 1989 e atualmente presidido pelo construtor Adalto Missaggia, 49 anos. O ''patrão'', como se diz no linguajar típico, conta que 150 associados frequentam o centro, mas uma cota de 50 convites é distribuída para não-sócios.

Nascido em São Luiz Gonzaga (RS), Missaggia é uma exceção no grupo, formado em sua maioria por paranaenses e catarinenses. Nada mais normal. Para os tradicionalistas, há uma diferença entre ser gaúcho e riograndense. Trata-se de um estado de espírito, e não de uma questão territorial. Não à toa, hoje existem CTGs nos quatro cantos do mundo.

Que o diga o marceneiro Toninho Pontes, 42, patrão do centro 20 de Setembro, com sede na periferia de Curitiba. Antes de assumir o cargo, o paranaense de Irati passou quatro anos trabalhando em Boston (EUA), onde foi acolhido por um CTG logo em seu primeiro dia na América. ''Mal cheguei na cidade e encontrei um grupo de catarinenses assando uma carne. Senti que estava em casa'', recorda.

Surgido em 1962, o 20 de Setembro foi o primeiro galpão nativista fundado fora do Rio Grande do Sul. É totalmente aberto ao público, que costuma lotar o salão de baile nos eventos realizados a cada 15 dias. ''Aqui o poder da guaiaca não conta'', diz, referindo-se à bolsa de couro que faz parte do traje gauchesco.

Os perfis dos CTGs podem ser diferentes, porém o discurso dos tradicionalistas é uniformizado. Uma prova de que o movimento não se diluiu com a expansão. É unânime, por exemplo, o reconhecimento da contribuição paranaense para a cultura gaúcha.

''O gauchismo agrega elementos do sul de São Paulo até a tríplice fronteira'', explica o corretor de imóveis Rogério Pankievicz, 46, coordenador do Querência. ''A influência do tropeirismo paranaense é muito forte'', afirma Helenita Kaefer, 55, diretora de relações públicas do Movimento Tradicionalista Gaúcho do Paraná, entidade que reúne os CTGs do Estado. ''A erva-mate usada para fazer o chimarrão é daqui'', reforça Toninho.

Origens à parte, o que faz dos CTGs um dos programas mais concorridos do fim de semana é a possibilidade de se divertir com a família toda. ''Eu, que sempre gostei de bailes, tive de deixar isso de lado depois que meus filhos nasceram. Quando me aproximei dos centros, descobri que podia levá-los a todas as festas'', conta Helenita.

Para Pankievicz, o gauchismo é a única cultura festiva aberta a indivíduos de todas as idades. ''Aqui vale tudo, do mamando ao caducando'', brinca. Ele diz que seu filho adolescente não liga muito para o tradicionalismo, mas participa de quase todos os eventos do grupo. ''Acontece, inclusive, de um jovem ser trazido por um amigo, gostar e depois voltar com a família'', afirma.

Criados dentro do 20 de Setembro, os três filhos de Toninho já dormiram muito nas cadeiras do salão, como ele mesmo revela. Inclusive durante a temporada norte-americana. ''Os policiais ficavam admirados com aquilo, porque lá as crianças não participam de festas noturnas'', lembra.

Seja aqui ou no Japão (sim, existem CTGs até na Ásia!), o gauchismo deixou de ser um traço regional para se consolidar como uma cultura brasileira. E, de quebra, uma das poucas ''baladas-família'' dos dias de hoje.

FUTURO GARANTIDO

Ao contrário de outras culturas antigas, sempre em luta para preservar sua memória, o gauchismo tem herdeiros de sobra. A adesão dos mais novos, definitivamente, não é um problema para os CTGs. Principalmente no interior, onde as opções de lazer são mais limitadas.

''Ou você vai ao CTG, ou fica em casa mexendo no computador'', diz o bancário Rodrigo Guidolin, 25, vindo de Medianeira. Filiado ao Querência, ele namora há seis meses a estudante Manoela Zontea, 21. Os dois se conheceram no centro, onde atuam como ''primeiro peão'' e ''primeira prenda''.

Peões e prendas são os homens e mulheres do grupo, sendo que os ''primeiros'' representam a casa nos concursos disputados entre CTGs. ''É uma rivalidade sadia. Todos se tratam com muito respeito, mas no tablado (onde se dança) cada um quer ser o melhor'', afirma Guidolin.

Os peões devem fazer tranças com couro, dar nós em lenços, laçar novilhos, encilhar e limpar cavalos. A competição entre prendas parece ser mais complicada. Tudo começa com a ''prova da vivência'', em que a candidata deve apresentar uma pasta com documentos que comprovem seu envolvimento com o tradicionalismo (como fotos antigas e certificados de participação em seminários).

Em seguida, vem a avaliação cultural, com perguntas sobre História, Geografia e folclore, além de uma redação. Depois, na prova artística, as moças dançam, cantam, declamam poesias e tocam instrumentos. Por fim, são testados os dotes culinários e manuais das concorrentes.

Longe dos pais, Guidolin diz que encontrou no Querência o ambiente familiar do qual sentia falta desde a mudança para Curitiba. ''Quando cheguei aqui, até passei um tempo sem ir a um CTG. Mas simplesmente não consegui ficar longe'', confessa.

O peão ainda conta que escreve poemas e ''causos'' com um toque de atualidade. Como a história do gaúcho que não entende por que o filho fica ''batucando na frente da televisão'' (quando, na verdade, ele está digitando no teclado do computador). ''Mesmo de leve, tem de haver alguma mudança. Porque uma cultura sem inovação não cresce'', reflete.

por OMAR GODOY
com fotos de MAURO FRASSON
dezembro de 2008

AYAHUASCA SEM DOGMA

Grupos independentes se reúnem
para tomar o chá do santo-daime
sem a interferência de religiões

Fernando Cracco fundou, há três anos, o Instituto Ayahuasca


Tony, com a namorada Abigail: "filme do inconsciente"

Participantes se preparam para o início do ritual

O litro do chá custa R$ 80


Mais de dez tradições populares já receberam o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, criado pelo governo em 2000 para preservar formas de expressão ancestrais. A lista conta com algumas manifestações conhecidas do grande público (como o frevo pernambucano) e outras que ainda não ganharam reconhecimento fora de suas regiões (caso da viola-de-cocho do Mato Grosso).

Nesses oito anos, ninguém contestou a importância do Círio de Nazaré ou do Samba de Roda do Recôncavo Baiano, costumes que também receberam o diploma. Mas, em abril, a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC) colocou o registro em evidência ao pedir a inclusão do chá ayahuasca, mais conhecido como santo-daime.

Produzida a partir da fervura de duas plantas amazônicas - o cipó de jagube e as folhas da chacrona -, a bebida contém DMT, um elemento tóxico e psicoativo que pode causar alucinações. A Secretaria Nacional Anti-Drogas permite sua utilização, porém restrita a ambientes religiosos. Até aí, nenhum motivo para polêmica. Não fosse o fato de que os rituais ayahuasqueiros têm se proliferado pelos centros urbanos nos últimos anos.

Estima-se que 20 mil brasileiros são adeptos das três religiões sincréticas calcadas no uso da substância: Santo Daime, União do Vegetal (UDV) e Barquinha. Esse número, no entanto, pode dobrar quando entram na conta os centenas de grupos independentes espalhados pelo Brasil.

Só em Curitiba existem, pelo menos, dez deles. Do novato Centro Universalista Mãe Terra (CEUMT), com cerca de 15 frequentadores, ao consolidado Instituto Ayahuasca, cujo espaço costuma receber até 60 pessoas por sessão. Sem contar iniciativas isoladas, promovidas em círculos restritos de amigos.

O psicólogo Fernandes Ribeiro, 38, foi praticante de uma religião ayahuasqueira (que prefere não identificar) durante 18 anos. Insatisfeito com a expansão da instituição, desvinculou-se e, há poucos meses, fundou o CEUMT. "A coisa ficou tão grande que inviabilizou aquele contato original, essencial. Quanto mais gente envolvida, mais regras devem ser criadas para controlar o sistema", diz.

Ribeiro afirma que a popularização dos grandes cultos não é a única motivação para a formação dos sistemas independentes. De acordo com ele, há quem simplesmente não se identifique com a simbologia e os dogmas do Daime e seus congêneres - que podem contar com danças, hinos e o uso de vestimentas específicas, entre outras obrigatoriedades.

Enquanto os encontros do CEUMT ainda ocorrem na casa de Ribeiro, o Instituto Ayahuasca está em um estágio mais avançado. Criado há três anos, tem como sede o centro de terapias alternativas comandado por seu fundador, o acupunturista Fernando Cracco, 43. Trata-se de uma instituição legalizada e sem fins lucrativos, que inclusive mantém um cadastro formal de seus freqüentadores. "Está tudo aqui, à disposição da Polícia Federal", diz Cracco, mostrando uma pasta lotada de fichas.

O terapeuta conta que teve sua primeira experiência com ayahuasca há cinco anos, orientado por um "mestre" de origem peruana. "Cada grupo tem seu sistema. O nosso é baseado nas tradições maias e astecas", afirma. Ainda assim, Cracco acredita que os independentes formam, na verdade, um único e grande grupo, marcado pela ajuda mútua.

Essa cooperação, ele explica, inclui a circulação do chá. O problema não é exatamente o preço (em torno de R$ 80 o litro), e sim a dificuldade para consegui-lo. "Já sofremos muito por falta da ayahuasca, por isso temos o projeto de iniciar uma produção própria", revela o terapeuta, que muitas vezes fala da bebida como se ela tivesse vida.

Sobre a possibilidade de criar "franquias" do instituto, Cracco não titubeia: "Nem pensar! Isso vai contra a nossa proposta". Sua meta, no entanto, é organizar um espaço com capacidade para 400 pessoas. "Mas isso não fui eu que defini. Foi o ayahuasca que me passou", garante.

"CÉUS E INFERNOS"

Mais de 50 pessoas se reuniram, no último domingo, na sede do Instituto Ayahuasca, no bairro do São Francisco, em Curitiba. Gente, basicamente, de classe média e formação universitária, mas de todas as idades. Já passava das 14 horas quando Fernando Cracco, responsável pelo centro, iniciou uma preleção.

Descalços e sentados em cadeiras de plástico, os participantes ouvem compenetrados suas orientações. Praticamente um terço dos presentes estava ali pela primeira vez, trazidos por amigos, parentes ou parceiros. Como o administrador de empresas Tony Donaccorso, 43. Sua namorada, Abigail, bebeu o chá há pouco tempo e o convenceu a experimentar também. "Sou ateu, mas hoje acordei querendo fazer uma coisa diferente", diz Tony.

Mais escolada, a estudante de Educação Física L.N., 29, ajuda na organização do encontro. Cadastra os visitantes e recolhe R$ 10 de cada um - valor que custeia a bebida. Ela conta que começou a visitar o instituto no ano passado. "Já vinha buscando um lado espiritual e até cheguei a frequentar um centro espírita, mas não gostei".

Há quatros meses, L.N. perdeu a mãe. Hoje, acredita que a aproximação com a ayahuasca serviu como uma espécie de "preparação" para o momento doloroso. "O sofrimento é o mesmo. A diferença é que eu compreendo melhor meus sentimentos", reflete.

G.D. foi professor de L.N. na faculdade. Especialista em Fisiologia, era "totalmente ateu" até que, por insistência da aluna, conheceu o instituto, em junho. "Naquele mesmo dia, matei minha descrença", afirma.

Usando uma camiseta com motivos hindus, ele também exibe uma aliança de noivado. "Tinha uma espécie de bloqueio nos meus relacionamentos. Meus namoros não duravam mais de quatro meses", confessa, sem esconder a felicidade pela mudança.

Durante a rápida palestra, Cracco explica os detalhes do ritual e descreve os benefícios trazidos pelo chá. Entre eles a possibilidade de curar dependentes químicos e viciados em geral. "A ayahuasca é uma professora. Ela vem para ensinar e libertar a pessoa de tudo o que a escraviza" diz. E enfatiza: "Vocês vão ter um encontro com vocês mesmos, com seus céus e infernos".

Na seqüência, todos vão para o subsolo, equipado com colchonetes, cobertores e sacos plásticos (é comum vomitar ou ter diarréia durante o processo). Embalados por mantras e CDs com temas new age, os participantes enfim tomam o chá, em copinhos de café. Seguirão deitados até às 21 horas, sob a supervisão de Cracco e seus assistentes. Antes, todas as portas do instituto são trancadas - e a reportagem é obrigada a se retirar.

Na segunda-feira, pela manhã, Tony relata sua jornada. Por telefone, revela que teve a melhor experiência de sua vida. "Foi como ver um filme muito claro sobre o meu inconsciente. Percebi pontos positivos e negativos e entendi porque tenho determinados problemas".

Alguns momentos, ele admite, foram de tristeza e angústia, principalmente quando questões familiares vieram à tona. Mesmo assim, o administrador pretende voltar ao centro. "Isso não tem nada a ver com religião. Tem a ver com você mesmo, com uma descoberta pessoal. Com o ayahuasca, ninguém precisa de psicólogo".

A julgar pelos relatos, essa interiorização, somada à independência de dogmas e sacerdotes, é o que tem atraído cada vez mais interessados aos grupos ayahuasqueiros. Mais do que isso, como dizem os ayahuasqueiros, só tomando para saber.

OPINIÃO PROFISSIONAL

A professora Maria Virgínia Cremasco, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é orientadora de um grupo de alunos que pesquisa o uso da ayahuasca em centros urbanos. Ela explica porque a procura pela bebida tem aumentado.

"O ayahuasca induz a estados alterados que proporcionam vivências diferenciadas. A pessoa tem acesso rápido a um material psiquíco que faz muito sentido para ela, porque não veio de fora para dentro", diz a psicóloga, que revela já ter experimentado o chá.

De acordo com a professora, quem consome a bebida pode descobrir a razão de algum sofrimento ou angústia - e isso tem um resultado positivo. "Minha única crítica é quanto ao processo se limitar ao ritual. É preciso fazer um trabalho terapêutico em seguida, para encontrar instrumentos e ferramentas que possam dar significado ao que se descobriu. Do contrário, nada muda".

Presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria, Marco Antonio Bessa compara o ayahuasca ao LSD e alerta para o risco do uso fora do contexto ritualístico. "É mais seguro quando há um controle social, no sentido de tomar o chá em datas e quantidades específicas".

Especialista em dependência química, ele não confirma a eficácia da bebida no tratamento de viciados, como prometem alguns grupos independentes. "Isso ainda é folclore. Na minha avaliação, só se substitui uma substância por outra".

E se o leitor da FOLHA souber que o filho freqüenta um grupo ayahuasqueiro? Deve se preocupar? "Esse pai deveria acompanhar o filho. É melhor que o jovem vá a um culto sério do que ao bar, para consumir fumo e álcool, muito mais perigosos", diz Maria Virgínia. Basso é mais cauteloso. "Cada família tem seus valores. Mas, como pai, eu me preocuparia", conclui.

por OMAR GODOY
com fotos de LETÍCIA MOREIRA (chá)
e MARCOS BORGES (outras)
novembro de 2008

A VIDA SECRETA DOS "COLORIDOS"

Casais liberais contam por que
Curitiba é referência no circuito do swing



Capital disso e daquilo, Curitiba também é considerada referência nacional de um estilo de vida alternativo e invisível: o swing. São três casas noturnas para casais liberais na cidade, que, juntas, atraem cerca de mil pessoas todas as semanas. Muitas delas vêm do interior e de estados vizinhos, e não são raros os grupos que organizam excursões para se divertir por estas bandas.

O segredo por trás dessa fama, quem diria, está nas características mais combatidas do temperamento dos curitibanos. Discretos e formais, os casais locais atraem os ''estrangeiros'' justamente por sua, digamos, serenidade. ''Isso ajuda muito, porque o pessoal de fora sabe que não vai se incomodar depois. O que acontece na casa, fica na casa'', afirmam Ronaldo e Cris, mais conhecidos como Kasal 6969. Eles se encontraram com a reportagem da FOLHA na praça de alimentação de um shopping center.

Swingers, ou ''swingueiros'', há cinco anos, os dois exercem uma espécie de liderança no clube liberal mais conhecido e badalado da cidade - o Desiree, em Santa Felicidade. Simpáticos e bons de papo, tratam do assunto com a naturalidade de quem comenta um hobby qualquer. Não à toa, mantêm contato frequente com outros cem casais, experientes ou não. Uma turma animada em todos os sentidos, que costuma se reunir para festas, churrascos, viagens e até aniversários de crianças.

''A vida muda depois do swing. A nossa rotina era trabalhar, ver novela e dormir. Agora temos uma programação social intensa, com atividade o tempo todo'', diz Ronaldo, 39 anos, que pesava mais de 100 quilos antes de frequentar o clube. Hoje, obriga-se a estar em forma, para não fazer feio entre os swingers.

Para Cris, que tem a mesma idade, as amizades surgidas nesse meio são mais sinceras e menos interesseiras. Aliás, os casais liberais dividem as pessoas em dois grupos: ''colorido'' e ''preto e branco''. ''Com os coloridos a gente pode conversar sobre tudo. Já com os preto e branco (sic) é diferente. É aquele relacionamento frio, de vizinho'', explica.

O Kasal 6969 está junto há 20 anos e não tem filhos (uma exceção em seu círculo de convivência). Livres das obrigações familiares, costumam buscar parceiros também na internet. Ou melhor: parceiras, pois Cris é assumidamente bissexual. A troca de casais propriamente dita, ela afirma, acontece em situações especiais.

O ''bi feminino'', como dizem os praticantes, é uma espécie de porta de entrada para o mundo do swing. Cris, por exemplo, revela que teve inúmeras relações com mulheres antes de se envolver com homens. ''Levou dois anos para isso acontecer'', lembra.

O mesmo vale para Mi, 25, casada com Jef, 27. Em uma conversa a três, pelo viva-voz do telefone celular, ela conta que o marido era muito ciumento. Por isso, as primeiras visitas ao clube serviam apenas para apimentar o relacionamento. Os dois dançavam, olhavam os outros casais em ação e voltavam para casa inspirados. ''Conhecemos o Desiree por curiosidade, levados pela minha irmã e o namorado dela. E nunca mais saímos de lá'', diz.

A exemplo do Kasal 6969, Mi e Jef preferem se identificar como ''profissionais liberais'' (um termo bastante vago, convenhamos). Mas, no geral, os swingers curitibanos são pessoas de classe média ''realmente média''. ''A maioria dos nossos conhecidos mora entre o Portão e o Boqueirão'', afirma Ronaldo.

O swing, definitivamente, não é para os mais pobres. Além das noitadas nos clubes (que não são baratas), há uma série de gastos com eventos e viagens. ''Conheço um casal de Santa Maria (RS) que está sempre por aqui. Eles poderiam ir às casas de Porto Alegre e Camboriú, só que preferem o pessoal de Curitiba'', conta Mi. Cris também cita amigos de Joinville, São Paulo e Brasília que vira e mexe aparecem na cidade.

Questionados se o swing vicia, os casais afirmam que conseguiriam retomar a rotina ''preto e branca'' sem maiores problemas. E garantem: sentiriam mais falta das amizades e da adrenalina envolvida do que do sexo em si. ''A vida ficaria muito chata'', admite Ronaldo. Cris, por sua vez, acredita que um dia vai se cansar de tanto agito. ''Acho que, no futuro, vamos continuar sendo amigos de todo esse pessoal. Mas só para se reunir e lembrar de nossas histórias''.

O FIM DO CIÚME?

Pode parecer contraditório. Mas para o mundo liberal do swing funcionar, é preciso respeitar um certo código de ética. A começar por uma das máximas do meio: ‘‘Não cobice a mulher do próximo a não ser que o próximo esteja muito próximo’’.

Trocando em míudos, é importante que todos os envolvidos estejam cientes da situação. Daí que, para os swingers, os parceiros só se traem quando não há o consentimento mútuo. ‘‘Swing sim, traição não’’ é outro lema dos praticantes, que juram de pés juntos que sempre usam preservativos.

Ter um casamento estável e sólido também está entre os requisitos básicos. ‘‘O swing não é uma tábua de salvação para a relação. Pelo contrário. O casal que está mal normalmente acaba se separando depois de experimentar a troca’’, afirma Camargo, dono do Desiree Club.

E o mais importante: separar sexo e sentimento. ‘‘Minha mulher pode transar com um cara a noite inteira. Se, no final, ela deitar no colo dele e fizer carinho no rosto, o pau vai quebrar’’, diz o empresário.

Cenas de cíume existem, porém são raras e facilmente contornadas. O caso recente do homem assassinado por um marido transtornado, durante uma sessão de swing em Campo Grande, é uma trágica exceção que confirma a regra. ‘‘Eles provavelmente eram inexperientes. Os iniciantes querem ir direto ao ponto, não entendem que é legal conversar com as pessoas, conhecer o meio’’, opina Ronaldo, do Kasal 6969.

Cientista social e mestrando em Antropologia na UFPR, Valtemar Sartorelhi é autor de uma dissertação sobre o universo swinger. Intitulado ‘‘Corpo, Sexualidade e Gênero: Troca de Casais no Cyberespaço’’, o trabalho investiga a busca de parceiros pela internet e discute o conceito de ‘‘trocas simbólicas’’.

‘‘No swing, o que se troca é o corpo do parceiro. Amor e carinho ficam de fora da negociação’’, afirma Sartorelhi. De acordo com ele, há uma confusão entre a troca de casais e o chamado relacionamento aberto. ‘‘São duas coisas diferentes. O casal swinger está junto o tempo todo, ao contrário de quem pratica o relacionamento aberto’’.

Para Sartorelhi, a internet é a responsável pelo boom do swing mundo afora, e não apenas por sua amplitude e caráter agregador. Ao garantir o anonimato, a rede possibilita que os casais experimentem aos poucos o estilo de vida liberal. Em sua pesquisa, o sociólogo identificou uma série de etapas nesse processo, que começa com a fantasia individualizada de um dos parceiros.

O passo seguinte é dividir a fantasia com outro. Depois, vem a fase de imaginar a participação de terceiros durante a relação. Até que a internet entra no jogo, por meio da navegação em sites especializados e do contato via MSN e Orkut (há incontáveis comunidades para swingers no portal de relacionamentos). Encontros são marcados e, se houver ‘‘química’’ entre os casais, a troca pode acontecer – normalmente em outra data.

Ao contrário de outros acadêmicos que se dedicam ao tema, Sartorelhi não acredita que a popularização do swing é fruto da emancipação sexual da mulher. Segundo ele, a troca de casais traz um forte componente machista, travestido de igualdade de direitos. ‘‘Os swingers costumam dizer que as mulheres definem as regras do jogo e controlam tudo. Mas basta analisar os anúncios de casais na internet para constatar que o corpo feminino é usado como objeto dessa propaganda’’, afirma.

A maioria dos anúncios, publicados em portais dedicados exclusivamente ao swing, apresenta somente fotos da mulher. E mesmo os textos priorizam a descrição física e as preferências da parceira. ‘‘Isso faz parte da lógica machista da sociedade, não é uma característica exclusiva do swing’’, completa Sartorelhi.

Os casais, obviamente, discordam. ‘‘Não acho o swing machista nem feminista. A feminilidade é só um cartão de visita, pois a mulher é mais sensual’’, diz Mi, casada com Jef. ‘‘Homem nunca é bonito’’, ironiza Cris, a outra metade do Kasal 6969.

Mas por que apenas o bissexualismo feminino é incentivado? ‘‘O bi masculino não tem muita aceitação. Os clubes inclusive proíbem as relações homossexuais’’, afirma Ronaldo. Ele ainda conta que os homens com esse tipo de tendência raramente se revelam. E quando o fazem, costumam formar turmas separadas. ‘‘Nada contra, só não tenho a mínima vontade de experimentar’’, enfatiza.

"AMOR EU DOU EM CASA"

O ménage à trois, ou simplesmente ménage, é uma constante no mundo do swing. A prática é tão popular que os clubes do gênero permitem, pelo menos uma vez por semana, a entrada de mulheres e homens solteiros. São os chamados ‘‘avulsos’’.

O sexo entre um homem e duas mulheres é bastante comum no meio. Mas há quem prefira inverter os papéis. Como Rodrigo, que revela ter dividido a mulher com mais de 100 avulsos nos últimos dez anos. ‘‘Ela é extremamente ciumenta, nunca deixaria eu ficar com outra’’, diz, por telefone.

O marido, que não é bissexual, admite se excitar com esse tipo de relação. Também conta que, às vezes, a esposa transa com mais de um homem na mesma noite. Ela, no entanto, não quis falar com a reportagem.

O casal tem uma filha e está junto há 13 anos. Ele tem 42 e trabalha com vendas. Ela completou 30 e cuida da casa. Freqüentam o clube Liberty House, mas ficam ‘‘ligados no swing’’, como diz Rodrigo, mesmo quando não estão na casa. ‘‘Você passa a agir de maneira diferente. Vai a uma balada normal e observa as pessoas, conversa, troca telefone para se encontrar depois’’, afirma.

Para ele, a sociedade têm uma visão errada do ‘‘movimento’’. ‘‘As pessoas pensam que a gente chega lá, tira a roupa e sai transando. Não sabem que há toda uma socialização’’. ‘‘O clube é como uma danceteria normal, só que depois de certo horário rolam umas brincadeiras para quebrar o gelo’’, acrescenta.

Como todo swinger, Rodrigo também tem o próprio código de regras, para evitar que os avulsos passem dos limites. E quais são esses limites? ‘‘É o cara achar que a mulher é dele’’, explica. Beijar na boca, por exemplo, está terminantemente proibido. ‘‘Isso é muito pessoal. Amor eu dou em casa’’, justifica.

PRAZER E NEGÓCIOS

Seria injusto afirmar que Curitiba é uma das capitais brasileiras do swing (ao lado de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Camboriú) apenas porque o comportamento polido dos casais locais atrai os adeptos de outros estados. Muito do sucesso da cidade nesse circuito se deve à casa especializada Desiree Swing Club, criada há 11 anos.

Com estrutura de uma boate convencial, o espaço abre três vezes por semana e recebe cerca de 300 pessoas por noite. A divulgação é feita na base do boca-a-boca e pela internet, em um portal que também hospeda anúncios de casais associados.

O dono, que pede para ser identificado como Camargo, é um empresário veterano da noite curitibana. Comandou uma danceteria ‘‘normal’’ e foi um dos primeiros na cidade a promover festas no estilo Clube das Mulheres. Swinger de carteirinha, organizava jantares informais para casais por puro gosto. Mas enquanto os encontros ganhavam novos interessados, sua paciência para os clientes da boate se esgotava. ‘‘Até o dia em que fiquei de saco daquela piazada e resolvi abrir meu próprio clube para casais’’, conta.

Ele afirma que o Desiree cresceu junto com o movimento do swing no Brasil. Inicialmente freqüentada por 30 casais, a casa ganhou tanto público que teve de se mudar para um lugar maior, fora do Centro. Atualmente funciona num casarão construído em uma espécie de chácara, no bairro de Santa Felicidade. Há também uma ‘‘franquia’’ londrinense, que Camargo admite acompanhar somente de longe.

A cidade ainda conta com outros dois clubes, igualmente fundados por swingers: Pepper (no Rebouças) e Liberty House (no Parolin). Este último teve a participação de Camargo em sua criação, mas hoje os dois empresários são inimigos mortais – por motivos que fogem ao objetivo da reportagem.

Para o dono do Desiree, a casa rival não possui boa estrutura e, por cobrar mais barato, atrai ‘‘gente de baixo nível’’. Segundo ele, quem quer ver pessoas jovens e bonitas deve ir ao seu clube. Já o administrador do Liberty, Júnior, sequer considera Camargo um concorrente. ‘‘Não questiono a estrutura e o resultado financeiro do Desiree. Mas aquilo lá virou apenas uma balada liberal para curiosos. A verdadeira essência do swing está aqui’’.

Alheio ao ‘‘debate’’, o proprietário do Pepper se limita a falar sobre o diferencial de seu espaço. ‘‘Nosso sistema é de barzinho, e não de balada. Até o som é mais baixo, para o pessoal poder conversar com calma’’.

O empresário, no entanto, não dispensa uma alfinetada na concorrência. ‘‘Swing não é para jovem. É para casal que está junto há mais de dez anos e quer sair da rotina. Se você vir muitos jovens num clube, é porque alguma coisa está errada’’.

Rixas à parte, o fato é que os empreendedores do ramo já presenciaram muitas extravagâncias ao longo dos anos – a maioria impublicável. ‘‘Quantos cadernos você tem aí para anotar?’’, diverte-se Júnior. Entre outras histórias, ele recorda a de um casal cuja esposa decidiu bater seu recorde pessoal de parceiros numa só noite.

A façanha foi realizada durante uma festa organizada especialmente para a dupla. Para a alegria geral, deu tudo certo: no fim da jornada, a mulher contabilizou relações com 34 homens. ‘‘Um mês depois, eles foram para Brasília e ela bateu outro recorde. Transou com 41 caras’’, arremata Júnior.

Camargo também tem seu ‘‘causo’’ clássico, protagonizado por um casal à primeira vista inexperiente. Segundo o empresário, os dois vestiam roupas ‘‘certinhas’’ e pareciam constrangidos diante dos strippers que circulavam pelo clube para animar o ambiente. No meio da noite, porém, desapareceram.

Preocupado, o dono do clube foi atrás e os encontrou em meio a uma tremenda orgia, que seguiu até o dia amanhecer. Detalhe: o sujeito só olhava a mulher se divertir. E quando todos se diziam exaustos e loucos para ir descansar em casa, o casal surpreendeu outra vez. ‘‘Eles contaram que dali iriam direto para o cartório, onde se casariam no civil’’. Taí um novo conceito de despedida de solteiro.

VER PARA CRER

Antes de marcar qualquer entrevista para esta matéria, era preciso conferir de perto o que realmente acontece em uma casa para casais liberais. Sem revelar que se tratava de uma reportagem, claro. E foi isso que fiz, acompanhado da repórter da FOLHA Carolina Gabardo Belo.

Só havia um cuidado a ser tomado: não deixar transparecer que éramos apenas colegas. Afinal, casais ‘‘montados’’, como se diz na gíria dos swingers, podem ser expulsos dos clubes se descobertos. Definida uma estratégia para evitar um possível vexame, partimos de táxi para o Desiree Swing Club, nos confins de Santa Felicidade.

Chovia muito naquela noite de sexta-feira, e o motorista foi sincero quando soube o destino da corrida. ‘‘Se o jornal não tivesse convênio com a nossa cooperativa, eu não levaria vocês. Lá é muito escuro e perigoso’’. Mas o caminho não ofereceu grandes dificuldades, apesar de incluir a passagem por uma ponte de madeira e um trecho de terra. Em menos de meia hora, estávamos lá. O taxista, mais aliviado, aceitou nos pegar no fim da noite.

O terreno, iluminado por tochas, revelava um casarão e um amplo espaço para carros – de todos os tipos e marcas. Na porta do clube, um batalhão de seguranças revistava os casais. Confirmamos nossa reserva (feita por telefone no dia anterior) e logo recebemos a primeira orientação, na verdade uma ‘‘palavra amiga’’. ‘‘Ninguém aqui é obrigado a fazer o que não quer’’, disse um sujeito com pinta de guarda-costas, porém bonachão.

Em seguida, um rapaz nos levou para um tour pelo local. Primeiro, mostrou a pista de dança, o bar e um balcão com pratos, talheres e vasilhas. Era o bufê de sopas, cortesia da casa naquela noite. Também passamos por uma lojinha que vende trajes sensuais e, para nossa surpresa, peças comuns. ‘‘Tem gente que perde a roupa por aí e não pode voltar para casa pelado’’, explica uma funcionária.

Chegamos então às áreas reservadas para as ‘‘brincadeiras’’ entre casais. A saber: dark room (o recinto totalmente escuro onde ninguém é de ninguém), cabines compartilhadas, quartos privativos (pagos à parte) e aquário (uma espécie de vitrine do sexo). Mas nada se compara ao salão localizado nos fundos do clube, equipado com uma cama enorme.

Ali, dezenas de pessoas podem se embolar ao mesmo tempo, enquanto outras tantas observam em silêncio – uma placa na parede pede que os presentes evitem ‘‘conversas e risadas desnecessárias’’. Aliás, sinais com avisos e normas de conduta estão espalhados por todo o clube, bem como rolos de papel-toalha.

De volta ao espaço central, ocupamos uma mesa em frente à pista de dança, embalada por hits de FM. Os casais vão chegando e é impossível definir a média de idade predominante. Há desde jovens de 20 e poucos anos até gente mais madura, na faixa dos 50.

Por volta da meia-noite, o lugar já está cheio. As garçonetes, enfeitadas com orelhas de coelhinho, correm para dar conta de tantos pedidos. O clima inicial é o de uma balada convencional, não fosse a presença de strippers de ambos e sexos. Alguns casais, certamente ‘‘habitués’’ da casa, cumprimentam os dançarinos como se fossem velhos amigos. À medida em que o álcool sobe à cabeça, as pessoas vão se revelando.

Na mesa ao lado, por exemplo, uma esposa se transforma depois de tirar o blazer pesado e escuro. De salto alto, usando apenas sutiã, calcinha e uma micro-saia (praticamente uma faixa na cintura), ela inicia uma dança do poste digna de profissionais. O marido só fica olhando, imóvel, com um cigarro na boca. Levanta-se apenas para buscar mais bebida para a mulher, que ostenta uma aliança grossa e brilhante.

Lá por 1h30, o DJ toca uma música lenta e anuncia que o ‘‘jogo do relógio’’ vai começar. Vários casais formam um círculo em volta da pista, enquanto todas as luzes são apagadas. Quando acendem, por um instante, é hora de trocar de parceiro. Algumas duplas somente dançam. Outras partem para carícias mais ousadas.

Terminado o aquecimento, os corredores das áreas reservadas pegam fogo. É gente para lá e para cá, porém ninguém pode andar desacompanhado (dias depois, quando revelei ao dono do Desiree que estive lá, ele afirmou que nos safamos de uma expulsão justamente porque ficamos juntos o tempo todo).

Como prevíamos, a sala do ‘‘camão’’, como é chamada, está lotada. São vários grupos amontoados, e é difícil saber quantas pessoas participam de cada um deles. Não demora muito e um forte odor toma conta do recinto. É hora de chamar o táxi. A conta fica em R$ 80 – R$ 60 só do valor da entrada para o casal.

No carro, comentamos nossas impressões finais e chegamos à mesma conclusão: o que vimos na casa não nos chocou, tampouco excitou. Fomos envolvidos em uma atmosfera de tanta naturalidade que mesmo a visão do sexo grupal ao vivo e em cores se tornou banal. Estava dado o primeiro passo para a compreensão do mundo swinger.

por OMAR GODOY
com colaboração de CAROLINA GABARDO BELO
e reprodução de O Bacanal, de TIZIANO
novembro de 2008